A Guerra dos Judeus - Livro II 13
Livro II: dos procuradores ao início da revolta
Nero acrescenta quatro cidades ao reino de Agripa, mas as demais partes da Judeia ficaram sob Félix. As perturbações provocadas pelos sicários, pelos magos e por um falso profeta egípcio. Os judeus e os sírios entram em conflito em Cesareia.
Nero fez muitas coisas próprias de um louco, levado pelo grau extravagante de prosperidade e riqueza de que desfrutava, e assim usou sua boa sorte para prejudicar os outros. Matou o irmão, a esposa e a mãe, e dali sua barbárie se espalhou para outras pessoas que lhe eram muito próximas. No fim, perdeu de tal modo o juízo que se tornou ator nas cenas e nos palcos do teatro. Deixo de falar mais sobre tudo isso, porque há autores de sobra tratando desses temas em toda parte. Vou me voltar para os atos de seu tempo que envolveram os judeus.
Nero, então, concedeu o reino da Armênia Menor a Aristóbulo, filho de Herodes, e acrescentou ao reino de Agripa quatro cidades, com as toparquias a elas vinculadas: refiro-me a Abila, à Júlias que fica na Pereia, a Taricheia e a Tiberíades da Galileia. Sobre o restante da Judeia ele nomeou Félix procurador. Esse Félix capturou vivos Eleazar, o chefe dos bandoleiros, e muitos dos que o acompanhavam, depois que eles haviam saqueado a região por vinte anos seguidos, e os enviou a Roma. Quanto ao número de bandoleiros que ele mandou crucificar, e dos que foram apanhados entre eles e levados ao castigo, era uma multidão impossível de contar.
Depois que a região foi limpa desses, surgiu em Jerusalém outro tipo de bandoleiros, chamados sicários, que matavam homens em plena luz do dia, no meio da cidade. Faziam isso sobretudo nas festas, quando se misturavam à multidão escondendo punhais sob as roupas, com os quais apunhalavam seus inimigos. Quando alguém caía morto, os próprios assassinos se juntavam aos indignados, e por isso passavam por pessoas de tal reputação que não havia como descobri-los. O primeiro homem morto por eles foi o sumo sacerdote Jônatas, e depois de sua morte muitos eram mortos todos os dias. O medo de sofrer o mesmo destino era mais aflitivo que a própria calamidade. Como na guerra, cada um esperava a morte a cada hora, e por isso os homens eram obrigados a olhar à frente e identificar os inimigos a grande distância. Mesmo quando os amigos se aproximavam, já não ousavam confiar neles. Ainda assim, no meio de suas suspeitas e de toda a precaução, acabavam sendo mortos, tamanha era a rapidez dos conspiradores e tão astuto o seu plano.
Reuniu-se também outro bando de homens malvados, menos imundos em seus atos, mas mais perversos em suas intenções, que arruinava o estado próspero da cidade tanto quanto esses assassinos. Eram homens que enganavam e iludiam o povo sob o pretexto de inspiração divina, mas buscavam promover revoltas e mudanças no governo. Persuadiam a multidão a agir como louca e a conduziam ao deserto, alegando que ali Deus lhe mostraria os sinais da liberdade. Félix, no entanto, julgou que esse comportamento seria o começo de uma revolta, e por isso enviou cavaleiros e soldados de infantaria, todos armados, que mataram um grande número deles.
Havia também um falso profeta egípcio que causou aos judeus um dano maior que o anterior. Ele era um impostor que se fazia passar por profeta, e reuniu trinta mil homens iludidos por ele. Conduziu-os em círculo desde o deserto até o monte chamado Monte das Oliveiras, e dali estava pronto para invadir Jerusalém à força. Caso conseguisse vencer a guarnição romana e o povo, pretendia dominá-los com a ajuda dos seguidores que invadiriam a cidade com ele. Mas Félix impediu sua tentativa e o enfrentou com seus soldados romanos, enquanto todo o povo o auxiliava no ataque contra os rebeldes. Quando se chegou à batalha, o egípcio fugiu com uns poucos, ao passo que a maior parte dos que estavam com ele foi morta ou capturada viva. O restante da multidão se dispersou, cada um para sua casa, onde se escondeu.
Quando esses foram apaziguados, aconteceu, como ocorre num corpo doente, que outra parte ficou sujeita a uma inflamação. Um grupo de impostores e bandoleiros se reuniu e convenceu os judeus a se revoltar, exortando-os a reivindicar sua liberdade. Matavam os que continuavam obedientes ao governo romano, dizendo que aqueles que de bom grado escolhiam a escravidão deviam ser arrancados à força dessa inclinação. Dividiam-se em grupos diferentes, ficavam de tocaia pela região, saqueavam as casas dos homens importantes, matavam esses próprios homens e ateavam fogo às aldeias. Isso seguiu até que toda a Judeia ficou tomada pelos efeitos de sua loucura. E assim a chama era atiçada cada dia mais, até chegar a uma guerra aberta.
Houve também outra perturbação em Cesareia, onde os judeus que viviam misturados aos sírios se levantaram em tumulto contra eles. Os judeus afirmavam que a cidade era deles, dizendo que quem a construíra fora um judeu, referindo-se ao rei Herodes. Os sírios também reconheciam que o construtor fora judeu, mas insistiam que a cidade era grega, pois quem nela erguera estátuas e templos não poderia tê-la destinado aos judeus. Por causa disso, os dois grupos entraram em conflito, e essa disputa cresceu tanto que afinal se chegou às armas. Os mais ousados de cada lado saíram para lutar, pois os anciãos dos judeus não conseguiam conter o próprio povo, inclinado ao tumulto, e os gregos consideravam vergonhoso serem vencidos pelos judeus. Ora, esses judeus superavam os outros em riqueza e em força física, mas a parte grega tinha a vantagem do apoio dos soldados, pois a maior parte da guarnição romana fora recrutada na Síria e, por essa ligação com a parte síria, estava pronta a ajudá-la. Mesmo assim, os governantes da cidade se empenhavam em manter tudo tranquilo. Sempre que apanhavam os mais belicosos de qualquer dos lados, puniam-nos com açoites e prisão. Ainda assim, o sofrimento dos que eram apanhados não amedrontava os demais nem os fazia desistir, mas eles ficavam cada vez mais exasperados e mergulhados na sedição. Certa vez Félix foi à praça do mercado e ordenou aos judeus, que tinham espancado os sírios, que se retirassem, ameaçando-os caso não obedecessem. Como não o obedeceram, ele lançou seus soldados sobre eles e matou muitos, e em seguida os bens deles foram saqueados. Como a sedição continuava, ele escolheu os homens mais ilustres de ambos os lados como embaixadores junto a Nero, para discutir os respectivos privilégios.