A Guerra dos Judeus - Livro II 11
Livro II: dos procuradores ao início da revolta
Sobre o governo de Cláudio e o reinado de Agripa. Sobre as mortes de Agripa e de Herodes, e os filhos que ambos deixaram.
Depois que Caio reinou três anos e oito meses e foi morto por traição, os exércitos estacionados em Roma forçaram Cláudio a assumir o governo. O senado, no entanto, por iniciativa dos cônsules Sêncio Saturnino e Pompônio Secundo, ordenou que os três regimentos de soldados que tinham ficado com ele mantivessem a cidade em ordem. Os senadores subiram ao Capitólio em grande número e decidiram resistir a Cláudio pela força, por causa do tratamento brutal que tinham sofrido sob Caio. Resolveram restabelecer a nação sob uma aristocracia, como fora governada no passado, ou ao menos escolher por votação alguém digno de ser imperador.
Aconteceu que naquele momento Agripa estava em Roma. O senado o convocou para se aconselhar com ele, e ao mesmo tempo Cláudio mandou chamá-lo do acampamento, para que o servisse quando precisasse. Percebendo que Cláudio já estava, na prática, feito César, Agripa foi até ele, que o enviou como embaixador ao senado para comunicar quais eram as suas intenções. Disse que, em primeiro lugar, não fora por iniciativa própria que os soldados o tinham arrastado ao poder. Além disso, considerava injusto abandonar aqueles soldados em tamanho zelo por ele, e que, se o fizesse, a sua própria sorte ficaria incerta, pois era perigoso já ter sido chamado uma vez ao império. Acrescentou que governaria como um bom príncipe, e não como um tirano, pois se contentaria com a honra de ser chamado imperador, mas em cada uma de suas ações permitiria que todos lhe dessem conselho. Mesmo que não tivesse, por natureza, inclinação à moderação, a morte de Caio lhe oferecia prova suficiente de quão sobriamente ele devia agir naquela posição.
Essa mensagem foi entregue por Agripa. O senado respondeu que, já que tinham de seu lado um exército e os mais sábios conselhos, não suportariam uma escravidão voluntária. Quando Cláudio ouviu a resposta do senado, enviou Agripa de novo a eles com a seguinte mensagem: que ele não suportava a ideia de trair aqueles que tinham jurado fidelidade a ele, e que via que precisaria lutar, contra a vontade, com gente contra quem não desejava lutar. No entanto, se chegasse a esse ponto, seria conveniente escolher um lugar fora da cidade para a guerra, pois não condizia com a piedade poluir os templos da própria cidade com o sangue de seus próprios compatriotas, e tudo isso apenas por causa da conduta imprudente deles. Quando Agripa ouviu essa mensagem, entregou-a aos senadores.
Enquanto isso, um dos soldados a serviço do senado desembainhou a espada e gritou: "Companheiros de armas, qual é o sentido dessa escolha que fizemos, de matar nossos irmãos e usar de violência contra os parentes que estão com Cláudio, quando podemos ter como imperador alguém que ninguém pode censurar e que tem tantas razões justas para reivindicar o governo? E isso em relação àqueles contra quem estamos prestes a lutar." Tendo dito isso, atravessou todo o senado e levou consigo todos os soldados. Diante disso, todos os patrícios ficaram em grande pavor por se verem assim abandonados. Mas, como não havia outro caminho para onde se voltar em busca de salvação, apressaram-se pela mesma rota dos soldados e foram até Cláudio. Os que tinham tido a sorte de bajular cedo a boa fortuna de Cláudio saíram ao encontro deles diante das muralhas, de espadas em punho. Havia motivo para temer que os primeiros a chegar corressem perigo, antes que Cláudio soubesse que violência os soldados pretendiam cometer, não fosse Agripa ter corrido na frente e contado a ele que coisa perigosa estavam prestes a fazer. Se não contivesse a violência desses homens, que estavam num acesso de loucura contra os patrícios, perderia aqueles em razão de quem era mais desejável reinar, e seria imperador de um deserto.
Quando Cláudio ouviu isso, conteve a violência da soldadesca e recebeu o senado no acampamento. Tratou os senadores de modo cortês e saiu logo com eles para oferecer a Deus as ofertas de gratidão próprias de sua chegada ao império. Além disso, concedeu de imediato a Agripa todo o reino paterno e acrescentou a ele, além das terras que Augusto dera a Herodes, a Traconítide e a Auranítide, e ainda, além dessas, o reino chamado de Lisânio. Anunciou essa doação ao povo por meio de um decreto, mas ordenou aos magistrados que a fizessem gravar em tábuas de bronze e a colocassem no Capitólio. A seu irmão Herodes, que era também seu genro, por ter se casado com Berenice, concedeu o reino de Cálcis.
Assim, agora as riquezas afluíam a Agripa pelo usufruto de domínio tão extenso. Ele não desperdiçou o dinheiro que tinha em coisas insignificantes, mas começou a cercar Jerusalém com uma muralha que, se tivesse sido levada à perfeição, teria tornado impraticável aos romanos tomá-la por cerco. Mas a sua morte, ocorrida em Cesareia antes que tivesse erguido as muralhas à altura devida, o impediu. Naquele momento, ele já tinha reinado três anos, depois de ter governado suas tetrarquias por outros três. Deixou três filhas, nascidas dele por Cipros: Berenice, Mariane e Drusila, e um filho da mesma mãe, de nome Agripa. Esse filho ficou ainda uma criança muito pequena, de modo que Cláudio transformou o território em província romana e enviou Cuspio Fado como seu procurador, e depois dele Tibério Alexandre, que, não fazendo alteração alguma nas antigas leis, manteve a nação em tranquilidade. Tempos depois, morreu Herodes, o rei de Cálcis, deixando dois filhos, nascidos dele por Berenice, filha de seu irmão. Os nomes deles eram Berniciano e Hircano. Deixou também Aristóbulo, que tivera de sua mulher anterior, Mariane. Havia ainda outro irmão dele que morreu como pessoa comum, de nome também Aristóbulo, que deixou uma filha chamada Jotape. Esses, como já disse antes, eram os filhos de Aristóbulo, filho de Herodes. Esse Aristóbulo e Alexandre foram gerados por Herodes com Mariane e foram mortos por ele. Quanto à descendência de Alexandre, esses reinaram na Armênia.