A Guerra dos Judeus - Livro II 4

Livro II: dos procuradores ao início da revolta

Os veteranos de Herodes se amotinam. Os saques de Judas. Simão e Atronges tomam para si o título de rei.

Nessa época houve grandes distúrbios pelo país, em muitos lugares. A oportunidade que então surgiu levou muita gente a se proclamar rei. Na Idumeia, dois mil veteranos de Herodes se reuniram, pegaram em armas e lutaram contra os que ficaram do lado do rei. Contra eles combateu Aquiabo, primo do rei, valendo-se de algumas das posições mais bem fortificadas, mas evitando o confronto direto na planície. Em Séforis, cidade da Galileia, havia um certo Judas, filho daquele chefe de bando Ezequias, que antes assolara a região e fora vencido pelo rei Herodes. Esse Judas juntou uma multidão considerável, arrombou o depósito onde se guardava o arsenal real, armou os que estavam ao seu redor e atacou aqueles que tanto disputavam o domínio.
Na Pereia, Simão, um dos servos do rei, confiando na boa aparência e na altura do corpo, também pôs um diadema na própria cabeça. Ele percorria a região com um bando de salteadores que reunira, incendiou o palácio real de Jericó e muitas outras construções luxuosas, e ainda conseguiu fartos despojos pela pilhagem, arrancando-os das chamas. Logo teria incendiado todas aquelas belas construções se Grato, comandante da infantaria do partido do rei, não tivesse tomado os arqueiros traconitas e os mais aguerridos de Sebaste e enfrentado o homem. Os soldados de Simão foram mortos em grande número na batalha. Grato também despedaçou o próprio Simão, que fugia por um vale estreito, desferindo-lhe um golpe oblíquo no pescoço enquanto ele corria, e o quebrou. Os palácios reais próximos ao Jordão, em Betaranta, também foram incendiados por outros rebeldes que vieram da Pereia.
Nessa época, um certo pastor ousou se proclamar rei. Chamava-se Atronges. Era a força do corpo que o fazia esperar tal dignidade, além de uma alma que desprezava a morte. Somava-se a isso o fato de ter quatro irmãos parecidos com ele. Pôs um grupo de homens armados sob o comando de cada um desses irmãos e os usava como generais e oficiais quando saía em incursões, enquanto ele próprio agia como rei e cuidava apenas dos assuntos mais importantes. Naquele momento pôs um diadema na cabeça e por um bom tempo continuou a assolar o país com os irmãos, sendo o líder deles em matar tanto romanos quanto partidários do rei. Nenhum judeu lhe escapava, se com isso houvesse algum ganho. Certa vez ele ousou cercar todo um destacamento de romanos em Emaús, que levavam trigo e armas para a legião. Seus homens dispararam flechas e dardos, e assim mataram o centurião Ário e quarenta dos mais valentes soldados dele. Os demais, que corriam o mesmo perigo, escaparam com a chegada de Grato e dos homens de Sebaste, que vieram em seu socorro. Depois de tratarem assim tanto os próprios conterrâneos quanto os estrangeiros, ao longo de toda essa guerra, três dos irmãos foram subjugados algum tempo depois: o mais velho por Arquelau, os dois seguintes ao caírem nas mãos de Grato e Ptolemeu. O quarto se entregou a Arquelau, depois que este lhe estendeu a mão direita como garantia. Mas esse fim veio mais tarde. Por ora, eles enchiam toda a Judeia de uma guerra de pilhagem.