Ética a Nicômaco - Livro IV 1
As demais virtudes do caráter: generosidade, magnificência, magnanimidade, mansidão e as virtudes do convívio
A generosidade: o modo certo de dar e receber riqueza
Falemos agora da generosidade (liberalidade). Ela parece ser o meio-termo em relação à riqueza, pois o homem generoso não é elogiado por feitos militares, nem pelas coisas que rendem elogio ao temperante, nem por decisões judiciais, mas por como dá e recebe riqueza, e sobretudo por como dá.
Por 'riqueza' entendemos todas as coisas cujo valor se mede em dinheiro.
Além disso, a prodigalidade e a avareza são o excesso e a falta em relação à riqueza. A avareza nós sempre atribuímos a quem se importa com a riqueza mais do que deveria, mas às vezes usamos a palavra 'prodigalidade' num sentido misturado, pois chamamos de pródigos os que são incontinentes e gastam dinheiro com seus próprios prazeres.
Por isso eles são considerados os piores tipos de pessoa, já que juntam mais de um vício. No sentido próprio, contudo, a palavra não se aplica bem a eles, pois 'pródigo' significa um homem que tem um único defeito: o de desperdiçar seus bens. O pródigo é aquele que se arruína por culpa própria, e desperdiçar os bens é visto como uma forma de se arruinar a si mesmo, já que se considera que a vida depende de ter posses.
É neste sentido que tomamos a palavra 'prodigalidade'. Ora, as coisas que têm um uso podem ser usadas bem ou mal. A riqueza é uma coisa útil, e tudo é mais bem usado por quem tem a virtude que se refere àquilo. Logo, a riqueza será mais bem usada por quem tem a virtude que se refere à riqueza, e esse é o homem generoso.
Gastar e dar parecem ser o uso da riqueza, enquanto receber e guardar são antes a posse dela. Por isso é mais próprio do homem generoso dar às pessoas certas do que receber das fontes certas e não receber das erradas.
Pois é mais próprio da virtude fazer o bem do que recebê-lo, e mais próprio fazer o que é nobre do que apenas evitar o que é vil. E não é difícil ver que dar implica fazer o bem e fazer o que é nobre, enquanto receber implica ter um bem feito a você ou ao menos não agir de forma vil.
A gratidão vai para quem dá, não para quem deixa de receber, e o elogio também recai mais sobre quem dá. Além disso, é mais fácil não receber do que dar, pois as pessoas tendem mais a entregar de menos o que é seu do que a tomar o que é do outro.
Quem dá é chamado de generoso, mas quem não recebe não é elogiado pela generosidade, e sim pela justiça, enquanto quem recebe quase não é elogiado de modo algum. E os generosos são quase os mais amados entre as pessoas virtuosas, porque são úteis, e isso depende do fato de eles darem.
As ações virtuosas são nobres e feitas em vista do que é nobre. Por isso o homem generoso, como os outros homens virtuosos, dará em vista do nobre, e do modo certo, pois dará às pessoas certas, nas quantidades certas, no momento certo, com todas as demais condições que acompanham o ato de dar corretamente. E fará isso com prazer ou sem dor, pois o que é virtuoso é agradável ou pelo menos isento de dor, e jamais será penoso.
Mas quem dá às pessoas erradas, ou não em vista do nobre e sim por algum outro motivo, não será chamado de generoso, e sim por algum outro nome. Também não é generoso quem dá com dor, pois preferiria ficar com a riqueza a praticar o ato nobre, e isso não é próprio de um homem generoso.
Tampouco o homem generoso receberá de fontes erradas, pois esse tipo de ganho não é próprio de quem não dá importância à riqueza. Ele também não será do tipo que pede com facilidade, pois não é próprio de quem concede favores aceitá-los com leveza.
Mas ele receberá das fontes certas, por exemplo dos seus próprios bens, não como algo nobre, e sim por necessidade, para ter o que dar. Não descuidará da sua propriedade, já que quer usá-la para ajudar os outros. E evitará dar a qualquer um indistintamente, para ter o que dar às pessoas certas, no momento certo, e onde for nobre fazê-lo.
É bem típico do homem generoso até exagerar no dar, a ponto de sobrar pouco demais para si mesmo, pois é da natureza do homem generoso não cuidar de si em primeiro lugar.
O termo 'generosidade' se aplica em relação aos bens de cada pessoa, pois a generosidade não está na quantidade dos presentes, e sim no estado de caráter de quem dá, e isso é relativo aos bens dessa pessoa. Nada impede, portanto, que quem dá menos seja o mais generoso, se tem menos para dar.
São considerados mais generosos os que não fizeram a própria riqueza, e sim a herdaram, pois, em primeiro lugar, nunca passaram por privação, e, em segundo, todas as pessoas têm mais apego ao que produzem, como os pais e os poetas têm.
Não é fácil para o homem generoso ser rico, já que ele não tem facilidade nem para receber nem para guardar, e sim para dar, e não valoriza a riqueza por ela mesma, e sim como um meio para dar. Daí a acusação que se faz à sorte, de que quem mais merece riqueza é quem menos a recebe.
Mas não é estranho que aconteça assim, pois ele não pode ter riqueza, como não pode ter qualquer outra coisa, se não se esforça para tê-la. Ainda assim, ele não dará às pessoas erradas nem no momento errado, e assim por diante, pois deixaria de agir conforme a generosidade, e, se gastasse com esses objetos, não teria o que gastar com os objetos certos.
Pois, como já foi dito, generoso é quem gasta de acordo com os próprios bens e com os objetos certos, e quem excede é pródigo. Por isso não chamamos os tiranos de pródigos, pois se considera que não é fácil para eles dar e gastar além do que possuem.
A generosidade, então, sendo um meio-termo em relação a dar e receber riqueza, o homem generoso dará e gastará as quantidades certas e nos objetos certos, tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes, e isso com prazer. Ele também receberá as quantidades certas e das fontes certas.
Pois, sendo essa virtude um meio-termo quanto a ambas as coisas, ele fará as duas como deve, já que esse tipo de receber acompanha o dar correto, e o que não é desse tipo lhe é contrário. Assim, o dar e o receber que combinam entre si estão presentes juntos na mesma pessoa, enquanto os tipos contrários, claramente, não estão.
Mas se acontecer de ele gastar de um modo contrário ao que é certo e nobre, sentirá dor, embora de forma moderada e como deve, pois é próprio da virtude tanto se alegrar quanto se entristecer com os objetos certos e do modo certo.
Além disso, o homem generoso é fácil de lidar em questões de dinheiro, pois pode ser levado vantagem, já que não dá valor ao dinheiro, e se incomoda mais por não ter gastado algo que deveria do que sofre por ter gastado algo que não deveria, e não concorda com o ditado de Simônides.
O pródigo erra também nesses aspectos, pois não se alegra nem se entristece com as coisas certas ou do modo certo. Isso ficará mais claro à medida que avançarmos. Já dissemos que a prodigalidade e a avareza são excessos e faltas, e em duas coisas: no dar e no receber, pois incluímos o gastar dentro do dar.
A prodigalidade excede no dar e falta no receber, enquanto a avareza fica aquém no dar e excede no receber, exceto nas coisas pequenas.
As características da prodigalidade nem sempre aparecem juntas, pois não é fácil dar a todos sem receber de ninguém. Os particulares logo esgotam seus bens dando, e é a eles que se aplica o nome de pródigos. Ainda assim, um homem desse tipo parece ser bem melhor que o avarento.
Pois ele se cura com facilidade, tanto pela idade quanto pela pobreza, e assim pode caminhar para o estado intermediário. Ele tem as características do homem generoso, já que dá e se abstém de receber, embora não faça nenhuma das duas coisas do modo certo ou bem.
Por isso, se fosse levado a agir bem pelo hábito ou de outra forma, seria generoso, pois passaria a dar às pessoas certas e a não receber das fontes erradas. Por essa razão se considera que ele não tem um mau caráter, pois exagerar no dar e não receber não é a marca de um homem perverso ou vil, e sim apenas de um tolo.
O homem que é pródigo desse modo é considerado bem melhor que o avarento, tanto pelas razões já ditas quanto porque beneficia muita gente, enquanto o outro não beneficia ninguém, nem a si mesmo.
Mas a maioria dos pródigos, como já foi dito, também recebe de fontes erradas, e nesse aspecto são avarentos. Eles ficam propensos a receber porque querem gastar e não conseguem fazer isso com facilidade, pois seus bens logo se esgotam. Assim, são forçados a obter recursos de alguma outra fonte.
Ao mesmo tempo, como não se importam com a honra, recebem sem cuidado e de qualquer fonte, pois têm sede de dar e não se incomodam com como nem de onde vem. Por isso o que dão também não é generoso, pois não é nobre, não visa o que é nobre nem é feito do modo certo. Às vezes enriquecem quem deveria ser pobre, não dão nada às pessoas de caráter respeitável e dão muito a aduladores ou a quem lhes oferece algum outro prazer.
Por isso a maioria deles também é entregue aos próprios prazeres, pois gastam com leveza e desperdiçam dinheiro com seus deleites, e tendem aos prazeres porque não vivem com vistas ao que é nobre.
O homem pródigo, então, torna-se aquilo que descrevemos se é deixado sem orientação, mas, se for tratado com cuidado, chegará ao estado intermediário e correto.
A avareza, por outro lado, é tanto incurável (pois se considera que a velhice e toda incapacidade tornam as pessoas avarentas) quanto mais enraizada nas pessoas do que a prodigalidade, pois a maioria gosta mais de ganhar dinheiro do que de dar. Ela também se espalha amplamente e tem muitas formas, já que parece haver muitos tipos de avareza.
Pois ela consiste em duas coisas, falta no dar e excesso no receber, e não se encontra completa em todos, mas às vezes vem dividida: alguns excedem no receber, outros ficam aquém no dar.
Os que recebem nomes como 'mesquinho', 'fechado', 'pão-duro' todos ficam aquém no dar, mas não cobiçam os bens dos outros nem desejam tomá-los.
Em alguns isso se deve a uma espécie de honestidade e ao desejo de evitar o que é vergonhoso, pois alguns parecem, ou pelo menos dizem, guardar o dinheiro por esse motivo: para não serem um dia forçados a fazer algo vergonhoso. A esse grupo pertence o sovina e todos do tipo, assim chamado pelo excesso de relutância em dar qualquer coisa. Outros, por sua vez, mantêm as mãos longe da propriedade alheia por medo, pensando que não é fácil, se você toma os bens dos outros, evitar que tomem os seus. Por isso se contentam em nem receber nem dar.
Outros ainda excedem no receber, aceitando qualquer coisa e de qualquer fonte, por exemplo os que praticam ofícios sórdidos, cafetões e gente desse tipo, e os que emprestam pequenas quantias a juros altos. Todos esses recebem mais do que deveriam e de fontes erradas. O que têm em comum é claramente um amor sórdido pelo ganho, pois todos aceitam ter uma má reputação em troca de lucro, e de pouco lucro ainda por cima.
Pois quanto aos que obtêm grandes ganhos, mas de fontes erradas e não os ganhos certos, por exemplo os tiranos quando saqueiam cidades e espoliam templos, a esses não chamamos de avarentos, e sim de perversos, ímpios e injustos. Já o jogador, o batedor de carteira e o salteador de estrada pertencem à classe dos avarentos, pois têm um amor sórdido pelo ganho.
Pois é por ganho que ambos exercem seu ofício e suportam a vergonha dele, e um enfrenta os maiores perigos pelo butim, enquanto o outro tira ganho dos próprios amigos, a quem deveria estar dando. Ambos, então, por estarem dispostos a ganhar de fontes erradas, são amantes sórdidos do ganho. Logo, todas essas formas de receber são avarentas.
E é natural que a avareza seja descrita como o contrário da generosidade, pois ela não é só um mal maior que a prodigalidade, como também as pessoas erram mais nessa direção do que no caminho da prodigalidade como o descrevemos.
É o bastante, então, sobre a generosidade e os vícios que se lhe opõem.