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A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria
Dificuldades da Teoria
O Capítulo VI na Obra
O Capítulo VI de A Origem das Espécies, publicado por Charles Darwin em 1859, é onde o próprio autor levanta as objeções à sua teoria. Em vez de esconder os pontos fracos, Darwin os reúne e os enfrenta um a um. Ele agrupa as dificuldades em quatro: a ausência de inúmeras formas de transição entre as espécies; a formação de órgãos de extrema perfeição, como o olho; a origem dos instintos; e a esterilidade dos híbridos. Este capítulo trata das duas primeiras. O instinto e o hibridismo ficam para os capítulos seguintes.
O tom é de honestidade incomum para um livro que defende uma tese. Darwin escreve que algumas das dificuldades são tão sérias que ele mal consegue refletir sobre elas sem ficar abalado. Por isso este é o capítulo mais citado nos dois lados do debate sobre evolução e fé: críticos da teoria buscam aqui as admissões do autor, e defensores buscam as respostas que ele dá logo em seguida. Ler o capítulo inteiro, e não apenas as frases isoladas, é o que separa as duas leituras.
Conteúdo do Capítulo
- As quatro objeções centrais e a ausência de formas de transição: por que a natureza não está em confusão, se as espécies descendem umas das outras por gradações sutis — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 1)
- Hábitos e estruturas de transição: morcegos, esquilos voadores, pica-paus que vivem no chão e aves que mudaram de hábito sem mudar de estrutura — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 2)
- Órgãos de extrema perfeição e complexidade: o olho, a objeção mais séria, e a resposta de Darwin pela gradação de olhos na natureza — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 3)
- Modos de transição e dificuldades especiais: bexiga natatória que vira pulmão, órgãos elétricos e os olhos das lulas e dos vertebrados — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 4)
- O mesmo fim por meios diversos, e os órgãos de pouca importância aparente: a cauda da girafa como espanta-moscas — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 5)
- A doutrina utilitarista e a questão da beleza: para Darwin a beleza serve à fecundação e à seleção sexual, não ao deleite do homem ou do Criador — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 6)
- Resumo do capítulo: a Unidade de Tipo e as Condições de Existência absorvidas pela teoria da seleção natural — (A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 7)
O Olho e o Argumento do Design
O coração do capítulo é o problema dos órgãos de extrema perfeição. O exemplo clássico é o olho. Em 1802, o teólogo William Paley havia popularizado o argumento do relojoeiro: assim como um relógio encontrado no campo implica um relojoeiro, o olho, com seu foco ajustável e sua correção da aberração, implicaria um projetista. O olho era a peça central da teologia natural do tempo de Darwin, a prova favorita do design divino na natureza.
Darwin não foge do problema. Ele abre a seção admitindo que supor o olho formado pela seleção natural parece absurdo no mais alto grau. Mas a frase é o começo de um argumento, não a sua conclusão. Em seguida ele propõe a resposta: se existem na natureza inúmeras gradações, desde um olho simples e imperfeito até um olho complexo, cada grau útil ao seu possuidor, então a formação gradual do olho deixa de ser impossível. E ele documenta essa escala, da mancha de pigmento sensível à luz nas estrelas-do-mar até os olhos compostos dos insetos e o cristalino dos vertebrados.
Supor que o olho, com todos os seus inimitáveis mecanismos para ajustar o foco a diferentes distâncias, para admitir diferentes quantidades de luz e para corrigir a aberração esférica e cromática, possa ter sido formado pela seleção natural parece, confesso abertamente, absurdo no mais alto grau.Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 3:30
Sobre esse ponto a evidência se firmou em parte. A biologia documentou olhos de muitos graus de complexidade em organismos vivos, da mancha fotossensível ao olho-câmara, o que confirma a premissa de Darwin de que existe uma escala de gradação. O debate que segue em aberto é outro, e é mais filosófico e teológico do que biológico. No fim do século XX, o bioquímico Michael Behe reformulou a objeção como "complexidade irredutível": sistemas em que a remoção de qualquer parte faz o todo parar de funcionar não poderiam, segundo ele, surgir por passos graduais. A maioria da comunidade científica rejeitou o argumento, sustentando que partes podem mudar de função ao longo do caminho, exatamente o mecanismo que Darwin descreve neste capítulo quando mostra a bexiga natatória virando pulmão. Onde o debate de fato continua é na pergunta que a ciência não decide: se um processo natural exclui ou não um propósito por trás dele.
A Obra e a Fé
A Origem das Espécies não cita a Bíblia nem ataca a religião. O atrito com a fé é indireto, e este capítulo o torna visível. A teoria de Darwin tensionava a teologia natural da época, que via no ajuste perfeito dos órgãos uma prova direta do desígnio de Deus. Se o olho podia surgir por seleção natural, aquele argumento específico perdia a força. Vale notar que, segundo os historiadores, a objeção religiosa central não nasceu de uma leitura literal de Gênesis, mas da aparente aleatoriedade da seleção natural, que parecia remover o propósito da natureza.
As respostas cristãs cobrem um espectro amplo, e é honesto apresentá-lo sem decidir pelo leitor. Numa ponta está a rejeição: tradições que leem Gênesis como relato literal e recusam a descendência comum. No meio está a evolução teísta, defendida já em 1860 pelo botânico de Harvard Asa Gray, cristão e principal divulgador de Darwin nos Estados Unidos. Gray argumentava que a evolução podia ser o método pelo qual Deus criou, lendo a variação como operando segundo "leis projetadas". Darwin nunca afirmou esse desígnio, mas em carta a Gray admitiu a possibilidade de leis projetadas, sem se comprometer com ela. Hoje, a evolução teísta é a posição de muitas instituições e teólogos cristãos, ao lado de tradições que seguem recusando a teoria.
Entre essas pontas há posições intermediárias. A Igreja Católica, na encíclica Humani Generis (1950), não proibiu a pesquisa sobre a evolução do corpo humano a partir de matéria preexistente, exigindo apenas que a alma seja criada por Deus; em 1996, João Paulo II reconheceu a evolução como "mais que uma hipótese". Já o movimento do design inteligente, do qual Behe faz parte, recusa que o mecanismo natural baste e sustenta que a complexidade aponta para um projetista. Cada uma dessas respostas tem defensores cristãos ativos, e o objetivo aqui é mapear o espectro, não eleger um vencedor.
Aqui o relato precisa parar onde a evidência para. A ciência confirma que existe gradação de olhos e que órgãos mudam de função, e não confirma nem refuta a existência de um propósito por trás do processo, pois essa não é uma pergunta que o método experimental responda. O Capítulo VI vale a leitura justamente por isso: é o texto onde o autor mais expõe os limites da própria teoria, e onde o leitor cristão pode ver, em primeira mão, o que de fato está em jogo no debate, e o que é apenas frase tirada do contexto.