Metafísica - Livro V 11
Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um
ANTERIOR e POSTERIOR: os sentidos da prioridade (no espaço, no tempo, no movimento, no poder, na ordem, no conhecimento e na natureza)
As palavras "anterior" e "posterior" se aplicam, num primeiro sentido, a certas coisas porque elas estão mais perto de algum ponto de partida (isso supondo que exista um primeiro, ou seja, um começo, em cada classe de coisas). Esse começo pode ser determinado de modo absoluto e pela natureza, ou então em relação a alguma outra coisa, ou em algum lugar, ou por certas pessoas. Por exemplo, as coisas são anteriores no espaço quando estão mais perto de algum lugar fixado pela natureza, como o ponto do meio ou o ponto final, ou então mais perto de algum objeto qualquer escolhido por nós. E aquilo que está mais longe é posterior.
Outras coisas são anteriores no tempo. Algumas por estarem mais distantes do momento presente, no caso dos acontecimentos passados. A guerra de Troia, por exemplo, é anterior à guerra dos persas, porque está mais distante de agora. Outras coisas são anteriores no tempo por estarem mais perto do presente, no caso dos acontecimentos futuros. Se tomarmos o momento presente como ponto de partida, os jogos Nemeus são anteriores aos jogos Píticos, porque estão mais perto de agora.
Outras coisas são anteriores no movimento. Aquilo que está mais perto do primeiro motor é anterior. O menino, por exemplo, é anterior ao homem adulto. E o primeiro motor é um começo de modo absoluto.
Outras coisas são anteriores em poder. Aquilo que tem mais poder, ou seja, o mais poderoso, é anterior. É aquele de cuja vontade depende que o outro, o posterior, tenha que segui-lo. Assim, se o anterior não o põe em movimento, o outro não se move; e se ele o põe em movimento, o outro se move. Aqui a vontade é o começo.
Outras coisas são anteriores na ordenação. São aquelas que ficam dispostas em intervalos, em relação a um único ponto fixo, segundo alguma regra. No coro, por exemplo, o segundo integrante é anterior ao terceiro; e na lira, a segunda corda mais grave é anterior à corda mais grave de todas. Num caso o começo é o líder do coro, e no outro é a corda do meio.
Esses são os modos em que se diz "anterior" nesse primeiro sentido. Mas num segundo sentido, aquilo que é anterior para o conhecimento é tratado como também anterior de modo absoluto. Dentro desse grupo, as coisas que são anteriores na definição não coincidem com as que são anteriores em relação à percepção. Pois na definição os universais são anteriores, enquanto em relação à percepção são anteriores os indivíduos.
Na definição, além disso, o acidente é anterior ao todo. Por exemplo, "musical" é anterior a "homem musical", porque a definição do todo não pode existir sem essa parte. E, no entanto, não pode haver musicalidade sem que exista alguém que seja musical.
Num terceiro sentido, as propriedades das coisas anteriores são chamadas de anteriores. Por exemplo, a retidão é anterior à lisura, porque uma é propriedade da linha enquanto linha, e a outra é propriedade da superfície.
Algumas coisas, então, são chamadas de anteriores e posteriores nesses sentidos. Outras são assim chamadas, num quarto sentido, quanto à natureza e à substância. São anteriores aquelas que podem existir sem as outras, enquanto as outras não podem existir sem elas. Essa foi uma distinção usada por Platão.
Se considerarmos os vários sentidos de "ser", vemos o seguinte. Em primeiro lugar, o sujeito é anterior, de modo que a substância é anterior. Em segundo lugar, conforme levemos em conta a potência ou a realização plena, coisas diferentes são anteriores. Pela potência, a metade de uma linha é anterior à linha inteira, a parte é anterior ao todo, e a matéria é anterior à substância concreta. Mas pela realização plena essas coisas são posteriores, pois elas só existirão de modo pleno depois que o todo for desfeito.
Num certo sentido, portanto, todas as coisas que são chamadas de anteriores e posteriores se dizem assim em referência a esse quarto sentido. Pois algumas coisas podem existir sem as outras quanto à geração, como o todo sem as partes; e outras podem existir sem as outras quanto à dissolução, como a parte sem o todo. E o mesmo vale para todos os demais casos.