Ética a Nicômaco - Livro II 1

A virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta

Como a virtude moral é adquirida pelo hábito

A virtude, então, é de dois tipos: a intelectual e a moral. A virtude intelectual nasce e cresce principalmente pelo ensino, e por isso exige experiência e tempo. a virtude moral surge como resultado do hábito, e daí vem o seu nome em grego (ethike), que se forma por uma pequena variação da palavra ethos, que significa hábito.
Disso fica claro também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza, pois nada do que existe por natureza pode ser levado a um hábito contrário à sua natureza.
Por exemplo, a pedra, que por natureza cai para baixo, não pode ser habituada a subir, nem que você tente treiná-la jogando-a para cima dez mil vezes. Do mesmo modo, o fogo não pode ser habituado a descer, nem qualquer outra coisa que por natureza age de um jeito pode ser treinada a agir de outro.
Portanto, as virtudes não surgem em nós nem por natureza nem contra a natureza. Em vez disso, somos preparados por natureza para recebê-las, e nos tornamos plenos nelas pelo hábito.
Além disso, em tudo o que recebemos por natureza primeiro adquirimos a capacidade e depois exercemos a atividade. Isso fica evidente no caso dos sentidos, pois não foi por ver ou ouvir muitas vezes que ganhamos esses sentidos; ao contrário, nós os tínhamos antes de usá-los, não passamos a tê-los por usá-los. Com as virtudes, no entanto, acontece o oposto: nós as adquirimos primeiro exercendo-as, exatamente como ocorre com as artes.
Pois as coisas que precisamos aprender antes de saber fazer, nós aprendemos fazendo. Por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e tocadores de lira tocando lira. Da mesma maneira, nós nos tornamos justos praticando atos justos, moderados praticando atos moderados, corajosos praticando atos corajosos.
Isso se confirma pelo que acontece nas cidades, pois os legisladores tornam os cidadãos bons formando hábitos neles. É esse o desejo de todo legislador, e os que não conseguem isso falham no seu objetivo. É justamente nisso que uma boa constituição difere de uma má.
Além disso, é pelas mesmas causas e pelos mesmos meios que toda virtude é tanto produzida quanto destruída, e o mesmo vale para toda arte. Pois é tocando lira que se formam tanto os bons quanto os maus tocadores de lira. O mesmo vale para os construtores e para todos os demais: os homens serão bons ou maus construtores conforme construam bem ou mal.
Pois se não fosse assim, não haveria necessidade de um professor, e todos nasceriam bons ou maus no seu ofício. O mesmo acontece com as virtudes: praticando os atos que praticamos nas relações com outras pessoas, nós nos tornamos justos ou injustos; e praticando os atos que praticamos diante do perigo, acostumados a sentir medo ou confiança, nós nos tornamos corajosos ou covardes.
O mesmo vale para os desejos e para os sentimentos de raiva, pois alguns se tornam moderados e tranquilos, outros descontrolados e irritadiços, conforme se comportam de um jeito ou de outro nas situações apropriadas. Assim, em uma palavra, os estados de caráter surgem de atividades semelhantes a eles.
Por isso as atividades que praticamos precisam ser de um certo tipo, que os estados de caráter correspondem às diferenças entre essas atividades. Não é pequena, então, a diferença entre formar hábitos de um tipo ou de outro desde a juventude; ao contrário, é uma diferença muito grande, ou melhor, é toda a diferença.