A Guerra dos Judeus - Livro II 7
Livro II: dos procuradores ao início da revolta
A história do falso Alexandre. Arquelau é banido, e Gláfira morre, depois que a ambos foi mostrado em sonhos o que lhes aconteceria.
Nesse meio-tempo, apareceu um homem que era judeu de nascimento, mas tinha sido criado em Sidom na casa de um dos libertos romanos. Por causa da semelhança entre os rostos, ele se passou falsamente por aquele Alexandre que tinha sido morto por Herodes. Esse homem foi até Roma, esperando não ser desmascarado. Ele contava com um ajudante, da sua própria nação, que conhecia todos os assuntos do reino e o instruía sobre o que dizer: que os homens enviados para matar a ele e a Aristóbulo se compadeceram dos dois e os tiraram dali às escondidas, colocando no lugar deles corpos parecidos com os seus. Esse homem enganou os judeus que estavam em Creta e arrancou deles muito dinheiro, viajando com pompa. De lá navegou para Melos, onde foi tido como verdadeiro com tamanha certeza que ganhou ainda mais dinheiro e convenceu os que o tinham recebido a navegar com ele até Roma. Assim, desembarcou em Diceárquia (Putéoli) e recebeu presentes muito generosos dos judeus que moravam ali. Os amigos do seu suposto pai o conduziam como se ele fosse um rei. A semelhança no rosto lhe dava tanta credibilidade que pessoas que tinham visto Alexandre e o conheciam muito bem juravam que ele era exatamente a mesma pessoa. Por isso, toda a comunidade judaica de Roma saiu em multidões para vê-lo, e havia uma multidão incontável apinhada nas ruas estreitas por onde ele passava. Os de Melos estavam tão fora de si que o carregavam numa liteira e mantinham para ele uma comitiva real, custeando tudo do próprio bolso.
Mas César, que conhecia perfeitamente bem os traços do rosto de Alexandre, porque Herodes o tinha acusado diante dele, percebeu a fraude na fisionomia do homem antes mesmo de vê-lo. Ainda assim, deixou que a fama agradável que corria a respeito dele tivesse algum peso, e enviou Celado, que conhecera bem Alexandre, com ordem de lhe trazer o rapaz. Quando César o viu, percebeu de imediato a diferença no rosto. E, ao descobrir que o corpo todo dele era de constituição mais robusta, como a de um escravo, entendeu que tudo era uma armação. A insolência das palavras do homem o irritou bastante: ao ser perguntado sobre Aristóbulo, ele respondeu que Aristóbulo também tinha sido preservado vivo e tinha sido deixado de propósito em Chipre, por medo de traição, porque seria mais difícil para conspiradores capturar os dois enquanto estivessem separados. Então César o chamou em particular e lhe disse: "Eu pouparei a sua vida, se você revelar quem foi que o convenceu a inventar tais histórias." Ele disse que revelaria, seguiu César e apontou para aquele judeu que tinha abusado da semelhança do seu rosto para obter dinheiro. De fato, ele tinha recebido mais presentes em cada cidade do que o próprio Alexandre jamais recebera enquanto vivo. César riu da armação e, por causa da força do corpo dele, colocou esse falso Alexandre entre os seus remadores, mas mandou executar aquele que o tinha persuadido. Quanto ao povo de Melos, já tinham sido suficientemente castigados pela sua tolice, pelos gastos que tinham feito por causa dele.
Nessa época, Arquelau tomou posse da sua etnarquia e tratou com brutalidade não só os judeus, mas também os samaritanos, por causa do ressentimento das suas antigas brigas com eles. Por isso, os dois povos enviaram embaixadores a César para acusá-lo, e no nono ano do seu governo ele foi banido para Viena, uma cidade da Gália, e os seus bens foram recolhidos ao tesouro de César. Conta-se que, antes de ser convocado por César, Arquelau pareceu ver nove espigas de trigo, cheias e grandes, sendo devoradas por bois. Quando, então, mandou chamar os adivinhos e alguns dos caldeus e lhes perguntou o que achavam que aquilo prenunciava, um deles deu uma interpretação e outro deu outra. Mas Simão, da seita dos essênios, disse que, no seu entender, as espigas de trigo indicavam anos, e os bois indicavam uma mudança de coisas, porque, ao arar, alteram o aspecto da terra. Portanto, Arquelau reinaria tantos anos quantas eram as espigas de trigo, e depois de passar por várias mudanças de fortuna, morreria. Cinco dias depois de Arquelau ter ouvido essa interpretação, ele foi chamado para o seu julgamento.
Também não posso deixar de considerar digno de registro o sonho que teve Gláfira, filha de Arquelau, rei da Capadócia. Ela tinha sido a princípio esposa de Alexandre, que era irmão do Arquelau de quem estamos tratando. Esse Alexandre era filho do rei Herodes, que o mandou matar, como já relatamos. Depois da morte dele, Gláfira casou-se com Juba, rei da Líbia, e, depois da morte deste, voltou para casa e vivia como viúva ao lado do pai. Foi então que Arquelau, o etnarca, a viu e se apaixonou tão profundamente por ela que se divorciou de Mariane, que era a sua esposa na época, e casou-se com Gláfira. Quando ela chegou à Judeia e já estava ali havia pouco tempo, achou que via Alexandre ao seu lado, e que ele lhe dizia: "O seu casamento com o rei da Líbia já deveria ter sido suficiente para você. Mas você não se contentou com ele, e voltou de novo para a minha família, para um terceiro marido. E você, mulher insolente, escolheu para marido justamente quem é meu irmão. No entanto, eu não vou ignorar a ofensa que você me fez. Em breve eu a terei de volta, queira você ou não." Gláfira mal sobreviveu dois dias depois de contar esse sonho.