Capítulos
Ética a Nicômaco - Livro IX
A amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu
Sobre a obra
A Ética a Nicômaco é a principal obra de filosofia moral de Aristóteles (384 a 322 a.C.), discípulo de Platão e mestre de Alexandre. A obra investiga o que é a vida boa e qual a virtude que conduz à felicidade (eudaimonia). O conjunto tem dez livros. Este é o Livro IX.
O que este livro discute
O Livro IX continua o tratado da amizade iniciado no Livro VIII. Aristóteles trata de como manter e dissolver amizades, e dos conflitos que surgem entre tipos diferentes de amizade, por exemplo quando um lado busca o útil e o outro busca o prazer ou o caráter.
O livro também desce a questões mais profundas. A primeira é o amor-próprio. Aristóteles distingue um amor de si vulgar, o do egoísta que quer para si dinheiro, honras e prazeres, de um amor de si nobre, o do homem bom que quer para si aquilo que é mais nobre, isto é, o bem enquanto ser racional. O homem virtuoso é, nesse sentido reto, o que mais se ama.
Daí vem a tese do amigo como "outro eu" (allos autos): a relação do bom com o amigo é semelhante à relação que ele tem consigo mesmo. Aristóteles discute ainda a benevolência, que é um começo de amizade mas não amizade plena, a concórdia, que é a unidade de propósito em uma cidade, e a pergunta final do livro: por que o homem já feliz e autossuficiente ainda precisa de amigos.
Relevância para a fé cristã
A ideia do amigo como "outro eu" e a do amor-próprio bem ordenado alimentaram a leitura cristã do mandamento de amar o próximo como a si mesmo.
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Tomás de Aquino retoma diretamente esta análise. Ele discute o amor de si reto como medida e fundamento do amor ao próximo: o próprio mandamento toma o amor que cada um tem por si como o padrão do amor devido ao outro.
É preciso ressalva honesta. Aristóteles restringe a amizade plena aos poucos, aos iguais e aos virtuosos. O mandamento cristão estende o amor ao próximo de forma universal, e até ao inimigo, e o funda no amor de Deus, não na semelhança nem no mérito do outro. A análise grega oferece a gramática do amor-próprio; ela não oferece o seu alcance cristão.
Para a abertura do livro, ver: