Cartas - Livro IX 13

As últimas cartas literárias: ócio, caça, retórica e a despedida do gênero

Caio Plínio ao seu Quadrato, saudações.

Quanto mais cuidadosa e atentamente você leu os livros que compus para a vingança de Helvídio, com tanto mais empenho pede que eu lhe escreva por inteiro tudo o que está fora dos livros e tudo o que cerca os livros, enfim toda a sequência de um caso do qual, por causa da sua idade, você não participou.
Morto Domiciano, refleti comigo mesmo e ponderei que havia uma grande e bela ocasião para perseguir os culpados, vingar os oprimidos e me projetar. Ora, entre os muitos crimes de muitos, nenhum parecia mais atroz do que o fato de, no senado, um senador ter erguido as mãos contra um senador, um homem de posição pretoriana contra um de posição consular, um juiz contra um réu.
Havia, aliás, entre mim e Helvídio uma amizade tão grande quanto podia haver com alguém que, pelo medo dos tempos, ocultava no retiro um nome imenso e virtudes à altura; havia também com Árria e Fânia, das quais uma era madrasta de Helvídio, a outra mãe da madrasta. Mas não eram tanto os vínculos privados quanto o dever público, a indignidade do ato e a importância do precedente que me impeliam.
Nos primeiros dias da liberdade restaurada, cada um por si havia acusado os seus inimigos, ao menos os de menor importância, em meio a um clamor desordenado e confuso, e ao mesmo tempo os havia esmagado. Eu, julgando mais comedido e mais firme atacar o réu mais monstruoso não pelo ódio comum aos tempos passados, mas por um crime específico, depois que aquele primeiro ímpeto tinha se aplacado e que a ira, mais fraca a cada dia, voltava à justiça, embora então estivesse de luto profundo por ter perdido havia pouco a esposa, mandei chamar Anteia, que tinha sido casada com Helvídio; peço que ela venha, porque o luto ainda recente me mantinha confinado em casa.
Quando ela veio, eu disse: "Estou decidido a não deixar a morte do seu marido sem vingança. Avise Árria e Fânia" (elas tinham voltado do exílio), "consulte a si mesma, consulte-as, se vocês querem ser associadas a um ato no qual não preciso de companhia; mas não favoreço tanto a minha glória a ponto de invejá-las dessa participação." Anteia transmite a mensagem, e elas não demoram.
Oportunamente o senado se reuniu dentro de três dias. Eu sempre levava tudo a Corélio, que reconheci ser o homem mais previdente e mais sábio da nossa época; neste caso, no entanto, contentei-me com o meu próprio juízo, temendo que ele me dissuadisse; pois era bastante hesitante e cauteloso. Mas não consegui me impedir de lhe indicar, naquele mesmo dia, que eu o faria, embora não estivesse deliberando se o faria, por ter aprendido pela experiência que, sobre o que você decidiu, não se deve consultar aqueles a quem, uma vez consultados, você deve obedecer.
Entro no senado, peço permissão para falar, falo por um momento com grande aprovação. Quando comecei a tocar na acusação e a apontar o réu, ainda sem nome, de todos os lados se ergueram protestos contra mim. Um dizia: "Saibamos quem é esse de quem você fala fora da ordem"; outro: "Quem é réu antes da denúncia?"; outro: "Estejamos a salvo, nós que sobrevivemos."
Ouço sem me perturbar, sem temor: tamanho é o valor da dignidade da causa assumida, e tanta diferença faz para a confiança ou o medo se os homens não querem ouvir o que você faz ou se o desaprovam. Seria longo enumerar tudo o que então foi lançado de um lado e de outro.
Por fim o cônsul disse: "Segundo, você falará no momento de dar seu parecer, se quiser algo." "Você concedeu", respondi, "o que até agora concedeu a todos."
Sento-me; trata-se de outros assuntos. Nesse meio-tempo, um dos meus amigos de posição consular, em conversa reservada e cuidadosa, me repreende e me chama de volta, como se eu tivesse avançado de forma corajosa e imprudente demais, e me adverte para desistir, acrescentando ainda: "Você se tornou alguém notável para os futuros príncipes." "Que seja", respondi, "desde que sejam maus."
Mal ele tinha se afastado, eis outro: "O que você ousa? Para onde corre? A que perigos se expõe? Por que confia no presente, incerto do futuro? Você provoca um homem prefeito do erário e em breve cônsul, além disso apoiado por que prestígio, por que amizades!" Ele nomeia certo personagem que então, no oriente, comandava um exército amplíssimo, não sem rumores graves e incertos.
A isso eu respondi: "Previ tudo e resolvi de antemão comigo mesmo, e não recuso, se o acaso assim o trouxer, pagar a pena por um ato honestíssimo, contanto que eu vingue um crime vergonhosíssimo."
Chega o momento de votar. Fala Domício Apolinar, cônsul designado; falam Fabrício Veientão, Fábio Postumino, Bítio Próculo, colega de Públio Certo, de quem se tratava, e padrasto da minha esposa que eu tinha perdido; depois deles, Âmio Flaco. Todos defendem Certo, que eu ainda não tinha nomeado, como se nomeado, e assumem a defesa da acusação como se ela tivesse sido deixada em aberto.
Não é preciso contar o que disseram além disso: você o tem nos livros, pois reproduzi tudo com as palavras deles mesmos.
Falam em sentido contrário Avídio Quieto e Cornuto Tertulo: Quieto, que é injustíssimo excluir as queixas dos que sofrem, e por isso não se deve tirar de Árria e Fânia o direito de reclamar, nem importa de que classe alguém seja, mas que causa tem;
Cornuto, que tinha sido designado pelos cônsules como tutor da filha de Helvídio, a pedido da mãe e do padrasto dela; e que mesmo agora não suportava abandonar as obrigações do seu dever, no qual, no entanto, impunha um limite à própria dor e suportava o sentimento muito moderado dessas excelentes mulheres; e que elas se contentavam em advertir o senado sobre a sanguinária adulação de Públio Certo e pedir que, ainda que se perdoasse a pena de um crime tão manifesto, ao menos ele fosse marcado com uma nota como que censória.
Então Sátrio Rufo, num discurso ambíguo e indeciso, disse: "Considero que se comete uma injustiça contra Públio Certo se ele não for absolvido; foi nomeado pelos amigos de Árria e Fânia, nomeado pelos seus próprios amigos. E não devemos nos preocupar; pois nós mesmos, que pensamos bem do homem, é que vamos julgá-lo. Se ele é inocente, como espero, prefiro e, até que algo seja provado, acredito, vocês poderão absolvê-lo."
Eles falaram na ordem em que cada um era chamado. Chega a minha vez. Levanto-me, uso o início que está no livro, respondo a cada um. É espantosa a atenção e os aplausos com que receberam tudo aqueles que pouco antes protestavam: tão grande foi a reviravolta que se seguiu à dignidade do assunto, ao êxito do discurso ou à firmeza do orador.
Termino. Veientão começa a responder; ninguém o deixa; é interrompido, vaiado, a ponto de dizer: "Peço, senadores, que não me obriguem a implorar o auxílio dos tribunos." E logo o tribuno Murena: "Permito a você, ilustríssimo Veientão, que fale." Mesmo então se protesta.
Em meio à demora, o cônsul, chamados os nomes e concluída a votação, dispensa o senado, e deixou Veientão ainda quase de e tentando falar. Ele se queixou muito dessa, como chamava, afronta, com um verso de Homero: velho, sem dúvida os jovens guerreiros te oprimem."
Quase não houve ninguém no senado que não me abraçasse, me beijasse e à competição me cobrisse de elogios, por eu ter restabelecido o costume, muito interrompido, de zelar pelo bem público assumindo inimizades pessoais; enfim, por eu ter libertado o senado do ódio que ardia contra ele entre as outras classes, que o acusavam de, sendo severo com os demais, poupar os senadores por uma como que dissimulação mútua.
Tudo isso se deu na ausência de Certo; pois ou ele suspeitou de algo assim, ou, como se desculpava, estava doente. E o imperador não remeteu ao senado a investigação a seu respeito; ainda assim consegui o que pretendia:
pois o colega de Certo recebeu o consulado, e Certo, um sucessor, e cumpriu-se exatamente o que eu tinha dito no fim: "Que ele devolva, sob o melhor dos príncipes, o prêmio que recebeu do pior." Depois reconstruí o meu discurso como pude e acrescentei muita coisa.
Aconteceu por acaso, mas não como por acaso, que, publicados os livros, Certo, dentro de pouquíssimos dias, foi acometido por uma doença e morreu.
Ouvi de quem relatava que essa imagem rondava a sua mente e os seus olhos, como se ele me visse ameaçá-lo com uma espada. Não me atreveria a afirmar que isso seja verdade; ainda assim, para o efeito do exemplo, convém que pareça verdade.
Você tem uma carta que, se pensar na medida de uma carta, não é menor do que os livros que leu; mas atribua isso a você mesmo, que não se contentou com os livros. Adeus.