A Guerra dos Judeus - Livro II 10

Livro II: dos procuradores ao início da revolta

Caio ordena que sua estátua seja erguida no próprio Templo, e o que Petrônio fez a respeito.

Caio César abusou tão grosseiramente da fortuna que alcançara que passou a se considerar um deus, exigiu ser chamado assim e mandou eliminar os homens de maior nobreza de seu país. Estendeu sua impiedade até os judeus. Para isso, enviou Petrônio com um exército a Jerusalém, a fim de colocar suas estátuas no Templo. Ordenou-lhe que, caso os judeus não as aceitassem, matasse aqueles que se opusessem e levasse todo o restante da nação para o cativeiro. Mas Deus se preocupou com essas ordens. Petrônio, no entanto, partiu de Antioquia rumo à Judeia com três legiões e muitas tropas auxiliares sírias. Quanto aos judeus, alguns não conseguiam acreditar nos relatos que falavam de guerra, mas os que acreditavam ficaram em grande aflição, sem saber como se defender, e o terror logo se espalhou por todos eles, pois o exército havia chegado a Ptolemaida.
Ptolemaida é uma cidade litorânea da Galileia, construída na grande planície. É cercada por montanhas. A do lado leste, a sessenta estádios de distância, pertence à Galileia. A do sul pertence ao Carmelo, que dista cento e vinte estádios. A do norte é a mais alta de todas e é chamada pelos habitantes da região de Escada dos Tírios, e fica a cem estádios de distância. O pequeníssimo rio Belo corre ao lado da cidade, a dois estádios de distância. Perto dele o monumento de Mêmnon, e junto a ele existe um lugar não maior que cem côvados que merece admiração. O lugar é redondo e côncavo, e produz uma areia com a qual se faz o vidro. Quando esse lugar é esvaziado pelos muitos navios que ali se carregam, ele se enche de novo pela ação dos ventos, que trazem para dentro dele, como que de propósito, aquela areia que estava distante e não passava de areia comum. Essa mina, no entanto, logo a transforma em areia vítrea. E o que para mim é ainda mais admirável: a areia vítrea que sobra, depois de removida do lugar, volta a ser areia comum. Essa é a natureza do lugar de que falamos.
Os judeus, então, reuniram-se em grande número, com suas mulheres e filhos, naquela planície próxima a Ptolemaida, e suplicaram a Petrônio, primeiro pelas suas leis e, em seguida, por si mesmos. Ele foi tocado pela multidão de suplicantes e por suas súplicas, deixou seu exército e as estátuas em Ptolemaida e avançou para a Galileia. Convocou a multidão e todos os homens importantes a Tiberíades, mostrou-lhes o poder dos romanos e as ameaças de César e, além disso, procurou provar que o pedido deles era desarrazoado. Afinal, enquanto todas as nações submetidas a eles haviam colocado as imagens de César em suas várias cidades, entre os demais deuses, os judeus se opunham, o que era quase a conduta de rebeldes e ofendia César.
E quando eles insistiram em sua lei e no costume de seu país, e em como não lhes era permitido fazer nem uma imagem de Deus, nem mesmo de um homem, e colocá-la em qualquer lugar desprezível de seu país, muito menos no próprio Templo, Petrônio respondeu: "E não estou eu também obrigado a guardar a lei do meu próprio senhor? Pois, se eu a transgredir e poupar vocês, é justo que eu pereça. E quem me enviou, não eu, é que travará guerra contra vocês, pois estou sob ordens, assim como vocês." Diante disso, toda a multidão gritou que estava pronta a sofrer pela sua lei. Petrônio, então, acalmou-os e lhes disse: "Vocês vão, então, fazer guerra contra César?" Os judeus responderam: "Oferecemos sacrifícios duas vezes por dia por César e pelo povo romano. Mas, se ele quiser colocar as imagens entre nós, terá primeiro de sacrificar toda a nação judaica. Estamos prontos a nos expor à morte, junto com nossos filhos e mulheres." Petrônio ficou espantado e teve compaixão deles, por causa do indescritível senso de religião daqueles homens e da coragem que os tornava prontos a morrer por ela. Assim, foram dispensados sem êxito.
Nos dias seguintes, ele reuniu os homens de poder em particular e a multidão em público. Às vezes usava de persuasão, às vezes lhes dava conselhos, mas recorria principalmente a ameaças. Insistia no poder dos romanos e na ira de Caio e, além disso, na necessidade em que ele próprio se encontrava [de cumprir o que lhe fora ordenado]. Mas, como de modo nenhum se deixavam convencer, e ele via que o campo corria o risco de ficar sem cultivo (pois era época de semeadura, e a multidão permaneceu ociosa por cinquenta dias seguidos), ele por fim os reuniu e lhes disse: melhor que eu mesmo corra algum risco. Ou, com a ajuda divina, vou convencer César e escaparei do perigo, assim como vocês, o que será motivo de alegria para nós dois. Ou, caso César persista em sua fúria, estarei pronto a expor minha própria vida por um número tão grande de pessoas como vocês." Em seguida, dispensou a multidão, que orou muito pela sua prosperidade. Ele retirou o exército de Ptolemaida e voltou para Antioquia. De lá, enviou logo uma carta a César, informando-o da incursão que fizera na Judeia e das súplicas da nação, e dizendo que, a menos que ele quisesse perder tanto o território quanto os homens que nele viviam, teria de permitir que guardassem a sua lei e de revogar sua ordem anterior. Caio respondeu àquela carta de forma violenta e ameaçou mandar matar Petrônio por ser tão lento na execução do que ordenara. Mas aconteceu que aqueles que levavam a carta de Caio foram lançados por uma tempestade e ficaram retidos no mar por três meses, enquanto outros, que levavam a notícia da morte de Caio, tiveram boa viagem. Assim, Petrônio recebeu a carta sobre a morte de Caio vinte e sete dias antes de receber aquela que era contra ele mesmo.