Metafísica - Livro V 4

Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um

Os vários sentidos da palavra 'natureza' (physis), do nascimento à essência das coisas

'Natureza' significa, num primeiro sentido, o nascimento das coisas que crescem, como sugeriria a pronúncia da palavra grega com a vogal alongada.
Num segundo sentido, é aquela parte interna de uma coisa que cresce, a partir da qual o seu crescimento começa.
Num terceiro sentido, é a fonte de onde provém o movimento primeiro de cada objeto natural, movimento que está presente nele por causa daquilo que ele é em si mesmo. Dizemos que crescem as coisas que recebem aumento de algo diferente delas por contato e, ou por unidade orgânica, ou por aderência orgânica, como acontece nos embriões.
A unidade orgânica difere do simples contato: no contato não precisa haver nada além do próprio toque, mas nas unidades orgânicas existe algo idêntico nas duas partes, e é isso que as faz crescer juntas em vez de apenas se tocarem, e ser uma coisa quanto à continuidade e à quantidade, embora não quanto à qualidade.
Num quarto sentido, 'natureza' significa o material primeiro de que um objeto natural é feito ou do qual ele é produzido, material que ainda não tem forma própria e não pode mudar por sua própria capacidade. Por exemplo, dizemos que o bronze é a natureza de uma estátua e dos utensílios de bronze, e que a madeira é a natureza das coisas de madeira; e assim em todos os outros casos. Quando um produto é feito desses materiais, a matéria primeira permanece nele do começo ao fim.
É nesse sentido que as pessoas também chamam de natureza os elementos dos objetos naturais: alguns dizem que é o fogo, outros a terra, outros o ar, outros a água, outros ainda alguma coisa parecida, alguns mais de um desses, e outros todos eles.
Num quinto sentido, 'natureza' significa a essência dos objetos naturais, como entendem os que dizem que a natureza é o modo primeiro de composição das coisas, ou como diz Empédocles:
Nada do que existe tem uma natureza; existe apenas a mistura e a separação daquilo que foi misturado, e 'natureza' é um nome que os homens deram a isso.
Por isso, no que diz respeito às coisas que existem ou passam a existir por natureza, mesmo quando aquilo de que elas naturalmente surgem está presente, dizemos que elas ainda não têm a sua natureza, a não ser que tenham a sua forma ou figura.
Aquilo que reúne as duas coisas, matéria e forma, existe por natureza, como os animais e as suas partes. E não é a matéria primeira que é natureza (e isso em dois sentidos: ou a primeira em relação à própria coisa, ou a primeira de modo geral; por exemplo, nas obras de bronze, o bronze é o primeiro em relação a elas, mas de modo geral talvez a água seja o primeiro, se tudo o que pode ser derretido for água), mas também é natureza a forma ou essência, que é o fim do processo de vir a ser.
Por uma ampliação desse sentido de 'natureza', toda essência em geral passou a ser chamada de 'natureza', porque a natureza de uma coisa é um tipo de essência.
Pelo que foi dito, fica claro então que natureza, no sentido primeiro e estrito, é a essência das coisas que têm em si mesmas, enquanto tais, uma fonte de movimento. A matéria é chamada de natureza porque é capaz de receber essa fonte, e os processos de vir a ser e de crescer são chamados de natureza porque são movimentos que partem dela.
E a natureza, nesse sentido, é a fonte do movimento dos objetos naturais, estando presente neles de algum modo, seja em potência, seja em realização plena.