Metafísica - Livro V 9
Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um
O MESMO, O OUTRO, O DIFERENTE e O SEMELHANTE: quando duas coisas são idênticas, diversas, diferentes ou parecidas
Dizemos que duas coisas são 'o mesmo', em primeiro lugar, num sentido acidental. Por exemplo, 'o branco' e 'o musical' são o mesmo porque ambos são acidentes de uma mesma coisa. E 'um homem' e 'o musical' são o mesmo porque um é acidente do outro. E dizemos que 'o musical' é 'um homem' porque ser musical é um acidente do homem.
A coisa composta é a mesma que cada uma das simples, e cada uma das simples é a mesma que ela. Pois tanto 'o homem' quanto 'o musical' são ditos os mesmos que 'o homem musical', e este é o mesmo que eles.
É por isso que nenhuma dessas afirmações vale de modo universal. Não é verdade dizer que todo homem é o mesmo que 'o musical', pois os atributos universais pertencem às coisas por causa da própria natureza delas, mas os acidentes não pertencem a elas por causa da própria natureza. Já quando se trata dos indivíduos, as afirmações valem sem restrição.
Por exemplo, julga-se que 'Sócrates' e 'Sócrates musical' sejam o mesmo. Mas 'Sócrates' não se afirma de mais de um sujeito, e por isso não dizemos 'todo Sócrates' como dizemos 'todo homem'.
Algumas coisas são ditas 'o mesmo' nesse sentido acidental. Outras são o mesmo por sua própria natureza, em tantos sentidos quantos são aqueles em que algo é 'um' por sua própria natureza. Pois dizemos que são o mesmo tanto as coisas cuja matéria é uma, seja em espécie, seja em número, quanto as coisas cuja essência é uma.
Fica claro, portanto, que a mesmidade é uma unidade do ser. Ela pode ser a unidade do ser de mais de uma coisa, ou a unidade do ser de uma única coisa quando a tratamos como se fossem mais de uma. É o que fazemos ao dizer que uma coisa é a mesma que ela própria, pois aí a tratamos como se fossem duas.
Dizemos que duas coisas são 'outra' quando seus gêneros, ou suas matérias, ou as definições de sua essência são mais de um. De modo geral, 'outro' tem sentidos opostos aos de 'o mesmo'.
A palavra 'diferente' aplica-se, em primeiro lugar, àquelas coisas que, embora sejam outras, são as mesmas sob algum aspecto, só que não as mesmas em número, e sim as mesmas em espécie, ou em gênero, ou por analogia.
Em segundo lugar, 'diferente' aplica-se às coisas cujo gênero é outro, e aos contrários, e a todas as coisas que têm sua alteridade na própria essência.
Chamamos de 'semelhantes' aquelas coisas que têm os mesmos atributos sob todos os aspectos, e aquelas que têm mais atributos iguais do que diferentes, e aquelas cuja qualidade é uma só. Além disso, uma coisa é semelhante a outra quando partilha com ela o maior número, ou os mais importantes, dos atributos pelos quais as coisas são capazes de se alterar (cada um desses atributos sendo um de dois contrários). Os sentidos de 'dessemelhante' são opostos aos de 'semelhante'.