Capítulos

Um rolo de papiro parcialmente desenrolado, lacrado com selo de cera vermelha, ao lado de um anel de sinete e um tinteiro

Cartas - Livro IX

As últimas cartas literárias: ócio, caça, retórica e a despedida do gênero

Sobre a obra

As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou e revisou, publicadas provavelmente em levas sucessivas entre cerca de 99 e 109 d.C. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.

Este é o Livro IX, com 40 cartas, o último da coleção literária. As cartas são em média mais curtas e mais leves que nos livros anteriores. Dominam o ócio, a leitura, a caça, a retórica e a discussão sobre o próprio gênero epistolar. É o volume em que Plínio parece despedir-se do formato.

O liberto perdoado

O par mais lembrado do livro são as cartas 21 e 24, ambas a Sabiniano. Na primeira, o liberto com quem Sabiniano estava irritado procura Plínio, lança-se a seus pés e chora, e Plínio intercede: você está com raiva, e com razão, mas o maior mérito da clemência aparece justamente quando a causa da ira é a mais justa. Ele admite que repreendeu duramente o próprio suplicante e ameaçou nunca mais pedir por ele.

(Cartas - Livro IX 21:1-3)

A carta 24 é a nota curta de agradecimento depois que Sabiniano recebe o liberto de volta. Juntas, formam um dos poucos casos antigos em que se acompanha do começo ao fim uma reconciliação entre patrono e liberto. São leitura frequente ao lado da carta de Paulo a Filêmon, embora as situações não sejam equivalentes: aqui o homem já é liberto, não escravo fugitivo.

(Cartas - Livro IX 24:1)

Ócio, vilas e caça

Duas cartas descrevem o dia inteiro de Plínio, hora a hora: a 36, sobre o verão na vila da Toscana, com o despertar de janelas fechadas, a composição mental antes de chamar o secretário, o passeio, o banho e a ceia com leitura; e a 40, sobre o que muda no inverno em Laurento. Juntas são uma das descrições mais detalhadas que sobreviveram da rotina de um aristocrata romano.

(Cartas - Livro IX 36:1-2)

Há ainda a carta 10, a Tácito: Plínio se queixa da escassez de javalis e brinca com a dificuldade de cultuar ao mesmo tempo Minerva e Diana. Na carta 6, a Calvísio, conta ter passado os dias entre tabuinhas e livros. O motivo era o circo, que enchia Roma e não o prendia nem um pouco.

(Cartas - Livro IX 10:1)

Escrever, julgar e ser lembrado

O livro discute repetidamente o valor da palavra escrita. Plínio pede a Máximo que publique os discursos, defende diante de Rusão o epitáfio que Vergínio Rufo mandou gravar no próprio túmulo, e cita a sentença sobre um orador correto demais: não comete erro nenhum, a não ser o de não cometer erro nenhum. A carta 14, a Tácito, é brevíssima e trata da posteridade sem esconder a dúvida: se ela terá algum cuidado conosco, não sei.

(Cartas - Livro IX 14:1)

A carta 33, a Canínio, é o episódio mais narrativo do volume. Em Hipona, na África, um golfinho se aproxima dos meninos que nadam, deixa-se tocar e carrega um deles nas costas. A cidade acorre em massa, magistrados incluídos, e a visita deles consome as finanças locais. Perdido o sossego, decide-se matar o animal em segredo. Plínio oferece o caso ao amigo como matéria de poema e observa que não é preciso inventar nada, basta não diminuir o que é verdadeiro.

(Cartas - Livro IX 33:1-5)

Relevância

O Livro IX não trata de religião nem de cristãos. Seu interesse para quem estuda o século I e o começo do II é de contexto: mostra como um senador romano ocupava o tempo, o que lia, o que considerava virtude, e o peso que dava à clemência e à reputação póstuma. É o mundo social em que as comunidades cristãs cresciam sem aparecer nessas páginas.

A coleção termina aqui. O Livro X, que ele não organizou para publicação, é o único em que os cristãos entram, e entram como problema administrativo, nas cartas 96 e 97.

(Cartas - Livro X 96:1-10)