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Ética a Nicômaco - Livro I

O bem supremo e a felicidade: a função própria do ser humano e por que a felicidade é a atividade da alma conforme a virtude

Sobre a obra

A Ética a Nicômaco é o principal tratado de ética de Aristóteles (384 a 322 a.C.), filósofo grego nascido em Estagira, discípulo de Platão e mestre de Alexandre, o Grande. O título vem de Nicômaco, filho do filósofo, a quem a obra é tradicionalmente associada. O texto não foi escrito como livro acabado: deriva de notas de aula do Liceu, a escola que Aristóteles fundou em Atenas, o que explica seu tom direto e por vezes esquemático.

A obra completa tem dez livros. Este é o Livro I, que abre a investigação fixando a pergunta central: qual é o bem supremo da vida humana, aquilo a que tudo o mais se ordena.

O que este livro discute

Aristóteles parte de uma observação simples: toda arte, toda investigação e toda ação visam algum bem. Como nem tudo pode ser desejado em vista de outra coisa (senão o desejo seria infinito e vazio), deve existir um bem supremo, buscado por si mesmo e nunca como meio para outro fim. Quase todos concordam no nome desse bem: a felicidade (eudaimonia). O desacordo começa quando se pergunta em que ela consiste, e é esse desacordo que o livro enfrenta.

Antes de responder, Aristóteles critica seu próprio mestre. Rejeita a Ideia do Bem de Platão, o Bem absoluto e separado das coisas: para ele não há um único Bem em si que sirva de modelo a todos os bens concretos, e mesmo que houvesse, seria inútil para a vida prática, que lida com bens realizáveis aqui e agora. O bem que importa à ética é o bem do homem, não uma forma celeste.

O coração do livro é o argumento da função (ergon). Assim como um flautista ou um escultor têm uma função própria, e seu valor está em cumpri-la bem, o ser humano também deve ter uma função que lhe seja peculiar. Não é o simples viver (plantas vivem), nem a sensação (animais sentem): é a atividade da alma conforme a razão. Logo, o bem humano, a felicidade, é a atividade da alma conforme a virtude, exercida ao longo de uma vida completa (uma andorinha não faz verão, nem um só dia torna alguém feliz). Aristóteles ainda reconhece o papel dos bens exteriores: saúde, amigos, recursos. A virtude é o essencial, mas certa fortuna é necessária para que a vida feliz se realize de fato.

Relevância para a fé cristã

Tomás de Aquino chamava Aristóteles simplesmente de "o Filósofo" e fez da felicidade (beatitudo) o fim último do homem nas primeiras questões da segunda parte da Suma Teológica (I-II, questões 1 a 5), construindo sua ética justamente sobre o terreno deste livro. Aquino retoma o argumento da função e a ordenação de tudo a um fim último, mas introduz uma distinção decisiva: separa a felicidade natural e imperfeita, alcançável nesta vida pela razão e pela virtude, da bem-aventurança sobrenatural, a visão de Deus, que ultrapassa as forças humanas e só se atinge pela graça.

Felicidade imperfeita pode ser tida nesta vida, mas a felicidade perfeita consiste na visão de Deus.

Tomás de Aquino, Suma Teológica

É preciso ressalva honesta: Aristóteles é pré-cristão. O deus de sua filosofia é o motor imóvel, princípio impessoal que move o mundo como objeto de desejo, mas que não cria, não revela e não provê. A felicidade descrita aqui é conquistada pela razão e pela virtude humanas, sem graça, sem visão beatífica, sem expectativa de vida futura. A teologia cristã aproveitou a estrutura do pensamento aristotélico (o fim último, a função própria do homem, a virtude como atividade) e a reinterpretou dentro de uma ordem que Aristóteles não conhecia.

Para a abertura do livro, sobre o bem que todos buscam, ver:

(Ética a Nicômaco - Livro I 1:1)