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Metafísica - Livro V
O Léxico Filosófico
A Metafísica de Aristóteles (384 a.C. a 322 a.C.) é uma coleção de catorze tratados reunidos por editores depois da morte do autor, designados por letras gregas. O Livro V é chamado de Delta (Δ). Diferente dos demais, ele não desenvolve um argumento contínuo: funciona como um dicionário filosófico. São trinta capítulos curtos, cada um dedicado a definir um termo central do vocabulário de Aristóteles e a distinguir os vários sentidos em que esse termo é usado.
Por esse caráter de léxico, muitos estudiosos consideram o Livro V uma obra à parte, possivelmente composta de forma independente e depois inserida na coleção. O título e a ordenação dos tratados são tradicionalmente atribuídos a Andrônico de Rodes, no século I a.C., mas o ponto é debatido. Em alguns manuscritos e listas antigas este livro aparece com um nome próprio, o que reforça a hipótese de que circulou separadamente. Ele costuma ser usado como chave de leitura para o restante da obra: quando, mais adiante, Aristóteles fala em "causa", "potência" ou "substância", é aqui que estão registrados os sentidos que ele tem em mente.
Os Termos Definidos
O método é constante: para cada palavra, Aristóteles lista os sentidos em que ela se diz, do mais comum ao mais técnico, muitas vezes apontando qual sentido é primeiro e do qual os outros derivam. Entre os termos tratados estão princípio, causa, elemento, natureza, necessário, uno, ser, substância, potência, quantidade, qualidade, relação, limite e gênero. O capítulo sobre a causa, por exemplo, enuncia a conhecida distinção entre quatro sentidos de causa, que reaparece em várias outras obras de Aristóteles.
Conteúdo do Livro
- Os seis sentidos da palavra 'princípio' (archē): de onde algo começa, existe ou é conhecido — (Metafísica - Livro V 1)
- O termo "causa" e seus quatro sentidos — (Metafísica - Livro V 2)
- Elemento: o componente primeiro e indivisível de que algo é feito — (Metafísica - Livro V 3)
- Os vários sentidos da palavra 'natureza' (physis), do nascimento à essência das coisas — (Metafísica - Livro V 4)
- Necessário: o que não pode ser de outro modo (condição, força e o que é por si) — (Metafísica - Livro V 5)
- O uno: os sentidos da unidade, do contínuo, do todo e do indivisível — (Metafísica - Livro V 6)
- Os quatro sentidos do verbo "ser" — (Metafísica - Livro V 7)
- Os sentidos da palavra 'substância' (ousia): os corpos, a causa interna do ser, as partes que delimitam e a essência — (Metafísica - Livro V 8)
- O mesmo, o outro, o diferente e o semelhante: quando duas coisas são idênticas, diversas, diferentes ou parecidas — (Metafísica - Livro V 9)
- Os opostos: contradição, contrariedade, privação e relação; e o que difere em espécie ou em gênero — (Metafísica - Livro V 10)
- Anterior e posterior: os sentidos da prioridade (no espaço, no tempo, no movimento, no poder, na ordem, no conhecimento e na natureza) — (Metafísica - Livro V 11)
- Os sentidos da palavra 'potência' (dynamis): a capacidade de agir, de sofrer ação e de mudar; o possível e o impossível; a impotência — (Metafísica - Livro V 12)
- Os sentidos da palavra 'quantidade' (o quanto): a multiplicidade que se conta e a grandeza que se mede; quantidade por natureza e por acidente — (Metafísica - Livro V 13)
- Os sentidos da palavra 'qualidade' (o como é): a diferença que define a essência, a qualidade dos números, as alterações dos corpos e a virtude e o vício — (Metafísica - Livro V 14)
- O 'relativo': o que se diz sempre em relação a outra coisa (o dobro e a metade, o que age e o que sofre, o conhecimento e o que se conhece) — (Metafísica - Livro V 15)
- Completo (perfeito): o que não deixa faltar nenhuma parte, o que não pode ser superado em seu gênero e o que atingiu o seu fim — (Metafísica - Livro V 16)
- Os sentidos da palavra 'limite' (peras): a extremidade de cada coisa, a forma, o fim e a essência — (Metafísica - Livro V 17)
- "Aquilo segundo o qual" e o "por si mesmo" — (Metafísica - Livro V 18)
- O sentido da palavra 'disposição': a ordem das partes de uma coisa quanto ao lugar, à capacidade ou à forma — (Metafísica - Livro V 19)
- O termo "ter" / "hábito" (héxis): atividade e disposição estável — (Metafísica - Livro V 20)
- O que é uma "afecção" — (Metafísica - Livro V 21)
- O termo "privação" (steresis): a falta de algo que se deveria ter por natureza — (Metafísica - Livro V 22)
- Os sentidos de "ter", "possuir" e "conter" — (Metafísica - Livro V 23)
- O que significa "vir de" ou "proceder de algo" — (Metafísica - Livro V 24)
- Os sentidos de "parte" — (Metafísica - Livro V 25)
- Os sentidos de "todo" e a diferença entre todo e total — (Metafísica - Livro V 26)
- O que significa "mutilado" — (Metafísica - Livro V 27)
- Os sentidos de "gênero" (genos) e o que torna coisas distintas em gênero — (Metafísica - Livro V 28)
- Falso: a coisa falsa, a descrição falsa e o mentiroso — (Metafísica - Livro V 29)
- O "acidente": o que acontece por coincidência — (Metafísica - Livro V 30)
Texto e Tradução
A versão em português usada aqui se apoia na tradução inglesa de W. D. Ross, publicada em Oxford em 1908 e hoje em domínio público. As referências de página seguem a numeração padrão da edição de Immanuel Bekker (Berlim, 1831), citada por número de página, coluna e linha, que é a forma usual de localizar passagens em qualquer edição de Aristóteles.
Influência no Pensamento Cristão
O Livro V é, talvez, o tratado da Metafísica com a herança mais visível na teologia cristã, ainda que de modo indireto. Os termos que ele fixa, substância, essência, causa, potência, acidente, quantidade, relação, são exatamente os que, traduzidos para o latim como substantia, essentia, causa, potentia, accidens, se tornaram o vocabulário técnico da escolástica medieval. Quando os teólogos discutiam a relação entre as pessoas da Trindade, a união das duas naturezas em Cristo ou o que acontece no sacramento, faziam-no com palavras cujos sentidos haviam sido distinguidos aqui.
Esse vocabulário também passou para a linguagem dos concílios. A distinção entre o que uma coisa é em si, a sua substância, e as propriedades que pode ganhar ou perder sem deixar de ser o que é, os seus acidentes, é a mesma que o Concílio de Trento empregaria para formular a doutrina da transubstanciação, tema que aparece com mais força no Livro VII. Importa notar, com honestidade, que Aristóteles cunhou esses termos para descrever o mundo natural, sem qualquer intenção teológica. A teologia cristã os tomou de empréstimo e os reaplicou a realidades que Aristóteles nunca considerou, como um Deus trino ou um corpo presente sob aparências de pão.
Relevância para o Cristão de Hoje
Para quem lê teologia cristã hoje, o Livro V funciona como um glossário de origem. Muitas confusões em debates sobre a Trindade ou os sacramentos nascem de usar palavras como "substância" e "pessoa" sem perceber que elas carregam um sentido técnico herdado daqui. Conhecer esse léxico ajuda a ler com mais precisão tanto os textos antigos quanto as controvérsias modernas. Ao mesmo tempo, é justo reconhecer que essa herança não é neutra entre as tradições cristãs: parte da teologia protestante desconfia precisamente do peso que esses conceitos aristotélicos ganharam na doutrina católica, por entender que eles foram além do que as Escrituras afirmam. O Livro V não decide essa disputa; apenas mostra de onde vêm as palavras com que ela é travada.