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A Origem das Espécies - Capítulo II: Variação sob a Natureza
Variação sob a Natureza
O Capítulo na Obra
No Capítulo I, Darwin tratou da variação sob domesticação, mostrando como o criador acumula pequenas diferenças para moldar raças de pombos, cães e plantas. O Capítulo II transporta esse raciocínio para a natureza. A pergunta é direta: os seres em estado selvagem também variam? Se variam, e se essas variações se herdam, então a seleção natural tem matéria-prima sobre a qual atuar, do mesmo modo que o criador atua sobre suas raças. O capítulo é a ponte entre a analogia doméstica e o mecanismo central da obra.
Darwin começa admitindo um problema que ainda hoje os biólogos debatem: ninguém definiu espécie de modo que satisfaça todos os naturalistas. Ele observa que o termo costuma carregar "o elemento desconhecido de um ato distinto de criação", e é justamente esse pressuposto que o capítulo desmonta. Em vez de tratar a espécie como um tipo fixo, Darwin a apresenta como o ponto mais distinto de uma escala contínua que vai das diferenças individuais às variedades, das variedades às subespécies e destas às espécies.
Conteúdo do Livro
- O problema de definir espécie, as diferenças individuais e os gêneros polimórficos — (A Origem das Espécies - Capítulo II: Variação sob a Natureza 1)
- As espécies duvidosas: por que naturalistas competentes discordam sobre os limites — (A Origem das Espécies - Capítulo II: Variação sob a Natureza 2)
- As tabelas de variedades: espécies comuns e dominantes variam mais — (A Origem das Espécies - Capítulo II: Variação sob a Natureza 3)
- Conclusão: a espécie como variedade fortemente marcada, sem linha de demarcação fixa — (A Origem das Espécies - Capítulo II: Variação sob a Natureza 4)
Variedades como Espécies Incipientes
A tese do capítulo é que a espécie e a variedade não diferem em natureza, apenas em grau. Darwin reúne dados de botânicos como H. C. Watson, A. de Candolle e Asa Gray para mostrar que, quanto melhor se conhece um grupo, mais formas duvidosas aparecem e mais difícil fica decidir o que é espécie e o que é variedade. Os carvalhos servem de exemplo: De Candolle, depois de estudo exaustivo, conclui que pelo menos dois terços das espécies de carvalho do seu catálogo são provisórias. Daí Darwin extrai a fórmula que dá nome ao capítulo: uma variedade bem marcada pode ser chamada de espécie incipiente. A variedade de hoje é a espécie em formação.
Uma variedade bem marcada pode, portanto, ser chamada de espécie incipiente.Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo II: Variação sob a Natureza 2:16
O Que o Capítulo Propõe e o Que Tensiona
A força do argumento está em dados, não em retórica. Darwin tabula variedades de doze países, conta espécies marcadas por botânicos diferentes para a mesma flora, e mostra que os gêneros maiores produzem mais variedades, como se esperaria se as variedades fossem espécies em formação. O ponto que tensiona a leitura tradicional de Gênesis é a continuidade. A narrativa do Gênesis descreve criaturas produzidas "segundo a sua espécie", e boa parte da história natural antes de Darwin lia isso como criação de tipos fixos e separados. O capítulo borra exatamente essa fronteira: se espécie e variedade se fundem por uma série insensível, a fixidez deixa de ser um dado observável e passa a ser uma suposição. Vale registrar que o próprio texto hebraico não define o termo traduzido por "espécie" nos termos da biologia moderna, e leitores cristãos divergem sobre quanto peso a passagem carrega nessa discussão.
O Debate Ciência e Fé
As respostas cristãs ao argumento deste capítulo cobrem um espectro amplo, e convém apresentá-las sem escolher por antecipação. Numa ponta estão os que rejeitam a transformação de espécies, sustentando o criacionismo de tipos fixos ou de transformação limitada dentro de fronteiras criadas. Numa posição intermediária está a evolução teísta, defendida já no século XIX por Asa Gray, o botânico de Harvard e cristão ortodoxo que ajudou a divulgar a obra de Darwin nos Estados Unidos. Gray propunha que a variação sobre a qual a seleção atua poderia ter sido conduzida por Deus segundo leis projetadas, de modo que a descendência comum não dispensaria um Criador. Darwin, em correspondência, recusou essa hipótese e preferiu não atribuir direção à variação.
O estado atual da discussão segue dividido. Igrejas e teólogos que aceitam a descendência comum costumam ler o Gênesis como afirmação teológica sobre quem cria e por quê, não como manual de biologia das espécies. Outros mantêm a leitura de criação de tipos distintos e contestam a extensão das conclusões de Darwin. O capítulo, por si, não resolve a questão teológica: ele estabelece um fato empírico estreito, a variação contínua na natureza, e deixa em aberto se essa variação foi posta em marcha por um Criador, por leis sem direção, ou por ambos. É esse o ponto exato em que ciência e fé se encontram nesta página.