A Origem das Espécies

Charles Darwin

Charles Darwin nasceu em Shrewsbury, na Inglaterra, em 1809, e morreu em 1882. Entre 1831 e 1836 viajou como naturalista a bordo do HMS Beagle, numa volta ao mundo que o levou à América do Sul e às ilhas Galápagos. O que observou ali, a distribuição dos seres vivos e a relação entre fósseis e espécies atuais, ficou na origem da ideia que ele passaria as duas décadas seguintes desenvolvendo. A obra que ele chamou de "esse mistério dos mistérios" abre justamente com a memória dessa viagem.

O Que a Obra Propõe

Darwin publicou A Origem das Espécies em 24 de novembro de 1859. A primeira tiragem, de 1.250 exemplares, esgotou no primeiro dia. A tese central tem duas partes. A primeira é a descendência com modificação: as espécies não foram criadas separadamente, mas descendem de antepassados comuns, ramificando-se ao longo do tempo como os galhos de uma árvore. A segunda é o mecanismo que explica essa mudança, a seleção natural: como nascem mais indivíduos do que podem sobreviver, aqueles com variações úteis tendem a deixar mais descendentes, e essas variações se acumulam por gerações.

Darwin não estava sozinho. Em 1858, o naturalista Alfred Russel Wallace, então no Arquipélago Malaio, enviou a Darwin um ensaio com a mesma ideia de seleção natural. Charles Lyell e Joseph Hooker arranjaram uma apresentação conjunta dos dois trabalhos na Sociedade Lineana de Londres, em 1º de julho de 1858, o que apressou Darwin a publicar seu resumo no ano seguinte. A obra teve seis edições em vida do autor, de 1859 a 1872. A famosa expressão "sobrevivência do mais apto", sugerida por Herbert Spencer, só entrou na quinta edição, em 1869.

O Arco da Obra

O livro vai do mecanismo às evidências, depois às objeções, e enfim à conclusão. Darwin parte do que o homem já faz com animais e plantas para introduzir o que a natureza faz sozinha, depois enfrenta de frente as dificuldades da própria teoria, e por fim mostra como ela explica fatos da geologia, da geografia e da anatomia. Esta saga reúne a obra inteira, volume a volume.

Recepção Histórica

O impacto foi imediato e dividiu o público. Em junho de 1860, numa reunião em Oxford, o biólogo Thomas Huxley, que ficaria conhecido como o "buldogue de Darwin", trocou farpas com o bispo anglicano Samuel Wilberforce. O relato exato do encontro é disputado, e parte da versão célebre foi ampliada depois, mas o episódio virou símbolo do choque entre a nova teoria e a teologia da época. Boa parte da resistência mirava a teologia natural então dominante, que via na adaptação dos seres vivos uma prova direta de um projeto divino. Ao explicar a adaptação por um processo natural, Darwin parecia retirar do design seu argumento mais forte.

Do lado científico, a obra se firmou. Nos anos 1930 e 1940, a chamada síntese moderna uniu a seleção natural de Darwin à genética, e desde então a descendência comum e a seleção natural são consenso na biologia. O que segue em debate entre os cientistas são mecanismos, como o peso relativo da seleção e do acaso, não a validade da evolução em si. A origem da própria vida é um campo distinto e ainda em aberto, e não se confunde com a evolução das espécies já existentes.

O Debate com a Fé

A Origem das Espéciesnão cita nem discute a Bíblia: é uma obra de ciência natural, não de polêmica religiosa. Por isso este índice não traça refs cruzadas com a Escritura. Mesmo assim, a obra tensiona temas caros à teologia, e ignorar isso seria desonesto. Ela põe em causa a leitura da criação especial de cada espécie, retira força do argumento do design tal como se usava no século XIX, e levanta de novo a velha questão da teodiceia, já que descreve a vida surgindo "da guerra da natureza, da fome e da morte". O quadro de um tempo profundo, com a vida desenvolvendo-se ao longo de eras imensas, também atrita com a leitura de uma criação recente e fixa.

As respostas cristãs formam um espectro, e vale conhecê-lo sem caricatura. Numa ponta está a rejeição: o criacionismo da Terra jovem lê Gênesis em seis dias literais e nega a descendência comum, enquanto correntes da Terra velha aceitam a idade científica do planeta mas divergem sobre a evolução. No meio está a evolução teísta, que entende a evolução como o modo pelo qual Deus cria. Já em 1860 o botânico cristão Asa Gray, de Harvard, principal defensor de Darwin nos Estados Unidos, sustentava que a seleção natural era compatível com a fé, ainda que discordasse de Darwin ao querer ver a variação guiada por um propósito. Hoje a mesma linha é defendida por Francis Collins, geneticista que liderou o Projeto Genoma Humano, na fundação BioLogos, que ele criou em 2007.

A Igreja Católica chegou a uma posição própria. A encíclica Humani Generis, de Pio XII, em 1950, permitiu o estudo da origem do corpo humano a partir de matéria viva preexistente, mas reservou a criação da alma a um ato direto de Deus. Em 1996, numa mensagem à Pontifícia Academia das Ciências, João Paulo II afirmou que a evolução é "mais que uma hipótese", mantendo a mesma ressalva sobre a alma. Numa terceira via está o design inteligente, que tenta apontar limites naturais à seleção, com a ideia de complexidade irredutível de Michael Behe; uma decisão judicial nos Estados Unidos, no caso Kitzmiller contra Dover, em 2005, concluiu que o design inteligente não é ciência no sentido em que a biologia o entende.

Este índice não toma partido. Não é criacionista nem materialista. Registra o que se firmou na ciência, a descendência comum e a seleção natural, separa isso do que segue em aberto, e reconhece que as perguntas mais difíceis que a obra deixa, sobre origem, consciência e sentido, são filosóficas e teológicas, não respondidas nem encerradas pelo próprio livro. A apologética e o contraponto detalhado ficam para a página temática dedicada; aqui o objetivo é situar a obra com sobriedade.

A própria conclusão de Darwin guarda uma ambiguidade que alimenta esse debate até hoje. Ao fechar o livro, ele invoca um Criador e descreve a vida como dotada de grandeza, deixando em aberto se a evolução afasta ou apenas reformula a ideia de um autor por trás do mundo.

“Há grandeza nesta visão da vida, com seus vários poderes, tendo sido originalmente insuflados pelo Criador em algumas poucas formas, ou numa só; e que, enquanto este planeta seguiu girando segundo a lei fixa da gravidade, a partir de um começo tão simples, formas infindáveis, belíssimas e maravilhosíssimas, foram e estão sendo desenvolvidas.”

Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 4:56

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