Ética a Nicômaco - Livro VI 1
As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria
A regra correta e as duas partes racionais da alma
Já dissemos antes que devemos escolher o meio-termo, não o excesso nem a falta, e que esse meio-termo é fixado pela regra correta. Agora vamos examinar o que essa regra correta significa de fato.
Em todos os estados de caráter que mencionamos, como em qualquer outra área, existe um alvo que a pessoa dotada de razão tem em vista, e segundo ele aumenta ou diminui o seu esforço. E existe um padrão que determina os estados intermediários, aqueles que dizemos estar entre o excesso e a falta, em conformidade com a regra correta.
Mas essa afirmação, embora verdadeira, não é nada clara. Pois não só aqui, mas em todas as outras atividades que são objeto de conhecimento, é verdade dizer que não devemos nos esforçar demais nem de menos, e sim na medida intermediária, como a regra correta determina. Só que, se alguém tivesse apenas esse conhecimento, não saberia nada mais por isso.
Por exemplo, não saberíamos que tipo de remédios aplicar ao corpo se alguém dissesse: aplique todos aqueles que a arte médica prescreve, e que estão de acordo com a prática de quem domina essa arte.
Por isso, no que diz respeito também aos estados da alma, não basta fazer essa afirmação verdadeira. É preciso também determinar qual é a regra correta e qual é o padrão que a fixa.
Dividimos as virtudes da alma e dissemos que algumas são virtudes de caráter e outras de intelecto. Já tratamos em detalhe das virtudes morais. Quanto às outras, vamos expor agora a nossa visão, começando por algumas observações sobre a alma.
Dissemos antes que há duas partes da alma: a que capta uma regra ou princípio racional, e a parte irracional. Vamos agora traçar uma distinção parecida dentro da parte que capta um princípio racional.
Suponhamos que existam duas partes que captam um princípio racional: uma pela qual contemplamos as coisas cujas causas de origem são invariáveis, e outra pela qual contemplamos as coisas variáveis. Pois, quando os objetos diferem em espécie, a parte da alma que corresponde a cada um dos dois também difere em espécie, já que é por uma certa semelhança e parentesco com seus objetos que essas partes têm o conhecimento que têm.
Chamemos uma dessas partes de científica e a outra de calculadora. Pois deliberar e calcular são a mesma coisa, e ninguém delibera sobre o que é invariável. Portanto, a parte calculadora é uma parte da faculdade que capta um princípio racional.
Precisamos, então, aprender qual é o melhor estado de cada uma dessas duas partes, pois esse é o que constitui a virtude de cada uma.