Cartas - Livro IX 19
As últimas cartas literárias: ócio, caça, retórica e a despedida do gênero
Caio Plínio ao seu Rusão, saudações.
Você indica que leu, em certa carta minha, que Vergínio Rufo mandou inscrever em seu túmulo: "Aqui jaz Rufo, que, depois de derrotar Víndice, reivindicou o poder não para si, mas para a pátria." Você o critica por ter dado essa ordem, e acrescenta que Frontino agiu melhor e com mais retidão, por ter proibido que se erguesse qualquer monumento a ele; e por fim me pergunta o que penso de cada um dos dois.
Amei a ambos, mas admirei mais aquele que você critica, e admirei a ponto de achar que ele nunca poderia ser elogiado o bastante, e cuja defesa agora me cabe assumir.
Considero todos os que realizaram algo grande e memorável dignos não só de perdão, mas até do mais alto elogio, se buscam a imortalidade que mereceram e se esforçam por prolongar, mesmo nas últimas inscrições, a fama de um nome destinado a viver.
E não encontro facilmente ninguém, a não ser Vergínio, cujo recato em falar de si fosse tão grande quanto a glória do seu feito.
Eu mesmo sou testemunha, por ele querido e estimado como íntimo: uma única vez, na minha presença, ele se deixou levar a referir isto sobre seus feitos, que certa vez Clúvio lhe disse: "Você sabe, Vergínio, que fidelidade se deve à história; portanto, se você ler nas minhas histórias algo diferente do que gostaria, peço que perdoe." Ao que ele respondeu: "Você por acaso não sabe, Clúvio, que fiz o que fiz justamente para que vocês tivessem liberdade de escrever o que quisessem?"
Pois bem, comparemos esse próprio Frontino justamente naquilo em que lhe parece mais comedido e mais contido. Ele proibiu que se erguesse um monumento, mas com que palavras? "A despesa de um monumento é supérflua; a memória de mim durará, se eu a mereci com a minha vida." Você acha mais discreto dar a ler ao mundo inteiro que a sua memória vai durar do que marcar num só lugar, em dois versinhos, o que você fez?
No entanto, não tenho o propósito de criticar aquele, mas de defender este; e que defesa pode ser mais justa diante de você do que a comparação com aquele que você preferiu?
A meu ver, nenhum dos dois é de censurar, pois ambos lutaram pela glória com igual desejo, por caminhos diversos: um ao reivindicar as inscrições que lhe eram devidas, outro ao preferir parecer tê-las desprezado. Adeus.