Cartas - Livro VII 17
Cartas sobre presságios, doença, amizade e a publicação de obras
Caio Plínio ao seu Céler, saudações.
Cada um tem sua razão para fazer recitais; a minha, como já disse muitas vezes, é que, se algo me escapa, e certamente escapa, eu seja advertido.
Por isso me admiro mais ainda quando você escreve que houve alguns que me censuraram por eu recitar discursos; a não ser que julguem que só estes não precisam de correção.
Desses eu gostaria de saber por que admitem, se é que admitem, que se deva recitar a história, que se compõe não para ostentação, mas para a fidelidade e a verdade; por que a tragédia, que pede não um auditório, mas o palco e os atores; por que a poesia lírica, que pede não um leitor, mas o coro e a lira. E, no entanto, o recital dessas obras já foi acolhido pelo costume.
Será então de censurar aquele que começou? Embora os discursos também tanto alguns dos nossos quanto os gregos os tenham lido com frequência.
Mesmo assim, é supérfluo recitar o que você já disse. Sim, se for tudo o mesmo, para os mesmos ouvintes, recitado de imediato; mas se você inserir muita coisa, mudar muita coisa, reunir alguns ouvintes novos e alguns os mesmos, mas depois de algum tempo, por que seria menos justificável recitar o que você disse do que publicá-lo?
Mas é difícil que um discurso, enquanto é recitado, satisfaça. Ora, isso diz respeito ao esforço de quem recita, não à razão de não recitar.
E, na verdade, eu não desejo ser elogiado enquanto recito, mas enquanto sou lido. Por isso não deixo de lado nenhum tipo de correção. E primeiro examino comigo mesmo o que escrevi; depois leio para dois ou três; em seguida entrego a outros para anotarem, e suas observações, se estou em dúvida, pondero de novo com um ou outro; por último recito para muitos, e, se você acredita em mim, é então que corrijo com o maior rigor;
pois me concentro com tanto mais cuidado quanto mais aflito estou. Ora, a reverência, o pudor e o medo são os melhores juízes, e tenha isto por certo: por acaso, se você vai falar com alguém, por mais culto que seja, mas sendo só um, não se perturba menos do que se fosse falar com muitos, ainda que incultos?
Por acaso, quando você se levanta para defender, não é então que mais desconfia de si mesmo, é então que deseja mudar não digo muitíssima coisa, mas tudo? Sobretudo se o palco é mais amplo e o público mais numeroso; pois respeitamos até aqueles, sujos e de roupas escuras.
Por acaso, se você acha que tudo o que diz no início é reprovado, não fica abalado e arrasado? Acho que sim, porque no próprio número há um certo grande e conjunto discernimento, e, embora cada um deles tenha pouco juízo, todos juntos têm muitíssimo.
Por isso Pompônio Segundo, este escritor de tragédias, se por acaso um amigo mais íntimo julgava que algo devia ser cortado e ele próprio que devia ser mantido, costumava dizer: 'Apelo ao povo', e assim, do silêncio ou do aplauso do povo, seguia a sua opinião ou a do amigo.
Tanto valor ele dava ao povo; com razão ou não, isso não me diz respeito. Pois eu não costumo convocar o povo, mas pessoas determinadas e escolhidas, que eu possa observar, em quem possa confiar, que enfim eu observe como se fossem cada um por si e tema como se não fossem cada um por si.
Pois, o que Marco Cícero pensa sobre a escrita, eu penso sobre o medo: o temor, o temor é o corretor mais severo. O próprio fato de pensarmos que vamos recitar já corrige; o fato de entrarmos no auditório corrige; o fato de empalidecermos, estremecermos e olharmos em volta corrige.
Por isso não me arrependo do meu hábito, que experimento ser utilíssimo, e tão pouco me deixo desencorajar pela falação daqueles que, ao contrário, peço a você que me mostre algo que eu possa acrescentar a isto.
Pois nada basta ao meu cuidado. Penso como é grande pôr algo nas mãos dos homens, e não consigo me convencer de que não se deva tratar muitas vezes, e com muitos, aquilo que você deseja agradar sempre e a todos. Adeus.