Metafísica - Livro V 6
Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um
O UNO: os sentidos da unidade, do contínuo, do todo e do indivisível
A palavra "um" tem dois usos básicos: ela designa (1) aquilo que é um por acidente e (2) aquilo que é um por sua própria natureza.
São casos do que é um por acidente: "Corisco e o que é musical" e "Corisco musical" (pois dizer "Corisco e o que é musical" é o mesmo que dizer "Corisco musical"); e ainda "o que é musical e o que é justo", e "Corisco musical e Corisco justo". Todos esses são chamados de um em razão de um acidente.
"O que é justo e o que é musical" são um porque ambos são acidentes de uma mesma substância. "O que é musical" e "Corisco" são um porque um é acidente do outro. Do mesmo modo, em certo sentido, "Corisco musical" é um com "Corisco", porque uma das partes da expressão é acidente da outra, isto é, "musical" é acidente de Corisco. E "Corisco musical" é um com "Corisco justo" porque uma parte de cada um é acidente de um só e mesmo sujeito.
O caso é parecido quando o acidente se afirma de um gênero ou de qualquer nome universal. Por exemplo, se alguém diz que homem é o mesmo que "homem musical": isso ocorre ou porque "musical" é acidente de homem, que é uma só substância, ou porque ambos são acidentes de algum indivíduo, como Corisco. Mas os dois não pertencem a ele do mesmo modo: um pertence como gênero e está incluído em sua substância, o outro como um estado ou afecção da substância.
Essas, então, são as coisas chamadas de um em razão de um acidente. Já entre as coisas chamadas de um por sua própria natureza, algumas (a) recebem esse nome porque são contínuas. Por exemplo, um feixe é feito um por uma corda, e pedaços de madeira são feitos um pela cola. Uma linha, mesmo que esteja dobrada, é chamada de uma se for contínua, assim como cada parte do corpo é, por exemplo, a perna ou o braço.
Dentre essas próprias coisas, as que são contínuas por natureza são mais um do que as que são contínuas por arte. Chama-se contínuo aquilo que, por sua própria natureza, tem um só movimento e não pode ter outro. O movimento é um quando é indivisível, e é indivisível quanto ao tempo.
São contínuas por sua própria natureza as coisas que são um não apenas por contato. Pois se você puser pedaços de madeira encostados uns nos outros, não dirá que são um só pedaço de madeira, nem um só corpo, nem um só contínuo de qualquer outro tipo.
As coisas que são contínuas de algum modo são, portanto, chamadas de um, mesmo que admitam ser dobradas, e ainda mais aquelas que não podem ser dobradas. Por exemplo, a canela ou a coxa é mais um do que a perna inteira, porque o movimento da perna não precisa ser um só.
E a linha reta é mais um do que a curva. Aquilo que é curvo e tem um ângulo nós chamamos ao mesmo tempo de um e de não um, porque seu movimento pode ser simultâneo ou não. Já o movimento da linha reta é sempre simultâneo: nenhuma parte dela que tenha extensão fica parada enquanto outra se move, como acontece na linha curva.
(b) As coisas são chamadas de um, em outro sentido, porque aquilo que está por baixo delas e as sustenta não difere em tipo. E não difere no caso das coisas cujo tipo é indivisível para os sentidos. Aquilo que está por baixo a que se refere é o mais próximo do estado final ou o mais distante dele. Por um lado, o vinho é dito um e a água é dita uma, enquanto indivisíveis em tipo. Por outro lado, todos os sucos, como o óleo e o vinho, são ditos um, e também todas as coisas que podem ser derretidas, porque o que está por baixo de tudo, no fim, é o mesmo: todas elas são água ou ar.
Também são chamadas de um as coisas cujo gênero é um, ainda que se distingam por diferenças opostas. Elas são todas chamadas de um porque o gênero que está por baixo das diferenças é um (por exemplo, cavalo, homem e cão formam uma unidade, porque todos são animais), de modo parecido àquele em que a matéria é uma.
Essas coisas são às vezes chamadas de um desse jeito; mas, outras vezes, é o gênero mais alto que se diz ser o mesmo (quando elas são as espécies mais baixas de seu gênero): o gênero que está acima dos gêneros mais próximos. Por exemplo, o triângulo isósceles e o equilátero são uma só e mesma figura, porque ambos são triângulos; mas não são os mesmos triângulos.
(c) Duas coisas são chamadas de um quando a definição que enuncia a essência de uma é indivisível de outra definição que nos mostra a outra coisa (ainda que, em si mesma, toda definição seja divisível). Assim, até aquilo que aumentou ou está diminuindo é um, porque sua definição é uma, como, no caso das figuras planas, é uma a definição de sua forma.
De modo geral, são um no mais alto grau aquelas coisas cujo pensamento da essência é indivisível, e que não se podem separar nem no tempo, nem no espaço, nem na definição; e, dentre essas, sobretudo as que são substâncias. Pois, de modo geral, as coisas que não admitem divisão são chamadas de um na medida em que não a admitem. Por exemplo, se duas coisas são indistinguíveis enquanto homem, são um só tipo de homem; se enquanto animal, um só tipo de animal; se enquanto extensão, um só tipo de extensão.
Ora, a maioria das coisas é chamada de um porque faz, ou tem, ou sofre, ou se relaciona com alguma outra coisa que é uma. Mas as coisas chamadas de um em primeiro lugar são aquelas cuja substância é uma, e una seja por continuidade, seja por forma, seja por definição. Pois contamos como mais de um ou as coisas que não são contínuas, ou aquelas cuja forma não é uma, ou aquelas cuja definição não é uma.
Num sentido, chamamos qualquer coisa de uma se ela é uma quantidade e é contínua; mas, em outro sentido, não a chamamos de uma a menos que seja um todo, isto é, a menos que tenha unidade de forma. Por exemplo, se víssemos as peças de um sapato montadas de qualquer jeito, não as chamaríamos de uma só coisa por isso (a não ser por causa da continuidade); só fazemos isso se elas estão montadas de modo a formar um sapato e a já ter uma certa forma única. É por isso que o círculo é, de todas as linhas, a mais verdadeiramente una, porque é inteiro e completo.
(3) A essência do que é um consiste em ser uma espécie de ponto de partida do número. Pois a primeira medida é o ponto de partida, já que aquilo pelo qual primeiro conhecemos cada classe de coisas é a primeira medida dessa classe. O um, então, é o ponto de partida do que se pode conhecer em cada classe. Mas o um não é o mesmo em todas as classes: aqui é um quarto de tom, ali é a vogal ou a consoante, e há ainda uma unidade diferente para o peso e outra para o movimento. Mas, em toda parte, o um é indivisível, seja em quantidade, seja em tipo.
Aquilo que é indivisível em quantidade chama-se unidade se não for divisível em nenhuma dimensão e não tiver posição; chama-se ponto se não for divisível em nenhuma dimensão mas tiver posição; linha se for divisível em uma dimensão; plano se em duas; corpo se for divisível em quantidade em todas as três dimensões. E, invertendo a ordem: o que é divisível em duas dimensões é um plano, o que é divisível em uma é uma linha, o que de modo algum é divisível em quantidade é um ponto ou uma unidade. Aquilo que não tem posição é uma unidade; o que tem posição é um ponto.
Além disso, algumas coisas são um em número, outras em espécie, outras em gênero, outras por analogia. São um em número aquelas cuja matéria é uma; um em espécie aquelas cuja definição é uma; um em gênero aquelas a que se aplica a mesma figura de predicação; um por analogia aquelas que se relacionam como uma terceira coisa se relaciona com uma quarta.
Esses tipos de unidade vão sempre dos casos mais restritos aos mais amplos: as coisas que são um em número também são um em espécie, mas nem todas as que são um em espécie são um em número. As que são um em espécie são todas um em gênero, mas as que são um em gênero não são todas um em espécie, embora sejam todas um por analogia. Já as que são um por analogia não são todas um em gênero.
É evidente que "muitos" terá sentidos opostos aos de "um". Algumas coisas são muitas porque não são contínuas; outras porque sua matéria (a mais próxima ou a última) é divisível em tipo; outras porque as definições que enunciam sua essência são mais de uma.