Cartas - Livro IX 26
As últimas cartas literárias: ócio, caça, retórica e a despedida do gênero
Caio Plínio a seu caro Luperco, saudações.
Disse sobre certo orador do nosso tempo, correto de fato e equilibrado, mas pouco grandioso e ornado, com acerto, creio: 'Não comete erro nenhum, a não ser o de não cometer erro nenhum.'
O orador deve erguer-se, elevar-se, às vezes até ferver e arrebatar-se, e muitas vezes chegar perto do precipício; pois quase sempre, perto das alturas e dos cumes, estão os abismos. Mais seguro é o caminho por terreno plano, mas é mais baixo e rasteiro; quem corre cai com mais frequência que quem rasteja, mas estes, se não caem, não merecem louvor algum, enquanto aqueles, ainda que tropecem, merecem.
Pois, assim como certas artes, também a eloquência nada recomenda mais do que o risco. Vês quanto clamor costumam provocar os que se equilibram na corda no alto, justamente quando parecem prestes a cair.
São mais admiráveis as coisas mais inesperadas, mais arriscadas e, como melhor exprimem os gregos, mais temerárias. Por isso, não é igual o mérito do piloto quando navega em mar calmo e quando navega em mar revolto: no primeiro caso, sem que ninguém o admire, entra no porto sem louvor e sem glória; mas quando as cordas rangem, o mastro se curva e o leme geme, então ele é célebre e quase um igual dos deuses do mar.
Por que digo isto? Porque me pareceu que tu marcaste em meus escritos como inchadas coisas que eu julgava sublimes, como excessivas as que eu julgava ousadas, como exageradas as que eu julgava plenas. Mas faz grande diferença se marcas o que deve ser censurado ou o que se destaca.
Pois todos reparam no que sobressai e ressalta; mas é preciso julgar com atenção aguda se é desmedido ou grandioso, elevado ou enorme. E para tocar de preferência em Homero, a quem afinal pode escapar, num sentido ou no outro, 'em torno trombeteou o grande céu' ... 'sua lança apoiou-se nas nuvens', e todo aquele trecho 'não troa tanto a onda do mar'?
Mas é preciso exame e balança para decidir se isso é incrível e vazio, ou magnífico e celeste. Não penso, agora, ter dito nem ser capaz de dizer coisas semelhantes a essas, não sou tão louco assim; mas quero que se entenda que se devem afrouxar as rédeas da eloquência, e que o ímpeto dos talentos não deve ser refreado num círculo estreitíssimo.
'Mas uma é a condição dos oradores, outra a dos poetas.' Como se Marco Túlio ousasse menos! Aliás, deixo-o de lado, pois penso que não há dúvida sobre ele. Mas o próprio Demóstenes, aquele padrão e regra do orador, acaso se contém e se reprime quando diz aquelas frases conhecidíssimas: 'homens infames, aduladores e malditos', e ainda 'não com pedras nem com tijolos fortifiquei a cidade', e logo 'acaso não pus a Eubeia como baluarte diante da Ática contra o mar', e em outro lugar: 'eu, ó atenienses, juro pelos deuses que penso que ele está embriagado com a grandeza dos próprios feitos'?
Que coisa mais ousada do que aquela belíssima e longuíssima digressão: 'pois uma doença'? O que dizer destas, mais breves que as anteriores, mas igualmente ousadas: 'então eu resisti a Pítion, que se mostrava insolente e se derramava em torrente contra vós'? Da mesma marca: 'quando alguém, por ganância e maldade, como este aqui, ganha força, o primeiro pretexto e o menor tropeço deita tudo a perder e dissolve'. Semelhante a estas: 'apartado de todos os direitos que há na cidade', e no mesmo lugar: 'tu, Aristogíton, traíste a compaixão devida a tais coisas, ou melhor, suprimiste-a de todo. Não procures, pois, ancorar nos portos que tu mesmo entulhaste e encheste de rochedos'. E dissera: 'para este não vejo nenhum destes lugares acessível, mas tudo precipícios, despenhadeiros, abismos'. E em seguida: 'temo que pareça a alguns que vós exercitais quem quer sempre ser malvado entre os da cidade'. E não basta: 'pois não creio que vossos antepassados vos tenham edificado estes tribunais para que neles cultiveis tais sujeitos'. E ainda: 'mas se ele é vendedor de maldade, e revendedor, e cambista', e mil coisas do gênero, para não falar daquelas que Ésquines chamava 'prodígios', não 'palavras'.
Caí no oposto: dirás que também ele é censurado por essas coisas. Mas vê quanto é maior aquele que é censurado do que o próprio censor, e maior justamente por essas coisas; pois nas outras brilha sua força, nestas, sua grandeza.
E o próprio Ésquines, acaso se absteve daquilo que reprovava em Demóstenes? 'Pois o orador e a lei devem falar a mesma voz; mas quando a lei emite uma voz e o orador outra ...' Em outro lugar: 'depois ele revela seus intentos sobre tudo no decreto'. De novo em outro: 'mas, postados em emboscada e à espreita na audiência, empurrai-o para discursos contrários às leis'.
Isso lhe agradou tanto que repete: 'mas, como nas corridas de cavalos, empurrai-o para a própria pista do assunto'. E aquelas, mais contidas e cerradas: 'tu abres feridas ...' ou 'agarrando-o como a um pirata que navega através do Estado'?
Espero que algumas coisas desta carta, como aquele 'o leme geme' e 'quase um igual dos deuses do mar', tu trespasses com as mesmas marcas com que trespassaste aquelas de que escrevo; pois percebo que, enquanto peço perdão pelas anteriores, caí justamente naquelas que tinhas marcado. Mas podes trespassar à vontade, contanto que desde já fixes um dia em que possamos, frente a frente, debater tanto sobre aquelas quanto sobre estas. Pois ou tu me tornarás tímido, ou eu te tornarei temerário. Adeus.