Capítulos
Ética a Nicômaco - Livro III
Ação voluntária e involuntária, a escolha deliberada e a deliberação, e as virtudes da coragem e da temperança
Sobre a obra
Ética a Nicômaco é o principal tratado moral de Aristóteles (384 a 322 a.C.), filósofo grego discípulo de Platão. A obra investiga o que é a vida boa e como o ser humano alcança a felicidade pela prática da virtude. Tem dez livros ao todo. Este é o Livro III.
O que este livro discute
A primeira parte trata da ação voluntária e da involuntária. O que é feito por força externa ou por ignorância dos fatos não é voluntário. Por isso não merece louvor nem censura. Só respondemos por aquilo que parte de nós e que poderíamos ter feito de outro modo. Aristóteles examina os casos de fronteira: o ato cometido sob ameaça, o ato feito por engano, o arrependimento que distingue o que foi involuntário de fato.
Em seguida vem a escolha deliberada (prohairesis), a decisão pensada de antemão. Ela não se confunde com o desejo nem com o impulso do momento. É fruto da razão que pesa as opções antes de agir. A deliberação recai sobre os meios, não sobre os fins: ninguém delibera sobre se quer ser feliz, mas sobre como chegar lá. Essa análise funda a responsabilidade moral, pois o ato escolhido é aquele pelo qual a pessoa pode ser tida como autora.
A parte final estuda as duas primeiras virtudes em detalhe. A coragem é o meio-termo diante do medo e da audácia. Seu caso exemplar é o soldado que enfrenta a morte na batalha por uma causa nobre, sem temer demais nem se lançar sem juízo. A temperança é a moderação dos prazeres do corpo, sobretudo os do gosto e do tato. O temperante deseja o que convém, na medida certa e na hora certa.
Relevância para a fé cristã
A análise aristotélica do ato voluntário, da escolha e da ignorância tornou-se a base da teologia moral cristã da responsabilidade, do pecado e do mérito. Tomás de Aquino estrutura o tratado dos atos humanos da Suma Teológica (I-II) sobre essas mesmas distinções: o que torna um ato humano e imputável, quando a ignorância desculpa, como a vontade e a razão se compõem na escolha.
A coragem e a temperança são duas das quatro virtudes cardeais que a tradição cristã herdou da filosofia grega, ao lado da prudência e da justiça. Cabe uma ressalva honesta. A coragem de Aristóteles é a do cidadão-soldado na guerra, ligada à honra da cidade. A tradição cristã desloca o ápice da fortaleza para o martírio, dar a vida pela fé. Ela vê a verdadeira coragem sustentada pela graça e pela esperança na vida futura, horizonte que Aristóteles não tem.
Para a discussão do que é uma ação voluntária, ver: