Metafísica - Livro V 29
Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um
FALSO: a coisa falsa, a descrição falsa e o mentiroso
"O falso" tem vários sentidos. O primeiro é a coisa falsa, e ela é falsa de dois modos. No primeiro, porque é algo que não está combinado ou que não pode ser combinado, como dizer "a diagonal de um quadrado tem medida exata em relação ao lado", o que é sempre impossível, ou "você está sentado", o que às vezes é verdade e às vezes não. Nesses dois casos, trata-se de algo que não existe da forma afirmada.
No segundo modo, há coisas que realmente existem, mas cuja natureza é parecer aquilo que não são, ou parecer coisas que nem sequer existem, como um desenho ou um sonho. O desenho e o sonho são alguma coisa, mas não são aquilo cuja imagem produzem em nós. Por isso chamamos algo de falso de duas maneiras: ou porque a própria coisa não existe, ou porque a aparência que ela gera é a de algo que não existe.
O segundo sentido de "falso" é a descrição falsa. Uma descrição é falsa quando é a descrição de objetos que não existem, justamente naquilo em que ela é falsa. Por isso toda descrição é falsa quando aplicada a algo diferente daquilo que ela descreve com verdade. Por exemplo, a descrição de um círculo é falsa quando aplicada a um triângulo.
Em certo sentido, há uma só descrição de cada coisa, que é a descrição de sua essência, daquilo que ela é. Mas em outro sentido há muitas descrições, porque a coisa em si e a coisa em si com algum atributo são, de certo modo, a mesma coisa. Por exemplo, Sócrates e Sócrates músico são, num certo sentido, a mesma pessoa. Uma descrição falsa, a rigor, não é descrição de coisa nenhuma, a não ser num sentido limitado.
Por isso Antístenes foi simplório demais ao afirmar que nada pode ser descrito a não ser pela descrição que lhe é própria, uma só afirmação para um só sujeito. Daí ele concluía que não poderia existir contradição e quase que não poderia existir erro algum.
Mas é possível descrever cada coisa não só pela descrição dela mesma, mas também pela descrição de outra coisa. Isso pode ser feito de modo totalmente falso, mas há também um modo de fazê-lo com verdade. Por exemplo, o oito pode ser descrito como um número dobrado usando a definição do dois.
Essas coisas, então, são chamadas falsas nesses sentidos. O terceiro sentido de "falso" é a pessoa mentirosa. É aquela que tem facilidade para esse tipo de descrição falsa e gosta dela, não por nenhum outro motivo a não ser pela própria mentira, e que é boa em incutir tais descrições nas outras pessoas, assim como dizemos que são falsas as coisas que produzem uma aparência falsa.
É por isso que a prova apresentada no diálogo Hípias, de que o mesmo homem é falso e verdadeiro, induz ao engano. Ela parte do princípio de que é falso aquele que é capaz de enganar, ou seja, o homem que sabe e é sábio. E supõe ainda que quem é mau de propósito é melhor do que quem é mau sem querer.
Esse é um resultado falso obtido por indução. O exemplo usado é que um homem que manca de propósito é melhor do que um que manca sem querer. Por "mancar" Platão entende "imitar um manco". Mas se o homem fosse de fato coxo de propósito, ele seria pior nesse caso, do mesmo modo que é pior aquele que é mau de propósito no terreno do caráter moral.