Metafísica - Livro V 22

Livro V (Delta): o dicionário filosófico de Aristóteles, com trinta termos-chave definidos um a um

O termo "privação" (steresis): a falta de algo que se deveria ter por natureza

Falamos em "privação" (steresis) num primeiro sentido quando algo não tem uma das características que poderia ter por natureza, ainda que essa característica não pertença naturalmente à própria coisa. Por exemplo, dizemos que uma planta está "privada" de olhos.
Num segundo sentido, falamos em privação quando algo deixa de ter uma característica que pertenceria por natureza a ele mesmo ou ao seu gênero. Um homem cego e uma toupeira estão "privados" da visão em sentidos diferentes: a toupeira em relação ao seu gênero, o homem em relação à sua própria natureza normal.
Num terceiro sentido, privação quando algo não tem a característica que teria por natureza, e justamente na época em que naturalmente deveria tê-la. A cegueira é uma privação, mas não se diz cego em qualquer idade, e sim apenas quando alguém não tem visão na idade em que naturalmente deveria ter.
Do mesmo modo, dizemos que algo é cego quando lhe falta a visão no meio em que, com o órgão com que, em relação ao objeto em relação ao qual, e nas circunstâncias em que naturalmente deveria enxergar.
Num quarto sentido, chamamos de privação a remoção forçada de qualquer coisa, quando algo é tirado à força.
tantos tipos de privação quantas são as palavras formadas com prefixos de negação. Dizemos que algo é "desigual" porque não tem a igualdade que teria por natureza; "invisível" porque não tem cor nenhuma ou porque tem uma cor fraca; e "sem pés" porque não tem pés ou porque tem pés imperfeitos.
Um termo de privação também pode ser usado quando a coisa tem pouco daquela característica, e ter pouco significa, num certo sentido, tê-la de forma imperfeita. É o caso, por exemplo, de uma fruta "sem caroço".
Também usamos o termo quando a coisa não tem a característica com facilidade ou de modo pleno. Chamamos algo de "que não se corta" não quando é impossível cortá-lo, mas também quando ele não se deixa cortar com facilidade ou de maneira satisfatória.
E usamos o termo, ainda, quando a coisa não tem a característica de jeito nenhum. Não é o homem de um olho que chamamos de cego, mas aquele que não enxerga com nenhum dos dois.
Por isso nem todo homem é simplesmente "bom" ou "mau", "justo" ou "injusto". Existe também um estado intermediário entre os dois extremos.