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A Origem das Espécies - Capítulo III: A Luta pela Existência

A Luta pela Existência

O Capítulo na Obra

O Capítulo III é o motor de A Origem das Espécies. Os capítulos anteriores mostraram que os seres vivos variam. Este explica por que algumas variações se preservam e outras desaparecem. A resposta de Darwin é a luta pela existência. Como nascem muito mais indivíduos do que o ambiente pode sustentar, a maioria morre antes de se reproduzir, e qualquer pequena vantagem aumenta a chance de sobreviver e deixar descendentes. Sem este capítulo, a seleção natural do capítulo seguinte não tem força. Com ele, a variação deixa de ser um fato curioso e vira o material sobre o qual a morte trabalha.

O Argumento Central

Darwin parte de um cálculo simples. Todo ser vivo tende a aumentar em razão geométrica. Ele mostra que até o elefante, o mais lento dos reprodutores, encheria a terra em poucos séculos se nada o detivesse. Como isso não acontece, alguma destruição precisa frear cada espécie em algum ponto da vida. Daí a luta, que ele usa num sentido amplo: competição direta, dependência de outro ser, resistência ao clima, êxito em deixar prole. O capítulo descreve a natureza como uma rede de freios entrelaçados, onde gatos definem o número de ratos, ratos o de abelhas, e abelhas o de certas flores. A face serena dos campos esconde, para Darwin, uma destruição constante que quase nunca vemos.

Conteúdo do Capítulo

A Influência de Malthus

O capítulo deve sua forma a Thomas Malthus. Em 1798, o clérigo e economista inglês publicou o Ensaio sobre o Princípio da População, argumentando que a população humana cresce mais depressa que o alimento, o que condena a humanidade à escassez, à miséria e à competição. Darwin leu esse ensaio em setembro de 1838 e, segundo seu próprio relato, foi ali que percebeu o mecanismo que lhe faltava. Aplicou a lógica de Malthus, com o que chamou de força multiplicada, a todo o reino animal e vegetal, onde não há freio prudente ao casamento nem aumento artificial de alimento. O leitor encontra a referência explícita no texto, quando Darwin nomeia a doutrina de Malthus como a chave da luta universal pela vida. Vale notar que a célebre expressão sobrevivência do mais apto não é deste texto: ela foi cunhada por Herbert Spencer em 1864, e Darwin só a incorporou a partir da 5ª edição da obra, em 1869, como sinônimo de seleção natural.

O Desconforto Teológico

É aqui que a obra mais tensiona a fé de sua época. A teologia natural dominante, popularizada por William Paley, lia cada adaptação como prova direta de um Criador sábio e bondoso: o olho projetado para ver, a asa para voar. O Capítulo III não nega o desígnio de forma explícita, mas oferece outra explicação para as mesmas adaptações. Elas seriam o saldo de uma longa destruição, não o traço de uma mão que projeta. E agudiza um problema antigo, o do sofrimento e do desperdício na natureza. Se a vida avança por superprodução e morte em massa, fica mais difícil ler a natureza como reflexo simples de uma bondade divina. Esse desconforto é parte do que torna o capítulo tão discutido até hoje.

O próprio Darwin sentiu o peso disso. Em carta ao botânico cristão Asa Gray, em 22 de maio de 1860, escreveu que não conseguia se convencer de que um Deus bom e onipotente teria criado de propósito os ichneumonídeos, vespas cujas larvas se alimentam por dentro de lagartas vivas, ou que um gato brincasse com um rato. Na mesma carta confessou estar perplexo: via miséria demais no mundo para enxergar o desígnio com a clareza que gostaria, mas também não concluía que tudo fosse mero acaso ou força bruta. Asa Gray, defensor da evolução e cristão, sustentava que a seleção natural podia ser o método de um Deus que cria por leis. A correspondência entre os dois deixou registrada, na própria origem da teoria, a tensão que este capítulo levanta.

Quando refletimos sobre essa luta, podemos nos consolar com a plena convicção de que a guerra da natureza não é incessante, que nenhum medo é sentido, que a morte geralmente é rápida, e que os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobrevivem e se multiplicam.

Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo III: A Luta pela Existência 3:27

O Espectro de Respostas Cristãs

Diante do capítulo, os cristãos nunca falaram a uma só voz, e ainda não falam. Uma parte rejeita a descendência com modificação, sustentando a criação especial das espécies e lendo o sofrimento como consequência da queda, não do projeto original. Outra parte segue a linha de Asa Gray e da evolução teísta: aceita o mecanismo descrito por Darwin e o entende como o modo ordinário pelo qual Deus governa a criação, tratando a teodiceia, o problema do mal, como questão que já existia antes de Darwin e que a ciência apenas torna mais concreta. Entre esses polos há posições intermediárias. Sobre os fatos, convém separar o que se firmou do que segue em aberto. A ancestralidade comum e a seleção natural como força real são hoje consenso na biologia. Já as questões sobre o sentido último da vida, sobre haver ou não propósito por trás das leis naturais, e sobre como conciliar o sofrimento animal com a bondade divina, não são decididas por este capítulo. São debate filosófico e teológico, e este índice não os resolve pelo leitor.