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Ética a Nicômaco - Livro II

A virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta

Sobre a obra

A Ética a Nicômaco é o principal tratado de ética de Aristóteles (c. 384 a 322 a.C.), filósofo grego discípulo de Platão. A obra tem dez livros e investiga em que consiste a vida boa e como o ser humano alcança a felicidade pela virtude. Este é o Livro II.

O que este livro discute

O Livro II trata da origem da virtude moral. Aristóteles distingue a virtude intelectual, que nasce e cresce sobretudo pelo ensino, da virtude moral, que resulta do hábito (em grego hexis). Nenhuma virtude moral surge em nós por natureza, nem pelo simples conhecimento teórico: nós nos tornamos justos praticando atos justos, e corajosos praticando atos corajosos. A virtude é uma disposição estável, formada pela repetição.

O centro do livro é a doutrina do meio-termo. Cada virtude moral é o ponto equilibrado entre dois vícios: o do excesso e o da falta. A coragem fica entre a covardia (falta) e a temeridade (excesso); a generosidade, entre a avareza (falta) e o esbanjamento (excesso). O meio-termo não é um cálculo aritmético igual para todos, mas é relativo a cada pessoa e à situação, definido pela razão tal como a determinaria o homem prudente (phronimos).

Aristóteles também marca os limites da doutrina. Nem toda ação ou paixão admite meio-termo: certos atos, como o assassinato ou o adultério, já são maus em si mesmos e não têm uma medida correta. Para a vida prática, ele recomenda afastar-se do extremo mais perigoso, desconfiar do que nos atrai por prazer e corrigir a tendência para um dos lados.

Relevância para a fé cristã

Tomás de Aquino assume diretamente o conceito de hábito (habitus) e a definição da virtude como disposição estável. Ele organiza a moral cristã em torno das quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), que Ambrósio e Agostinho já haviam herdado da tradição greco-romana e que Aquino sistematiza sobre base aristotélica (Suma Teológica, I-II, q. 49 a 67). O meio-termo aristotélico foi amplamente adotado como critério da virtude moral.

Cabe uma ressalva honesta. As três virtudes teologais do cristianismo (fé, esperança e caridade) não são meio-termo nem se adquirem pelo hábito: são infusas pela graça, e nelas o "mais" é sempre melhor, pois não há excesso de amor a Deus. Esse horizonte sobrenatural está ausente em Aristóteles, cuja análise se mantém no plano da razão e da virtude humana.

Para a tese central, de que a virtude se forma pelo hábito, ver:

(Ética a Nicômaco - Livro II 1:1)