Cartas - Livro VII 24

Cartas sobre presságios, doença, amizade e a publicação de obras

Caio Plínio a seu caro Gêmino, saudações.

Umídia Quadratila morreu pouco antes de completar oitenta anos, vigorosa até a última doença, e com um corpo compacto e robusto além do que é comum às matronas.
Morreu deixando um testamento muito honrado: nomeou como herdeiros o neto, com dois terços, e a neta, com a terça parte. À neta conheço pouco, ao neto amo com a maior intimidade, um jovem singular, digno de ser amado entre os próximos não por aqueles a quem é ligado pelo sangue.
Antes de tudo, notável pela beleza, escapou de toda maledicência tanto como menino quanto como jovem; casou-se antes dos vinte e quatro anos, e seria pai se um deus tivesse permitido. Viveu sob o mesmo teto de uma avó dada ao luxo, com a maior austeridade e, ainda assim, com a maior obediência.
Ela mantinha pantomimos e os favorecia com mais generosidade do que convém a uma mulher de tal posição. Quadrato não os assistia nem no teatro nem em casa, e ela não o exigia.
Ouvi dela mesma, quando me recomendava os estudos do neto, que ela costumava, como mulher naquele ócio próprio de seu sexo, distrair o espírito com o jogo de pedras e assistir aos seus pantomimos, mas que, sempre que ia fazer uma coisa ou outra, mandava o neto sair e ir estudar; o que me parecia ela fazer não tanto por amor a ele quanto por respeito.
Vais te surpreender, e eu mesmo me surpreendi. Nos últimos jogos sacerdotais, depois que os pantomimos foram apresentados na abertura, quando saíamos juntos do teatro, eu e Quadrato, ele me disse: 'Sabes que hoje vi pela primeira vez dançar o liberto de minha avó?' Isto, o neto.
Mas, por Hércules, homens totalmente estranhos, em honra de Quadratila, tenho vergonha de ter dito honra, por dever de adulação corriam ao teatro, exultavam, aplaudiam, admiravam e depois reproduziam cada gesto da senhora com cantigas; esses agora receberão do herdeiro, que não assistia a isso, legados ínfimos, gorjeta pelo trabalho teatral.
Conto isto porque costumas ouvir de bom grado, quando surge algo novo, e também porque me é agradável reviver, escrevendo, a alegria que senti. Pois me alegro com a afeição da falecida, com a honra do excelente jovem; e também me regozijo de que a casa que antes foi de Caio Cássio, aquele que foi fundador e mestre da escola cassiana, sirva a um senhor não menor.
Pois o meu Quadrato a preencherá e a honrará, e lhe devolverá a antiga dignidade, fama e glória, quando dali sair um orador tão grande quanto aquele foi jurisconsulto. Adeus.