A Guerra dos Judeus - Livro II 9

Livro II: dos procuradores ao início da revolta

A morte de Salomé. As cidades que Herodes e Filipe construíram. Pilatos provoca distúrbios. Tibério prende Agripa, mas Caio o liberta e o faz rei. Herodes Antipas é banido.

Quando a etnarquia de Arquelau se tornou província romana, os outros filhos de Herodes, Filipe e o Herodes chamado Antipas, assumiram cada um a administração de sua própria tetrarquia. Ao morrer, Salomé deixou em testamento a Júlia, esposa de Augusto, a sua toparquia, a cidade de Jâmnia e também o seu palmar em Fasaélis. Mas quando o império romano passou a Tibério, filho de Júlia, com a morte de Augusto (que tinha reinado cinquenta e sete anos, seis meses e dois dias), tanto Herodes quanto Filipe permaneceram em suas tetrarquias. Filipe construiu a cidade de Cesareia, junto às nascentes do Jordão, na região de Paneas, e também a cidade de Júlias, na Gaulanítide inferior. Herodes, por sua vez, construiu a cidade de Tiberíades, na Galileia, e na Pereia (do outro lado do Jordão) outra cidade, igualmente chamada Júlias.
Pilatos, enviado por Tibério como procurador à Judeia, mandou para Jerusalém, durante a noite, aquelas imagens de César que se chamam estandartes. Isso provocou grande tumulto entre os judeus quando amanheceu, pois os que estavam perto delas ficaram chocados com aquela visão, vendo nelas um sinal de que suas leis estavam sendo pisoteadas. Essas leis não permitem que se traga qualquer tipo de imagem para a cidade. Além da indignação dos próprios habitantes diante daquilo, uma multidão imensa veio correndo do interior. Todos foram com fervor até Pilatos, em Cesareia, e suplicaram que tirasse aqueles estandartes de Jerusalém e preservasse intactas as suas leis antigas. Como Pilatos recusou o pedido, eles se prostraram por terra e permaneceram imóveis naquela posição por cinco dias e cinco noites.
No dia seguinte, Pilatos sentou-se em seu tribunal, no mercado aberto, e chamou a multidão, como se quisesse lhes dar uma resposta. Então deu um sinal aos soldados para que, num momento, cercassem os judeus com suas armas. A tropa formou três fileiras ao redor deles. Os judeus ficaram apavorados diante daquela cena inesperada. Pilatos disse-lhes que seriam cortados em pedaços se não aceitassem as imagens de César, e ordenou aos soldados que desembainhassem as espadas. Diante disso, os judeus, como se obedecessem a um único sinal, lançaram-se ao chão em grande número, expuseram o pescoço nu e gritaram que estavam mais prontos a ser mortos do que a ver sua lei violada. Pilatos ficou muito surpreso com aquela extraordinária devoção e ordenou que os estandartes fossem retirados de Jerusalém imediatamente.
Depois disso, ele provocou outra perturbação ao gastar o tesouro sagrado chamado Corbã na construção de aquedutos, com os quais trouxe água de uma distância de quatrocentos estádios. A multidão se indignou com isso, e quando Pilatos chegou a Jerusalém, cercaram seu tribunal e fizeram um alvoroço. Como estava avisado dessa agitação, ele misturou seus próprios soldados armados no meio da multidão e ordenou que se disfarçassem com roupas comuns. Não deveriam usar as espadas, mas espancar com bastões os que fizessem o alvoroço. Em seguida, deu o sinal do tribunal (para que agissem como ele havia mandado). Os judeus foram tão duramente espancados que muitos morreram pelos golpes recebidos, e muitos outros morreram pisoteados pela própria multidão. Diante daquela desgraça dos que foram mortos, o povo ficou atônito e se calou.
Nesse meio-tempo, Agripa, filho daquele Aristóbulo que tinha sido morto por seu pai Herodes, foi a Tibério para acusar Herodes, o tetrarca. Como Tibério não acolheu a acusação, Agripa ficou em Roma e cultivou amizade com outros homens de destaque, mas principalmente com Caio, filho de Germânico, que então ainda era um cidadão comum. Certa vez, Agripa ofereceu um banquete a Caio. Tendo sido muito atencioso com ele por vários motivos, ele por fim estendeu as mãos e desejou abertamente que Tibério morresse e que logo visse Caio como imperador do mundo. Um dos servos de Agripa contou isso a Tibério, que ficou muito irado, mandou prender Agripa e o deixou ser maltratado na prisão por seis meses, até a morte de Tibério, que reinou vinte e dois anos, seis meses e três dias.
Mas quando Caio se tornou César, libertou Agripa das cadeias e o fez rei da tetrarquia de Filipe, que estava morto. Quando Agripa alcançou esse grau de dignidade, inflamou os desejos ambiciosos de Herodes, o tetrarca, levado a esperar a autoridade real sobretudo por sua esposa Herodias. Ela o censurava por sua preguiça e dizia que ele estava privado daquela grande dignidade porque não queria navegar até César. Afinal, se César tinha feito de Agripa um rei, partindo de cidadão comum, com muito mais razão elevaria Herodes de tetrarca àquela dignidade. Esses argumentos convenceram Herodes, que foi até Caio. Mas Caio o puniu pela ambição, banindo-o para a Espanha, pois Agripa o seguiu para acusá-lo. A Agripa, Caio também acrescentou a tetrarquia de Herodes. Assim, Herodes morreu na Espanha, para onde sua esposa o havia seguido.