A Guerra dos Judeus - Livro II 18

Livro II: dos procuradores ao início da revolta

As calamidades e os massacres que se abateram sobre os judeus.

O povo de Cesareia havia massacrado os judeus que viviam entre eles no mesmo dia e na mesma hora [em que os soldados foram mortos]. Qualquer um diria que isso aconteceu por direção da Providência. Em uma hora, mais de vinte mil judeus foram mortos, e toda Cesareia ficou esvaziada de seus habitantes judeus, pois Floro capturava os que fugiam e os mandava acorrentados para as galés. Diante desse golpe sofrido pelos judeus em Cesareia, toda a nação se encheu de fúria. Eles se dividiram em vários grupos e devastaram as aldeias dos sírios e as cidades vizinhas: Filadélfia, Sebonitis, Gérasa, Pela e Escitópolis. Depois delas atacaram Gádara e Hipos. Caindo sobre Gaulanitis, destruíram algumas cidades ali e incendiaram outras. Em seguida foram a Cedasa, que pertencia aos tírios, a Ptolemaida, a Gaba e a Cesareia. Nem Sebaste [Samaria] nem Ascalom conseguiram resistir à violência com que foram atacadas. Depois de incendiá-las por completo, arrasaram inteiramente Antedon e Gaza. Muitas das aldeias ao redor de cada uma dessas cidades também foram saqueadas, e houve um enorme massacre dos homens capturados nelas.
Os sírios, no entanto, igualaram os judeus na quantidade de homens que mataram. Eles assassinavam os que capturavam em suas cidades, e isso não pelo ódio que sempre tiveram contra eles, mas também para se livrar do perigo que os judeus representavam. Por isso a desordem em toda a Síria foi terrível: cada cidade se dividia em dois exércitos acampados um contra o outro, e a sobrevivência de um lado dependia da destruição do outro. O dia se passava em derramamento de sangue, e a noite, em medo, que era ainda mais aterrorizante. Pois, quando os sírios pensavam ter arruinado os judeus, passavam a suspeitar também dos que simpatizavam com o judaísmo. Embora cada lado relutasse em matar aqueles de quem apenas suspeitava no grupo oposto, temia-os muito quando estavam misturados aos outros, como se fossem com certeza estrangeiros. Além disso, a cobiça de lucro era um estímulo para matar o lado adversário, até mesmo entre os que antes pareciam muito brandos e gentis. Sem medo, saqueavam os bens dos mortos e levavam o despojo dos que mataram para suas próprias casas, como se tivessem sido conquistados em batalha campal. Era considerado homem de honra quem ficava com a maior parte, como se tivesse vencido o maior número de inimigos. Era comum então ver cidades cheias de cadáveres, ainda insepultos, corpos de velhos misturados aos de crianças, todos mortos e espalhados juntos. Mulheres também jaziam entre eles, sem qualquer cobertura para sua nudez. Você poderia ver toda a província repleta de calamidades indescritíveis, e o pavor de crueldades ainda mais bárbaras, que eram ameaçadas, era em toda parte maior do que o que havia sido cometido.
Até esse ponto o conflito se dera entre judeus e estrangeiros. Mas, quando fizeram incursões a Escitópolis, encontraram judeus que agiam como inimigos. Pois esses judeus se puseram em formação de batalha ao lado dos habitantes de Escitópolis e, preferindo a própria segurança ao vínculo conosco, lutaram contra os próprios compatriotas. Aliás, a disposição deles para a luta foi tão grande que os de Escitópolis ficaram desconfiados. Temeram, então, que esses judeus atacassem a cidade durante a noite e, para grande infortúnio deles próprios, justificassem assim diante de seu povo a deserção que haviam cometido. Por isso ordenaram que, caso quisessem confirmar o acordo e demonstrar fidelidade a eles, que eram de outra nação, deveriam sair da cidade com suas famílias para um bosque vizinho. Quando fizeram o que lhes foi ordenado, sem suspeitar de nada, o povo de Escitópolis ficou quieto pelo intervalo de dois dias, para levá-los a se sentirem seguros. Mas na terceira noite aproveitaram a oportunidade e degolaram a todos, alguns enquanto estavam desprevenidos, outros enquanto dormiam. O número de mortos passou de treze mil, e depois saquearam tudo o que possuíam.
Vale a pena relatar o que aconteceu com Simão. Ele era filho de um certo Saul, homem de boa reputação entre os judeus. Esse homem se distinguia dos demais pela força do corpo e pela ousadia de sua conduta, embora abusasse de ambas para o mal de seus compatriotas. Pois vinha todo dia e matava muitos judeus de Escitópolis, frequentemente os punha em fuga, e ele sozinho se tornava a causa da vitória de seu exército. Mas um justo castigo o alcançou pelos assassinatos que cometera contra os de sua própria nação. Quando o povo de Escitópolis lançou seus dardos contra eles no bosque, ele desembainhou a espada, mas não atacou nenhum dos inimigos, pois viu que nada poderia fazer contra tamanha multidão. Em vez disso, gritou de maneira muito comovente, dizendo: povo de Escitópolis, mereço o que sofro por causa do que fiz a vocês, quando lhes dei tal garantia de minha fidelidade, matando tantos dos que eram meus parentes. Por isso experimentamos com toda a justiça a perfídia dos estrangeiros, depois de agirmos do modo mais perverso contra a nossa própria nação. Vou, portanto, morrer pelas minhas próprias mãos, miserável e impuro como sou, pois não é justo que eu morra pela mão de nossos inimigos. Que este mesmo ato seja para mim ao mesmo tempo castigo por meus grandes crimes e prova de minha coragem, para meu louvor, de modo que nenhum de nossos inimigos possa se gabar de ter sido ele quem me matou, e ninguém possa me insultar enquanto eu caio." Tendo dito isso, olhou ao redor para sua família com olhos de compaixão e de fúria (essa família era composta de uma esposa, filhos e seus pais idosos). Primeiro agarrou o pai pelos cabelos brancos e o atravessou com a espada. Depois fez o mesmo com a mãe, que de boa vontade aceitou a morte. Em seguida fez o mesmo com a esposa e os filhos, quase todos se oferecendo à sua espada, desejosos de evitar serem mortos pelos inimigos. Depois de percorrer toda a família, postou-se sobre os corpos para ser visto por todos e, estendendo a mão direita para que seu ato fosse notado por todos, enterrou a espada inteira nas próprias entranhas. Esse jovem merecia compaixão pela força de seu corpo e pela coragem de sua alma, mas, como garantira a estrangeiros sua fidelidade [contra os próprios compatriotas], sofreu o que merecia.
Além desse massacre em Escitópolis, as outras cidades se levantaram contra os judeus que viviam entre elas. Os de Ascalom mataram dois mil e quinhentos, e os de Ptolemaida, dois mil, além de aprisionarem muitos. Os de Tiro também executaram um grande número, mas mantiveram um número ainda maior na prisão. Da mesma forma agiram os de Hipos e os de Gádara, que executavam os judeus mais ousados e mantinham sob custódia aqueles de quem tinham medo. O mesmo fizeram as demais cidades da Síria, cada uma conforme os odiava ou os temia. os habitantes de Antioquia, de Sídon e de Apameia pouparam os que viviam com eles e não toleraram matar nenhum dos judeus nem prendê-los. Talvez os poupassem porque seu próprio número era tão grande que desprezavam qualquer tentativa de revolta. Mas penso que a maior parte desse favor se deveu à compaixão por aqueles que viam não promover nenhuma agitação. Quanto aos de Gérasa, não causaram dano algum aos que permaneceram com eles, e aos que quiseram partir, escoltaram-nos até onde se estendiam suas fronteiras.
Houve também uma conspiração contra os judeus no reino de Agripa. Ele próprio tinha ido até Cestio Galo, em Antioquia, mas deixara um de seus companheiros, chamado Noaro, encarregado dos assuntos públicos. Esse Noaro era parente do rei Sohemo. Vieram então certos homens, em número de setenta, da Bataneia, que eram os mais notáveis do restante do povo por suas famílias e prudência. Eles pediram que se colocasse um destacamento sob seu comando, para que, se houvesse algum tumulto, tivessem ao redor uma guarda suficiente para conter os que se levantassem contra eles. Mas Noaro enviou à noite alguns dos homens armados do rei e matou todos aqueles [setenta] homens. Arriscou essa ação ousada sem o consentimento de Agripa, e era tão amante do dinheiro que preferiu ser tão perverso com seus próprios compatriotas, ainda que com isso trouxesse a ruína ao reino. Tratou essa nação com tamanha crueldade, e isso também contra as leis, até que Agripa foi informado do ocorrido. Agripa de fato não ousou executá-lo, por consideração a Sohemo, mas pôs fim imediato à sua função de procurador. Quanto aos sediciosos, tomaram a cidadela chamada Cipros, que ficava acima de Jericó, degolaram a guarnição e demoliram por completo as fortificações. Foi mais ou menos nessa época que a multidão de judeus que estava em Maquero persuadiu os romanos que ali estavam de guarnição a deixarem o lugar e entregá-lo a eles. Esses romanos, com grande medo de que o lugar fosse tomado à força, fizeram um acordo para partir sob certas condições. Quando obtiveram a garantia que desejavam, entregaram a cidadela, na qual o povo de Maquero pôs uma guarnição para a própria segurança, mantendo-a sob seu poder.
em Alexandria, a hostilidade do povo local contra os judeus era contínua, e isso desde o tempo em que Alexandre [o Grande], ao constatar a prontidão dos judeus em ajudá-lo contra os egípcios, deu-lhes, como recompensa por essa ajuda, privilégios iguais aos dos próprios gregos naquela cidade. Essa honra se manteve entre eles sob os sucessores de Alexandre, que também separaram para eles um lugar específico, para que pudessem viver sem se contaminar [com os gentios] e não ficassem tão misturados aos estrangeiros como antes. Concederam-lhes ainda este outro privilégio: que fossem chamados de macedônios. Quando os romanos tomaram posse do Egito, nem o primeiro César nem nenhum dos que vieram depois pensou em reduzir as honras que Alexandre concedera aos judeus. Mas os conflitos com os gregos surgiam sem cessar. Embora os governadores punissem muitos deles todos os dias, a sedição piorava. Naquele momento especialmente, quando havia tumultos também em outros lugares, a desordem entre eles ganhou ainda mais fogo. Pois, quando os alexandrinos realizaram certa vez uma assembleia pública para deliberar sobre uma embaixada que enviariam a Nero, um grande número de judeus acorreu ao teatro. Mas, quando seus adversários os viram, gritaram imediatamente, chamando-os de inimigos e dizendo que tinham vindo como espiões. Diante disso, os gregos se lançaram contra eles e os agrediram com violência. Quanto aos demais, foram mortos enquanto fugiam. Mas houve três homens que capturaram e arrastaram, a fim de queimá-los vivos. Então todos os judeus vieram em massa defendê-los. A princípio atiraram pedras nos gregos, mas depois pegaram tochas e irromperam com violência no teatro, ameaçando queimar o povo inteiro. E teriam feito isso logo, se Tibério Alexandre, o governador da cidade, não tivesse contido a fúria deles. Mas esse homem não começou a ensinar-lhes juízo pelas armas: enviou secretamente alguns dos principais cidadãos e, por meio deles, suplicou que ficassem quietos e não provocassem o exército romano contra si. Mas os sediciosos fizeram troça das súplicas de Tibério e o censuraram por agir assim.
Quando ele percebeu que aqueles propensos a tumultos não se acalmariam até que alguma grande calamidade os atingisse, lançou contra eles as duas legiões romanas que estavam na cidade, e junto delas outros cinco mil soldados que, por acaso, tinham chegado da Líbia, para a ruína dos judeus. Foi-lhes permitido não matar os judeus, mas também saquear o que possuíam e atear fogo às suas casas. Esses soldados irromperam com violência na parte da cidade chamada Delta, onde o povo judeu vivia reunido, e fizeram o que lhes fora ordenado, embora não sem derramamento de sangue também do seu próprio lado. Pois os judeus se reuniram, puseram os mais bem armados na linha de frente e resistiram por um bom tempo. Mas, uma vez que recuaram, foram destruídos sem piedade. A destruição deles foi completa: alguns capturados em campo aberto, outros encurralados em suas casas. Essas casas eram primeiro saqueadas do que havia dentro e depois incendiadas pelos romanos. Nenhuma misericórdia foi mostrada às crianças, e nenhum respeito se teve pelos idosos. Os soldados prosseguiram no massacre de pessoas de toda idade, até que todo o lugar ficou inundado de sangue, e cinquenta mil deles jaziam mortos em montes. Os que restaram não teriam sido poupados se não tivessem recorrido à súplica. Então Alexandre se compadeceu da situação deles e deu ordem aos romanos para se retirarem. Esses, acostumados a obedecer ordens, pararam de matar à primeira indicação. Mas a população de Alexandria nutria tamanho ódio pelos judeus que foi difícil chamá-los de volta, e custou muito fazê-los deixar os cadáveres.
Essa foi a calamidade miserável que naquele momento se abateu sobre os judeus de Alexandria. Diante disso, Cestio decidiu que não convinha mais ficar parado, enquanto os judeus se levantavam em armas por toda parte. Por isso retirou de Antioquia a décima segunda legião por inteiro e, de cada uma das demais, selecionou dois mil homens, com seis coortes de infantaria e quatro esquadrões de cavalaria, além dos auxiliares enviados pelos reis. Destes, Antíoco enviou dois mil cavaleiros e três mil soldados de infantaria, com igual número de arqueiros; e Agripa enviou o mesmo número de infantes e mil cavaleiros. Sohemo também seguiu com quatro mil homens, dos quais um terço era de cavaleiros, mas a maior parte era de arqueiros. Assim marchou Cestio para Ptolemaida. Reuniram-se ali também grandes contingentes de auxiliares vindos das cidades [livres], que não tinham a mesma habilidade nos assuntos militares, mas compensavam com a prontidão e o ódio aos judeus o que lhes faltava em perícia. Veio também junto com Cestio o próprio Agripa, tanto como guia em sua marcha pelo território quanto como conselheiro sobre o que convinha fazer. Cestio tomou parte de suas forças e marchou rapidamente para Zabulon, uma cidade forte da Galileia, chamada cidade dos homens, que separa o território de Ptolemaida da nossa nação. Encontrou-a abandonada por seus homens, pois a multidão havia fugido para as montanhas, mas cheia de todo tipo de bens. Permitiu aos soldados que a saqueassem e incendiou a cidade, embora fosse de admirável beleza e tivesse suas casas construídas como as de Tiro, Sídon e Berito. Depois disso percorreu todo o território, apoderando-se de tudo o que encontrava no caminho, incendiou as aldeias ao redor e então voltou para Ptolemaida. Mas, enquanto os sírios, e especialmente os de Berito, estavam ocupados com o saque, os judeus recobraram a coragem, pois sabiam que Cestio havia se retirado. Caíram inesperadamente sobre os que ficaram para trás e mataram cerca de dois mil deles.
Cestio então partiu de Ptolemaida e chegou a Cesareia, mas enviou parte de seu exército à frente, para Jope, com a ordem de que, se conseguissem tomar a cidade [de surpresa], a mantivessem; mas, caso os habitantes percebessem que vinham atacá-los, esperassem por ele e pelo restante do exército. Assim, alguns avançaram rapidamente pela costa, e outros por terra, e, caindo sobre eles dos dois lados, tomaram a cidade com facilidade. Como os habitantes não haviam feito preparativo algum para fugir, nem prontificado nada para lutar, os soldados se lançaram sobre eles e mataram a todos, com suas famílias, depois saquearam e incendiaram a cidade. O número de mortos foi de oito mil e quatrocentos. Da mesma forma, Cestio enviou também um contingente considerável de cavaleiros à toparquia de Narbatene, que ficava junto a Cesareia. Esses devastaram a região, mataram grande multidão de seus habitantes, saquearam o que possuíam e incendiaram suas aldeias.
Mas Cestio enviou Galo, comandante da décima segunda legião, à Galileia, e entregou-lhe tantas forças quantas julgou suficientes para subjugar aquela nação. Ele foi recebido com aclamações de alegria pela cidade mais forte da Galileia, que era Séforis. Essa conduta sensata de Séforis fez com que as demais cidades permanecessem em paz, enquanto a parcela sediciosa e os salteadores fugiram para a montanha que fica bem no meio da Galileia, situada em frente a Séforis, chamada Asamon. Galo levou suas forças contra eles. Mas, enquanto aqueles homens estavam nas partes mais altas, acima dos romanos, atiravam com facilidade seus dardos sobre os romanos à medida que se aproximavam, e mataram cerca de duzentos deles. Quando os romanos contornaram as montanhas e alcançaram as partes acima dos inimigos, estes logo foram derrotados. Os que tinham apenas armas leves não conseguiam suportar a força dos que combatiam totalmente armados, e, uma vez vencidos, não conseguiam escapar dos cavaleiros inimigos. Por isso apenas uns poucos se esconderam em certos lugares de difícil acesso entre as montanhas, enquanto os demais, mais de dois mil em número, foram mortos.