
A Ética a Nicômaco de Aristóteles
Aristóteles
Aristóteles nasceu em Estagira, no norte da Grécia, por volta de 384 a.C. e morreu em 322 a.C. Foi discípulo de Platão na Academia de Atenas e, mais tarde, mestre de Alexandre, o Grande. Fundou sua própria escola, o Liceu, onde costumava ensinar caminhando, o que rendeu aos seus seguidores o nome de peripatéticos. Escreveu sobre quase tudo, da lógica à biologia, e a Ética a Nicômaco é o seu grande tratado sobre como viver bem.
O que é a Ética a Nicômaco
A obra reúne, em dez livros, as lições de Aristóteles sobre a vida boa. O nome vem de Nicômaco, ligado à família do filósofo (era o nome de seu pai e também de seu filho), e a tradição associa a obra à edição feita pelo filho. A pergunta que organiza tudo é simples e enorme: o que é a felicidade, e como se chega a ela? A resposta de Aristóteles não é uma lista de regras, mas uma educação do caráter: viver bem é exercer com excelência aquilo que há de mais próprio no ser humano, a razão.
As três grandes ideias
Três ideias atravessam a obra. A primeira é a felicidade (em grego, eudaimonia) como o fim último de tudo o que fazemos, a vida plena e realizada que todos buscam por ela mesma. A segunda é a virtude como hábito: não nascemos bons nem nos tornamos bons só ouvindo, mas praticando os atos certos até que virem segunda natureza, sempre buscando o meio-termo entre o excesso e a falta. A terceira é que o ápice da felicidade está na contemplação, na atividade mais alta da razão, aquilo que há de mais divino em nós.
A estrutura dos dez livros
O Livro I define a felicidade como o bem supremo e apresenta o argumento da função. O Livro II trata da virtude moral como hábito e do meio-termo. O Livro III analisa a ação voluntária, a escolha e as virtudes da coragem e da temperança, e o Livro IV percorre as demais virtudes do caráter, da generosidade à magnanimidade. O Livro V é todo dedicado à justiça. O Livro VI trata das virtudes da razão, com destaque para a prudência. O Livro VII enfrenta a fraqueza de vontade, a incontinência. Os Livros VIII e IX exploram a amizade, e o Livro X reexamina o prazer e culmina na contemplação como felicidade perfeita.
Transmissão e texto
A tradução em português usada neste site foi feita a partir da versão inglesa de W. D. Ross, em domínio público, uma das traduções de referência da Ética por mais de um século. Ao lado dela publicamos o próprio texto de Ross em inglês, para leitura comparada. As referências acadêmicas à obra seguem a numeração de Bekker, o sistema de páginas, colunas e linhas (por exemplo 1094a, 1103b) que vem da edição de Immanuel Bekker, de 1831, e ainda hoje localiza qualquer passagem em qualquer tradução.
Influência no pensamento cristão
Nenhuma obra de filosofia moral marcou mais a teologia cristã. Tomás de Aquino chamava Aristóteles simplesmente de "o Filósofo" e construiu a moral cristã sobre esta obra. As quatro virtudes cardeais, prudência, justiça, fortaleza e temperança, que a Igreja ensina, são em grande parte herança aristotélica, organizada por Aquino ao lado das virtudes teologais. A análise da amizade tornou-se a base para Aquino definir a caridade como uma amizade com Deus. E a primazia aristotélica da contemplação alimentou a tradição da vida contemplativa e a ideia de que a felicidade última do ser humano é ver a Deus.
“Toda arte e toda investigação, e da mesma forma toda ação e escolha, parecem visar algum bem.”Aristóteles, Ética a Nicômaco - Livro I 1:1
Relevância para o cristão de hoje
Um cristão ganha muito ao ler a Ética a Nicômaco, desde que a leia com discernimento. A ideia de que o caráter se forma pela prática, de que a virtude está no equilíbrio, de que a amizade verdadeira quer o bem do outro por ele mesmo, e de que há uma felicidade mais alta que o prazer, tudo isso encontra eco profundo na vida cristã. Foi com essas ferramentas que a Igreja pensou boa parte de sua moral.
Mas há limites claros, e ignorá-los seria desonesto. O Deus de Aristóteles é o motor imóvel, um princípio impessoal que não cria, não ama e não providencia, longe do Deus pessoal da Bíblia. A felicidade aristotélica é conquistada pela razão e pela virtude humana, sem graça e sem a esperança da vida futura. A magnanimidade, o homem que se julga digno de grandes honras, contrasta com a humildade cristã, que Aristóteles sequer lista. E não há ali alma imortal individual nem ressurreição do corpo. O proveito está nas perguntas e nas ferramentas de pensamento, não em tratar Aristóteles como se fosse cristão.
Volumes
- Ética a Nicômaco - Livro IO bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude13 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro IIA virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta9 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro IIIAção voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança12 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro IVAs demais virtudes do caráter: generosidade, magnificência, magnanimidade, mansidão e as virtudes do convívio9 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro VA justiça: a distributiva e a corretiva, o justo como meio-termo e a equidade que corrige a lei9 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro VIAs virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria13 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro VIIContinência e incontinência (akrasia): por que se conhece o certo e mesmo assim se age errado, e a natureza do prazer14 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro VIIIA amizade: seus três tipos (por utilidade, por prazer e por virtude) e seu lugar na vida boa14 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro IXA amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu12 cap.
- Ética a Nicômaco - Livro XO prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada9 cap.