Metafísica - Livro V 12

Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um

Os sentidos da palavra 'potência' (dynamis): a capacidade de agir, de sofrer ação e de mudar; o possível e o impossível; a impotência

Chamamos de 'potência' (1) a fonte de movimento ou mudança que está em outra coisa diferente da que é movida, ou na própria coisa enquanto ela é tomada como outra. Por exemplo, a arte de construir é uma potência que não está naquilo que é construído, ao passo que a arte de curar, que também é uma potência, pode estar no próprio homem que é curado, mas não nele enquanto curado. Então 'potência' significa, de modo geral, a fonte de mudança ou movimento em outra coisa, ou na própria coisa enquanto tomada como outra.
Chamamos de 'potência' também (2) a fonte pela qual uma coisa pode ser movida por outra, ou por si mesma enquanto tomada como outra. Pois é em virtude daquele princípio pelo qual algo recebe uma ação que dizemos que esse algo é 'capaz' de sofrer essa ação. Às vezes dizemos isso se a coisa pode sofrer qualquer ação; outras vezes, não a respeito de tudo o que pode sofrer, mas apenas se ela pode sofrer uma mudança para melhor.
Chamamos de 'potência' ainda (3) a capacidade de realizar algo bem, ou de acordo com a intenção. Pois às vezes, de quem apenas consegue andar ou falar, mas não bem ou não como pretende, dizemos que essa pessoa não sabe falar ou andar. E o mesmo vale (4) no caso de receber uma ação.
Chamamos ainda de 'potências' (5) os estados em virtude dos quais as coisas são totalmente imunes a sofrer ação, ou imutáveis, ou não se deixam mudar facilmente para pior. Pois as coisas são quebradas, esmagadas, entortadas e em geral destruídas não por terem uma potência, mas por não terem, por lhes faltar alguma coisa. E elas ficam imunes a esses processos se são afetadas por eles de forma escassa e leve, justamente por causa de uma 'potência', porque 'podem' fazer algo e estão em algum estado positivo.
Como 'potência' tem essa variedade de sentidos, também aquilo que é 'potente' ou 'capaz' terá sentidos diferentes. Num sentido, significa aquilo que pode dar início a um movimento (ou a uma mudança em geral, pois até o que pode levar as coisas ao repouso é uma coisa 'potente') em outra coisa, ou em si mesmo enquanto tomado como outro. Noutro sentido, significa aquilo sobre o qual outra coisa tem tal potência.
Noutro sentido ainda, 'capaz' é aquilo que tem a potência de mudar para algo, seja para pior ou para melhor. Pois até o que perece é considerado 'capaz' de perecer, que não teria perecido se não fosse capaz disso; mas, de fato, ele tem uma certa disposição, causa e princípio que o tornam apto a sofrer isso. Às vezes uma coisa é considerada desse tipo porque tem algo, às vezes porque está privada de algo.
Ora, se a privação é, em certo sentido, um 'ter' ou uma 'posse', então toda coisa será capaz por ter algo, de modo que as coisas são capazes tanto por terem uma posse e um princípio positivos quanto por terem a privação deles, se é possível ter uma privação. E se a privação não é, em certo sentido, uma 'posse', então 'capaz' é usado em dois sentidos distintos.
Num outro sentido, uma coisa é capaz porque nenhuma outra coisa, nem ela mesma enquanto tomada como outra, tem uma potência ou princípio que possa destruí-la. Além disso, todas essas coisas são capazes ou simplesmente porque o fato pode acontecer ou não acontecer, ou porque pode acontecer bem. Esse tipo de potência se encontra até em coisas sem vida, como nos instrumentos. Pois dizemos que uma lira pode soar e outra não pode soar de modo nenhum, se não tem um bom timbre.
A impotência é a privação da capacidade, isto é, a falta de um princípio do tipo que descrevemos, seja de modo geral, seja no caso de algo que naturalmente teria a capacidade, ou até no momento em que naturalmente a teria. Pois são distintos os sentidos em que diríamos que um menino, um homem adulto e um eunuco são 'incapazes de gerar'. Além disso, a cada tipo de capacidade corresponde uma impotência oposta: tanto àquela que pode produzir movimento quanto àquela que pode produzi-lo bem.
Algumas coisas, então, são chamadas de impossíveis em virtude desse tipo de impotência, enquanto outras o são num sentido diferente. Ou seja, 'possível' e 'impossível' são usados do seguinte modo. O impossível é aquilo cujo contrário é necessariamente verdadeiro. Por exemplo, é impossível que a diagonal de um quadrado seja comensurável com o lado, porque essa afirmação é uma falsidade cujo contrário não é verdadeiro, mas também necessário. Que a diagonal seja comensurável, portanto, não é falso, mas necessariamente falso.
O contrário disso, o possível, ocorre quando não é necessário que o contrário seja falso. Por exemplo, é possível que um homem esteja sentado, pois que ele não esteja sentado não é necessariamente falso. O possível, então, num sentido, como foi dito, significa aquilo que não é necessariamente falso; noutro, aquilo que é verdadeiro; noutro, aquilo que pode vir a ser verdadeiro.
A 'potência' ou 'poder' na geometria recebe esse nome por uma mudança de significado. Esses sentidos de 'capaz' ou 'possível' não envolvem nenhuma referência à potência.
Mas os sentidos que envolvem uma referência à potência remetem todos ao tipo primário de potência, e este é uma fonte de mudança em outra coisa, ou na própria coisa enquanto tomada como outra. Pois as outras coisas são chamadas de 'capazes' algumas porque outra coisa tem tal potência sobre elas, algumas porque não tem, algumas porque a tem de um modo particular. O mesmo vale para as coisas que são incapazes. Portanto, a definição própria do tipo primário de potência será: 'uma fonte de mudança em outra coisa, ou na própria coisa enquanto tomada como outra'.