Capítulos

Um rolo de papiro parcialmente desenrolado, lacrado com selo de cera vermelha, ao lado de um anel de sinete e um tinteiro

Cartas - Livro VII

Cartas sobre presságios, doença, amizade e a publicação de obras

Sobre a obra

As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, revisou e publicou, provavelmente em levas sucessivas ao longo da primeira década do século II. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.

Este é o Livro VII, com 33 cartas. É um livro de doença, luto, amizade e publicação de obras, e traz a carta 27, a discussão antiga mais conhecida sobre aparições e casas assombradas.

A carta sobre os fantasmas

A carta 27 é endereçada a Sura, identificado em geral com Licínio Sura, e costuma ser datada por volta de 107. Plínio abre com uma pergunta direta: os fantasmas existem e têm forma própria e algum poder divino, ou são vazios e recebem aparência do nosso medo? Não responde. Apresenta três relatos e pede que o correspondente decida por ele.

O primeiro é a figura de mulher que teria aparecido a Cúrcio Rufo na África, anunciando cargos em Roma e a volta para morrer ali. O segundo é o relato antigo mais conhecido de casa assombrada: em Atenas, uma casa grande e barata demais, ruído de correntes à noite, um velho de barba comprida e grilhões nas pernas. O filósofo Atenodoro aluga a casa justamente por causa da fama, escreve à noite para não se deixar dominar pelo medo, segue o espectro até o pátio e marca o lugar. No dia seguinte os magistrados escavam e encontram ossos presos a correntes, que são sepultados publicamente. A casa fica livre.

(Cartas - Livro VII 27:5-11)

O terceiro caso vem da casa do próprio Plínio: o irmão mais novo de um liberto seu e, tempos depois, um escravo jovem teriam sido tosquiados durante o sono por figuras noturnas. Ele liga o episódio à denúncia que Caro havia apresentado contra ele, achada depois entre os papéis do imperador, e que não virou processo porque Domiciano morreu antes; daí conjetura que o cabelo cortado significava que o perigo passara. O que interessa aqui é o método, não a conclusão: um senador romano trata o sobrenatural como questão a ser decidida por testemunho e argumento, e pede ao amigo que defenda um lado com mais força para que ele deixe de duvidar.

(Cartas - Livro VII 27:1-3)

Doença, luto e amizade

Boa parte do livro gira em torno de corpos que adoecem. Plínio escreve a Gemino, preocupado com a doença persistente do amigo, e a Máximo sobre a observação de que somos melhores enquanto estamos enfermos, porque o doente não é atormentado pela avareza nem pela luxúria. A carta 19 acompanha o estado de Fânia, que contraiu a doença cuidando de Júnia, a virgem vestal, primeiro por iniciativa própria, por ser parenta, depois por ordem dos pontífices.

(Cartas - Livro VII 19:1-2)

(Cartas - Livro VII 26:1-2)

O livro tem também a carta 5, de duas linhas apenas, à esposa Calpúrnia, sobre a saudade que o mantém acordado à noite. E a carta 24, sobre a morte de Umídia Quadratila pouco antes dos oitenta anos, que mantinha pantomimos em casa mas mandava o neto sair para estudar antes de assistir a eles.

Publicar, revisar e durar

O outro eixo do livro é literário. Plínio explica a Pôncio por que começou a escrever hendecassílabos, defende a prática dos recitais diante de Céler dizendo que recita para ser advertido daquilo que lhe escapa, e orienta Fusco sobre como estudar no retiro. Duas cartas são dirigidas a Tácito: numa ele devolve o livro do amigo com anotações do que lhe pareceu precisar de corte, noutra confessa sem rodeios que pressente que as histórias de Tácito serão imortais e por isso deseja aparecer nelas.

(Cartas - Livro VII 33:1-3)

Relevância

Este livro não fala de cristãos. Seu valor para quem estuda as origens cristãs é de outro tipo: mostra o mundo mental em que o cristianismo se difundiu. A mesma elite que produziu Plínio discutia aparições, prodígios e sinais divinos como assunto sério, sopesava testemunhos de segunda mão e reconhecia que a decisão era difícil. A carta a Sura ajuda a calibrar o que era plausível e o que era extraordinário para um romano culto por volta de 107.

Poucos anos depois, o mesmo autor governaria a Bitínia e escreveria ao imperador sobre o que fazer com os cristãos. Essa carta, e a resposta de Trajano, estão no Livro X.

(Cartas - Livro X 96:1-10)