Metafísica - Livro V 7

Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um

Os quatro sentidos do verbo "ser"

Diz-se que as coisas "são" de dois modos: (1) num sentido acidental e (2) por sua própria natureza.
(1) No sentido acidental, dizemos coisas como "o justo é músico", "o homem é músico" e "o músico é homem", do mesmo jeito que dizemos "o músico constrói", porque acontece de o construtor ser músico, ou de o músico ser construtor. Aqui, dizer que "uma coisa é outra" significa que "uma é um acidente da outra".
É o que ocorre nos exemplos citados. Quando dizemos "o homem é músico" e "o músico é homem", ou "quem é pálido é músico" e "o músico é pálido", estes dois últimos significam que as duas características são acidentes de uma mesma coisa. "o músico é homem" significa que ser músico é um acidente de um homem, e "o homem é músico" significa que ser músico é um acidente daquilo que existe.
Nesse mesmo sentido se diz que o "não pálido" é, porque aquilo de que ele é acidente existe. Então, quando se diz num sentido acidental que uma coisa é outra, isso ocorre por uma de três razões: porque ambas pertencem à mesma coisa, que existe; ou porque aquilo a que a característica pertence existe; ou porque existe o próprio sujeito que tem como característica aquilo de que ele mesmo é afirmado.
(2) Os modos do ser por si mesmo são exatamente aqueles indicados pelas figuras da predicação (as categorias), pois tantos sentidos de "ser" quantas são essas figuras. que alguns predicados indicam o que o sujeito é, outros sua qualidade, outros sua quantidade, outros sua relação, outros sua ação ou paixão, outros o "onde" e outros o "quando", o "ser" tem um significado correspondente a cada um deles.
Pois não diferença entre "o homem está se recuperando" e "o homem se recupera", nem entre "o homem está andando ou cortando" e "o homem anda" ou "corta". O mesmo vale para todos os outros casos.
(3) Além disso, "ser" e "é" significam que uma afirmação é verdadeira, e "não ser" que ela não é verdadeira, mas falsa. Isso vale tanto para o afirmar quanto para o negar. Por exemplo, "Sócrates é músico" significa que isso é verdadeiro, e "Sócrates não é pálido" significa que isso é verdadeiro. "a diagonal do quadrado não é comensurável com o lado" significa que é falso dizer que ela é.
(4) Além disso, "ser" e "aquilo que é" significam que algumas das coisas mencionadas existem em potência e outras em plena realidade (ato). Dizemos que tanto aquilo que em potência quanto aquilo que de fato; dizemos que sabe tanto aquele que pode usar seu conhecimento quanto aquele que o está usando; e dizemos que descansa tanto aquilo que está em repouso quanto aquilo que pode repousar.
O mesmo ocorre com as substâncias. Dizemos que o Hermes está na pedra, que a metade da linha está na linha, e dizemos que aquilo que ainda não amadureceu é trigo. Em que momento uma coisa está em potência e em que momento ainda não está, isso precisa ser explicado em outro lugar.