Capítulos

Protoevangelho de Tiago
Autoria e Data de Composição
O Protoevangelho de Tiagoé o mais antigo dos evangelhos apócrifos da infância. O próprio texto se apresenta como obra de Tiago, identificado com o irmão do Senhor, mas a atribuição é pseudepígrafa e a obra é, na prática, anônima. A datação é debatida dentro de um intervalo estreito: a maioria dos estudiosos a situa na segunda metade do século II, em ambiente de língua grega, e há quem proponha datas próximas de 145 a 170. O limite superior é firme, porque Orígenes a conhece já no início do século III e provavelmente Clemente de Alexandria a usa no fim do século II, o que exige circulação por volta de 150 ou pouco antes. O nome "Protoevangelho" (primeiro evangelho, no sentido de tratar de eventos anteriores ao nascimento de Jesus) foi cunhado por um editor do século XVI, Guillaume Postel; o título antigo aproximava-se de "Natividade de Maria".
Conteúdo Principal
A obra narra a história de Maria desde antes de seu nascimento até o massacre dos inocentes, costurando e ampliando os relatos da infância de Mateus e Lucas. Boa parte do material não tem paralelo canônico e passou a moldar a tradição posterior sobre Maria. Esta tradução segue a edição inglesa de M. R. James, baseada no texto grego.
- Joaquim, homem rico e sem filhos, tem sua oferta recusada no templo e se retira em jejum para o deserto — (Protoevangelho de Tiago 1)
- Ana lamenta sua esterilidade e ora no jardim de casa — (Protoevangelho de Tiago 2)
- Um anjo anuncia separadamente a Ana e a Joaquim que ela conceberá; os dois se reencontram à porta — (Protoevangelho de Tiago 4)
- Joaquim é absolvido no templo e Ana dá à luz Maria, prometendo consagrá-la ao Senhor — (Protoevangelho de Tiago 5)
- Aos três anos Maria é apresentada e entregue ao templo, onde recebe alimento da mão de um anjo — (Protoevangelho de Tiago 7)
- Aos doze anos os sacerdotes deliberam o que fazer com a menina para não profanar o templo — (Protoevangelho de Tiago 8)
- José é escolhido por um sinal milagroso para receber Maria sob sua guarda — (Protoevangelho de Tiago 9)
- Maria é sorteada entre as virgens para tecer a púrpura e o escarlate do véu do templo — (Protoevangelho de Tiago 10)
- A anunciação a Maria, iniciada junto à fonte e completada pelo anjo dentro de casa — (Protoevangelho de Tiago 11)
- Maria visita Isabel e, ao voltar, esconde a própria gravidez — (Protoevangelho de Tiago 12)
- José volta da obra, descobre a gravidez e se vê dividido entre acusá-la e protegê-la — (Protoevangelho de Tiago 13)
- A prova das águas amargas, ritual tirado do livro de Números, absolve José e Maria diante do sumo sacerdote — (Protoevangelho de Tiago 16)
- O recenseamento obriga José e Maria a viajar para Belém — (Protoevangelho de Tiago 17)
- No caminho, a cena da gruta e a parada do tempo enquanto o parto se aproxima — (Protoevangelho de Tiago 18)
- A parteira testemunha o nascimento na gruta e proclama a concepção virginal — (Protoevangelho de Tiago 19)
- Salomé duvida da virgindade de Maria, tem a mão ferida ao examiná-la e é curada ao tocar o menino — (Protoevangelho de Tiago 20)
- A visita dos magos guiados pela estrela e o aviso para não voltarem a Herodes — (Protoevangelho de Tiago 21)
- Diante do massacre dos inocentes, Isabel foge com o menino João e um monte se abre para escondê-los — (Protoevangelho de Tiago 22)
- Zacarias é morto no templo por recusar entregar o filho; Simeão é escolhido para sucedê-lo — (Protoevangelho de Tiago 24)
A concepção e o nascimento de Maria
Maria no templo e o noivado com José
A anunciação e a suspeita de José
O nascimento de Jesus
Os magos e o martírio de Zacarias
Joaquim e Ana, os pais de Maria
Os nomes Joaquim e Ana para os pais de Maria vêm desta obra; não aparecem em nenhum texto do Novo Testamento. Da mesma fonte derivam a festa litúrgica dos dois e boa parte da iconografia do casal idoso que concebe uma filha tarde na vida. O relato modela a história de Ana e da concepção de Maria sobre os nascimentos milagrosos do Antigo Testamento, em especial o de Samuel pela Ana do primeiro livro de Samuel, a ponto de reaproveitar nomes, votos e gestos daquela narrativa.
A virgindade perpétua de Maria
O Protoevangelho é a testemunha sobrevivente mais antiga da afirmação da virgindade perpétua de Maria, entendida como virgindade antes, durante e depois do parto. A consagração de Maria ao templo desde a infância, a escolha de José já idoso e viúvo como guardião e não como marido comum, e o testemunho duplo da parteira e de Salomé compõem esse quadro. Os "irmãos de Jesus" mencionados nos evangelhos são apresentados, nesta linha, como filhos de um casamento anterior de José. A obra não formula dogma, mas fornece as imagens narrativas sobre as quais a doutrina foi depois articulada no Oriente e no Ocidente. Comunidades que rejeitam a virgindade perpétua leem essas cenas como elaboração tardia e legendária, sem base nos evangelhos canônicos.
Recepção e condenação
No Oriente cristão a obra teve ampla circulação e influência litúrgica, e nunca foi propriamente proscrita. No Ocidente latino o caminho foi outro. O papa Inocêncio I a teria reprovado no início do século V, e o chamado Decreto Gelasiano, lista latina de livros recebidos e rejeitados em geral datada por volta do século VI, inclui a Natividade de Maria entre os apócrifos a rejeitar. Jerônimo criticou detalhes como a idade avançada de José e a explicação dos irmãos de Jesus como filhos de outro casamento. Mesmo assim, o material reapareceu no Ocidente de forma indireta, reescrito no Evangelho do Pseudo-Mateus, que se tornou o canal pelo qual essas tradições chegaram à arte e à devoção medievais latinas.
Manuscritos
O texto sobrevive em mais de cem manuscritos gregos, além de versões antigas em siríaco, copta, georgiano, armênio, eslavo e etíope, sinal de sua difusão. A testemunha mais importante é o Papiro Bodmer 5, cópia grega datada do século III ou IV e identificada em meados do século XX, hoje o manuscrito mais antigo da obra. A pluralidade de versões gerou variações de redação, e as edições críticas modernas, desde a de Constantin von Tischendorf, trabalham sobre essa tradição ampla e ramificada.