Capítulos

Vida de Adão e Eva

Autoria e Data de Composição

A Vida de Adão e Eva é um pseudepígrafo judaico do período do Segundo Templo. A obra é anônima e atribui a revelação a Moisés apenas na frase de abertura, um recurso comum nesse gênero. O consenso acadêmico situa a composição original por volta do século I d.C., dentro de uma faixa ampla que vai de cerca de 100 a.C. a 200 d.C. A maioria dos estudiosos propõe um original semítico perdido, em hebraico ou aramaico, do qual derivaram as versões em grego e nas demais línguas.

O texto sobrevive em recensões que diferem entre si. As duas principais são a grega, chamada de "Apocalipse de Moisés", e a latina, chamada de Vita Adae et Evae. O título "Apocalipse de Moisés" foi dado pelo primeiro editor moderno, Constantin von Tischendorf, e é considerado impróprio, pois a obra não é um apocalipse no sentido usual nem trata de Moisés. A versão deste site segue a recensão grega. Há ainda recensões em armênio, georgiano, eslavo e fragmentos coptas. Não se deve confundir esta obra com o Conflito de Adão e Evaetíope, texto cristão distinto que aparece neste site como "1 Livro de Adão e Eva".

O Recurso Narrativo de Eva

O traço mais singular da obra está nos capítulos 15 a 30, em que Eva reconta a Queda em primeira pessoa diante dos filhos. Essa narração interna expande Gênesis 3 com detalhes ausentes do texto bíblico: a divisão do paraíso entre Adão e Eva, o diálogo entre o diabo e a serpente, o juramento que Eva presta antes de comer e o veneno da cobiça derramado sobre o fruto. A perspectiva feminina dá à obra um peso particular no estudo das tradições antigas sobre a culpa de Eva.

O Óleo da Misericórdia

Adão, doente, envia Sete e Eva ao paraíso para buscar o óleo da misericórdia, que fluiria de uma árvore e aliviaria o seu sofrimento. O arcanjo Miguel nega o pedido e anuncia que o óleo só será concedido no fim dos tempos, na ressurreição de toda carne. No núcleo judaico, a promessa é escatológica e fala de uma restauração futura do paraíso. Leitores cristãos posteriores entenderam o óleo da misericórdia como prefiguração da redenção em Cristo, mas essa é uma camada de interpretação acrescentada à tradição, não o sentido original judaico do texto.

A Assunção da Alma de Adão

A parte final descreve a morte de Adão com imagens próximas da merkabah, a carruagem divina de Ezequiel. Eva e Sete veem uma carruagem de luz conduzida por águias resplandecentes, serafins e incensários de ouro. Um serafim de seis asas leva a alma de Adão e a lava no lago Aquerúsio antes de apresentá-la a Deus, que a confia a Miguel para conduzi-la ao paraíso, no terceiro céu. A menção ao lago Aquerúsio, motivo de origem grega ligado à purificação dos mortos, aparece também em outros textos do mesmo período, como o Apocalipse de Pedro.

Conteúdo

Manuscritos e Tradução

A recensão latina é a mais bem atestada, preservada em dezenas de manuscritos medievais. A recensão grega, base desta versão, foi editada por Tischendorf no século XIX. A tradução em português deste site parte da tradução inglesa de domínio público de L. S. A. Wells, publicada na coletânea The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (APOT) organizada por R. H. Charles em 1913, modernizada para o leitor brasileiro.

Paralelos Bíblicos

A obra é uma expansão narrativa de Gênesis 2 a 4. Vários episódios reescrevem o texto bíblico com novos detalhes: a morte de Abel, o engano da serpente, a abertura dos olhos, a maldição da serpente com a inimizade entre as duas sementes (Gn 3:15), os querubins e a espada que guardam a árvore da vida (Gn 3:24) e a sentença "és terra e à terra hás de voltar" (Gn 3:19).

O destaque dado ao engano de Eva dialoga com a tradição neotestamentária em que a serpente engana Eva (2Co 11:3) e Eva, e não Adão, foi enganada (1Tm 2:14). A ênfase da obra na queda de Adão e na promessa de ressurreição tem afinidade temática com a tipologia Adão-Cristo de Paulo (Rm 5; 1Co 15), em que Adão é o tipo do que havia de vir e Cristo é o novo Adão. Convém distinguir os planos: a Vida de Adão e Eva é um texto judaico, e a leitura tipológica cristã é uma camada posterior aplicada à obra durante a sua transmissão, não a intenção do autor original.

Comparativo com o Gênesis

A tabela abaixo alinha passagens da Vida de Adão e Eva com o Gênesis, para o leitor comparar diretamente como a obra expande o relato bíblico. O alinhamento é temático.

Por que não é canônico

Nenhuma tradição, judaica ou cristã, incluiu a Vida de Adão e Eva em seu cânon. A obra é tardia em relação ao Gênesis, depende dele e o amplia com material lendário, e nunca teve reconhecimento canônico ou uso litúrgico estabelecido. O nome de Moisés na abertura é um recurso pseudepígrafo e não corresponde a autoria real. Por isso a obra é lida como pseudepígrafo, valiosa para o estudo das tradições judaicas e cristãs antigas sobre Adão e Eva, mas fora das Escrituras de qualquer comunidade.