Ética a Nicômaco - Livro IX 1

A amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu

Como retribuir com justiça as amizades entre parceiros desiguais

Em toda amizade entre pessoas diferentes é, como dissemos, a proporção que iguala as partes e preserva o vínculo. Por exemplo, na amizade política o sapateiro recebe pelos seus sapatos um pagamento proporcional ao valor deles, e o mesmo vale para o tecelão e para todos os outros artesãos. Aqui existe uma medida comum, que é o dinheiro, e por isso tudo se refere a ele e por ele é medido.
Mas na amizade entre amantes às vezes quem ama reclama que seu excesso de amor não é correspondido com amor igual (embora talvez não haja nada de amável nele), enquanto muitas vezes o amado reclama que aquele que antes prometia tudo agora não cumpre nada.
Esses conflitos acontecem quando quem ama busca no outro o prazer, enquanto o amado busca a utilidade, e nenhum dos dois tem as qualidades que o outro esperava. Quando a amizade se baseia nessas coisas, ela se desfaz no momento em que cada um deixa de receber aquilo que motivava seu afeto. Cada um não amava a pessoa do outro, mas as vantagens que ela oferecia, e essas vantagens não duravam. Por isso essas amizades também são passageiras.
Mas o amor que se baseia no caráter, como foi dito, dura, porque não depende de nada externo. Os atritos surgem quando o que se recebe é algo diferente do que se desejava, porque não receber o que se buscava é como não receber nada.
Pense na história do homem que fez promessas a um tocador de lira, prometendo pagar mais quanto melhor ele cantasse. Na manhã seguinte, quando o músico cobrou o cumprimento da promessa, ele respondeu que tinha dado prazer em troca de prazer. Se fosse isso que cada um queria, tudo estaria bem. Mas se um queria diversão e o outro queria ganho, e um conseguiu o que queria enquanto o outro não, então o acordo entre eles não foi cumprido como devia. Cada um, de fato, presta atenção àquilo que quer, e é por causa disso que se dispõe a dar o que tem.
Mas quem deve fixar o valor do serviço: aquele que o presta ou aquele que recebe a vantagem? De qualquer modo, parece que quem presta deixa a decisão nas mãos do outro. Dizem que era assim que Protágoras agia. Sempre que ensinava algo, pedia ao aluno que avaliasse quanto valia aquele conhecimento, e aceitava a quantia fixada. Mas, nessas situações, quem aprove o ditado: que cada um receba uma recompensa combinada de antemão.
Aqueles que recebem o dinheiro primeiro e depois não fazem nada do que prometeram, por causa do exagero das próprias promessas, naturalmente acabam sendo alvo de reclamação, pois não cumprem o que acordaram. Os sofistas talvez sejam obrigados a agir assim, porque ninguém pagaria pelo pouco que de fato sabem. Essa gente, então, quando não entrega aquilo pelo qual foi paga, com razão é alvo de queixa.
Mas quando não um contrato de serviço, aqueles que abrem mão de algo pelo bem do outro não podem (como dissemos) ser censurados, porque essa é a natureza da amizade fundada na virtude. A retribuição a eles deve se basear na intenção que tiveram, pois a intenção é o que define um amigo verdadeiro e a própria virtude.
E assim também, ao que parece, devemos retribuir àqueles com quem estudamos filosofia, pois o valor deles não pode ser medido em dinheiro, e não honra capaz de igualar o que nos deram. Mesmo assim, talvez baste, como acontece com os deuses e com nossos pais, dar a eles o que pudermos.
Se o presente não foi desse tipo, mas foi dado esperando algo em troca, o melhor é que a retribuição pareça justa para as duas partes. Mas se isso não for possível, parece não necessário, mas também justo, que quem recebeu o serviço primeiro fixe a recompensa. Pois se quem prestou o serviço receber em troca o equivalente à vantagem obtida, ou ao preço que o outro pagaria pelo prazer recebido, terá obtido o que é justo da parte dele.
Vemos isso acontecer também com as coisas postas à venda. Em alguns lugares leis estabelecendo que nenhum processo judicial pode nascer de contratos voluntários, partindo do princípio de que se deve acertar as contas com quem se confiou crédito no mesmo espírito em que se negociou com ele. A lei considera mais justo que seja quem recebeu o crédito a fixar os termos, e não quem o concedeu.
Pois a maioria das coisas não é avaliada pelo mesmo valor por quem as tem e por quem as deseja. Cada lado grande valor ao que é seu e ao que está oferecendo. Ainda assim, a retribuição se faz nos termos fixados por quem recebe. Mas, sem dúvida, quem recebe deve avaliar a coisa não pelo que ela parece valer depois que a tem, mas pelo que ele a avaliava antes de tê-la.