Capítulos
A Guerra dos Judeus - Livro II
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
A Guerra dos Judeus (em grego Peri tou Ioudaikou polemou) é a primeira obra de Josefo e narra o conflito do povo judeu com Roma, da revolta dos Macabeus até a queda de Jerusalém em 70 d.C. e seus desdobramentos. Josefo a redigiu primeiro num idioma semítico, aramaico ou hebraico, hoje perdido, e depois numa versão grega feita com auxílio de colaboradores. O texto está dividido em sete livros e foi apresentado ao imperador Vespasiano entre 75 e 79 d.C. A segunda edição grega foi dedicada a Tito, que se tornou imperador em 79. O sétimo livro, com a queda de Massada, parece ser acréscimo posterior.
O Livro II na Obra
O Livro II cobre cerca de setenta anos, da morte de Herodes, o Grande, em 4 a.C., até os primeiros meses da guerra, no fim de 66 d.C. É a ponte entre o passado herodiano e o conflito que dá nome à obra. A primeira parte narra a sucessão disputada de Herodes, a revolta popular reprimida por Varo e a partilha do reino entre os filhos por Augusto. A parte central percorre a transformação da Judeia em província romana e a sequência de procuradores, de Coponio a Floro, marcada por atritos religiosos, distúrbios e movimentos messiânicos. A parte final relata como a tensão se converte em guerra aberta, com a derrota da expedição de Cestio Galo e a organização militar dos rebeldes, incluindo a nomeação do próprio Josefo como comandante da Galileia. Esse período já não tem paralelo na Bíblia hebraica, mas toca o pano de fundo do Novo Testamento, que se passa em boa parte sob esses mesmos procuradores.
Conteúdo do Livro
- Arquelau oferece um banquete fúnebre ao povo em razão de Herodes, mas um tumulto explode no Templo e os soldados que ele envia matam cerca de três mil pessoas — (A Guerra dos Judeus - Livro II 1)
- Arquelau viaja a Roma com a parentela para disputar a herança e é acusado diante de César por Antipater, mas sai vencedor no julgamento graças à defesa de Nicolau de Damasco — (A Guerra dos Judeus - Livro II 2)
- Os judeus travam uma grande batalha contra os soldados de Sabino e uma vasta destruição se abate sobre Jerusalém — (A Guerra dos Judeus - Livro II 3)
- Veteranos de Herodes se amotinam, Judas saqueia a região e os líderes populares Simão e Atronges chegam a tomar para si o título de rei — (A Guerra dos Judeus - Livro II 4)
- O governador da Síria, Varo, sufoca os distúrbios na Judeia e crucifica cerca de dois mil dos rebeldes — (A Guerra dos Judeus - Livro II 5)
- Os judeus se queixam de Arquelau e pedem governadores romanos, e César acaba distribuindo os domínios de Herodes entre os filhos conforme sua própria vontade — (A Guerra dos Judeus - Livro II 6)
- A história do falso Alexandre, o banimento de Arquelau e a morte de Gláfira, depois que a ambos foram mostrados em sonhos os destinos que os esperavam — (A Guerra dos Judeus - Livro II 7)
- A etnarquia de Arquelau é reduzida a província romana, surge a sedição de Judas da Galileia e Josefo descreve as três seitas dos judeus, fariseus, saduceus e essênios — (A Guerra dos Judeus - Livro II 8)
- A morte de Salomé, as cidades fundadas por Herodes e Filipe, os distúrbios provocados por Pilatos, a prisão de Agripa por Tibério e sua libertação e coroação por Caio, e o banimento de Herodes Antipas — (A Guerra dos Judeus - Livro II 9)
- Caio ordena que sua estátua seja erguida dentro do próprio Templo e o que o legado Petrônio fez diante dessa ordem — (A Guerra dos Judeus - Livro II 10)
- O governo de Cláudio e o reinado de Agripa, as mortes de Agripa e de Herodes e os filhos que ambos deixaram — (A Guerra dos Judeus - Livro II 11)
- Os muitos tumultos sob Cumano, resolvidos por Quadrato, a nomeação de Félix como procurador da Judeia e a promoção de Agripa de Cálcis a um reino maior — (A Guerra dos Judeus - Livro II 12)
- Nero amplia o reino de Agripa, enquanto Félix governa o restante da Judeia em meio à ação dos sicários, de magos e de um falso profeta egípcio, e ao conflito entre judeus e sírios em Cesareia — (A Guerra dos Judeus - Livro II 13)
- A sucessão de procuradores, Festo, Albino e por fim Floro, cuja brutalidade no governo empurra os judeus para a guerra — (A Guerra dos Judeus - Livro II 14)
- O pedido de Berenice a Floro para poupar os judeus, feito em vão, e como a chama da sedição, depois de apagada, foi reacesa pelo próprio Floro — (A Guerra dos Judeus - Livro II 15)
- Cestio Galo envia o tribuno Neopolitano para apurar a situação, e Agripa faz um longo discurso ao povo judeu tentando dissuadi-lo de guerrear contra Roma — (A Guerra dos Judeus - Livro II 16)
- Como teve início a guerra dos judeus com os romanos, com a suspensão do sacrifício pelo imperador, e o relato sobre Manaém — (A Guerra dos Judeus - Livro II 17)
- As calamidades e os massacres que se abateram sobre os judeus nas cidades de população mista da Síria e do Egito — (A Guerra dos Judeus - Livro II 18)
- O ataque de Cestio contra os judeus e como, depois de cercar Jerusalém, ele se retirou sem razão aparente e sofreu pesadas perdas na retirada — (A Guerra dos Judeus - Livro II 19)
- Cestio envia embaixadores a Nero, o massacre dos judeus em Damasco, e como os de Jerusalém se preparam para a defesa e nomeiam generais, entre eles o próprio Josefo, autor desta obra, com notas sobre sua administração — (A Guerra dos Judeus - Livro II 20)
- O relato sobre João de Giscala, e como Josefo usa estratagemas contra as tramas que João armou e recupera cidades que se tinham revoltado contra ele — (A Guerra dos Judeus - Livro II 21)
- Os judeus organizam tudo para a guerra, e Simão bar Giora se lança ao saque — (A Guerra dos Judeus - Livro II 22)
A sucessão de Herodes e a revolta de 4 a.C.
A partilha do reino e o fim de Arquelau
A província romana e as seitas judaicas
Os procuradores e a escalada da tensão
O início da guerra contra Roma
Josefo na Galileia
As Seitas Judaicas e o Cenário do Novo Testamento
No capítulo 8, Josefo faz a descrição clássica das três seitas judaicas: fariseus, saduceus e essênios. O retrato dos essênios, com sua vida comunitária e regras de pureza, é uma das principais fontes literárias para comparar com os manuscritos de Qumran encontrados no século XX. O mesmo livro menciona figuras e cargos que aparecem no Novo Testamento. Pôncio Pilatos surge provocando distúrbios em Jerusalém, e os procuradores Félix e Festo, diante de quem Paulo é julgado nos Atos dos Apóstolos, aparecem aqui em seu contexto político. A guerra contra Roma estoura quando o sacrifício diário oferecido pelo imperador é suspenso no Templo, gesto de ruptura que Josefo trata como o ponto sem retorno.
Fontes e Método
Para o Livro II, Josefo combina testemunho próprio e material de terceiros. Os primeiros capítulos, sobre a sucessão de Herodes, dependem em boa parte de Nicolau de Damasco, conselheiro da corte herodiana, a mesma fonte que sustenta as Antiguidades Judaicas. Já os últimos capítulos, sobre o início da revolta e a campanha na Galileia, vêm da experiência direta de Josefo, que ali atuou como comandante. Ele afirma ter usado também os comentários de campanha de Vespasiano e Tito. Convém lembrar que Josefo escreve como cliente dos Flavianos: seu relato tende a poupar Roma, a atribuir a guerra a um punhado de agitadores e a justificar a própria conduta, que passou da rebelião à rendição e à colaboração.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego da Guerra sobrevive em manuscritos medievais e é, em geral, mais bem preservado do que o das Antiguidades. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese, do fim do século XIX. No Ocidente latino circulou desde a Antiguidade tardia uma versão livre conhecida como De excidio ou Pseudo-Hegésipo, que adapta e cristianiza o relato, ao lado de uma tradução latina mais literal. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737, cujos sumários de capítulo organizam a leitura.
Valor Histórico e Cautelas
Para a revolta judaica e seus antecedentes, Josefo é a principal fonte literária que temos, muitas vezes a única. Isso torna o Livro II insubstituível e ao mesmo tempo exige cuidado. Os números de mortos e combatentes que ele cita costumam ser inflados e raramente podem ser verificados. O programa apologético, que culpa facções radicais e isenta Roma e o próprio autor, molda a seleção e a moldura dos episódios. Ainda assim, o núcleo factual encontra apoio externo: nomes de governadores, a sequência de procuradores e o quadro institucional da província são compatíveis com inscrições, moedas e outras fontes romanas. A arqueologia confirma a escala das obras herodianas e a existência de sítios como Jotapata e Massada, citados nos livros seguintes. Isso dá ancoragem material ao cenário, mas não valida cada cena: o suicídio coletivo em Massada, narrado no Livro VII, é debatido, já que Josefo não foi testemunha e as escavações de Yadin se conciliam mal com seu relato. Parte da crítica trata o episódio como construção literária, em meio a discussões sobre o peso do nacionalismo na leitura do sítio.