Metafísica - Livro V 14
Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um
Os sentidos da palavra 'qualidade' (o como é): a diferença que define a essência, a qualidade dos números, as alterações dos corpos e a virtude e o vício
'Qualidade' significa, em primeiro lugar, a diferença que distingue a essência de uma coisa. Por exemplo, o homem é um animal com certa qualidade porque tem dois pés, e o cavalo tem outra qualidade porque tem quatro pés. Do mesmo modo, o círculo é uma figura de qualidade particular porque não tem ângulos. Isso mostra que a diferença essencial é uma qualidade. Esse é, portanto, um sentido de qualidade: a diferença que define a essência.
Há um segundo sentido, que se aplica aos objetos imóveis da matemática. É o sentido em que se diz que os números têm certa qualidade. É o caso dos números compostos, aqueles que não existem só em uma dimensão e dos quais o plano e o sólido são cópias, ou seja, os números que resultam de dois ou três fatores multiplicados. De modo geral, aquilo que existe na essência dos números, para além da simples quantidade, é a sua qualidade. A essência de cada número é o que ele é uma única vez: a essência do 6, por exemplo, não é o que ele é duas ou três vezes, mas o que ele é uma vez, pois 6 é uma vez 6.
Em terceiro lugar, chamamos de qualidade todas as alterações que afetam as substâncias capazes de movimento, como o calor e o frio, o branco e o preto, o pesado e o leve, e outras parecidas. É por causa dessas alterações que se diz que os corpos mudam de estado quando se transformam.
Em quarto lugar, há a qualidade no sentido de virtude e vício e, de modo geral, do mal e do bem.
A qualidade parece ter, então, basicamente dois sentidos, e um deles é o mais próprio. A qualidade primária é a diferença que define a essência, e a qualidade dos números é uma parte dela, pois também é uma diferença de essências, mas de coisas que ou não se movem, ou não são consideradas enquanto se movem.
O segundo sentido reúne as alterações das coisas que se movem, consideradas justamente enquanto se movem, e as diferenças entre os movimentos. A virtude e o vício caem nesse grupo de alterações, pois indicam diferenças no movimento ou na atividade, conforme as quais as coisas em movimento agem ou são afetadas de modo bom ou ruim. Aquilo que pode ser movido ou agir de uma certa maneira é bom, e aquilo que pode ser movido ou agir da maneira contrária é mau. O bem e o mal indicam qualidade sobretudo nos seres vivos e, entre estes, sobretudo nos que agem com um propósito.