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A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão
Recapitulação e Conclusão
O Capítulo na Obra
O Capítulo XV é o fecho de A Origem das Espécies. Darwin chama o livro inteiro de "um único e longo argumento" e usa estas páginas para fazer duas coisas. Primeiro, ele junta de novo as objeções mais duras contra a teoria, instintos complexos, a esterilidade dos híbridos, a distribuição geográfica das espécies e, sobretudo, as lacunas do registro fóssil, e responde a cada uma. Depois, recapitula o mecanismo: variação, hereditariedade, luta pela existência e seleção natural. A última seção é a conclusão propriamente dita, onde Darwin sai do tom técnico e fala do alcance da sua ideia.
Para o leitor cristão, este é o capítulo mais importante da obra. Não porque traga um dado novo, mas porque é aqui que o próprio Darwin se posiciona diante de Deus. Ele não escreve como ateu militante. Ele escreve como alguém ainda tentando situar a descendência comum dentro de uma visão religiosa do mundo, e a tensão dessa tentativa aparece na frente do leitor.
Conteúdo do Capítulo
- Recapitulação das objeções: instintos complexos, esterilidade dos híbridos, distribuição geográfica e as lacunas do registro fóssil — (A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 1)
- Recapitulação das respostas: a seleção natural sob domesticação e na natureza, a luta pela existência e a divergência de caráter — (A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 2)
- Como a teoria muda a classificação, a morfologia e a embriologia, e por que as religiões não precisam se chocar com ela — (A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 3)
- A conclusão: descendência comum, a origem do homem entrevista, e a frase final sobre a grandeza desta visão da vida — (A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 4)
A Frase Final e o Criador
A última frase do livro é uma das mais citadas da ciência. Darwin descreve a vida como tendo sido "originalmente insuflada" em poucas formas, ou numa só, e fala em "grandeza nesta visão da vida". O detalhe que pesa para a discussão entre ciência e fé é a expressão "pelo Criador". Na primeira edição de 1859 ela não estava lá: o texto dizia apenas que a vida foi "insuflada em poucas formas", sem nomear quem soprou. Darwin acrescentou "pelo Criador" a partir da segunda edição, de 1860, em resposta à reação dos críticos religiosos. A frase aparece assim da segunda à sexta edição.
Darwin depois se arrependeu da escolha. Numa carta a Joseph Hooker, em 1863, escreveu que tinha "cedido à opinião pública" ao usar o termo bíblico de criação, "pelo qual eu na verdade queria dizer aparecimento por algum processo totalmente desconhecido". Em outras palavras, o "Criador" do texto não era, para o próprio autor, uma confissão de fé, mas uma concordância com a linguagem corrente. A versão deste site traz a frase com "pelo Criador", que é a forma das edições posteriores. Quem ler precisa saber que a palavra entrou depois e que Darwin lamentou tê-la posto.
Há grandeza nesta visão da vida, com seus vários poderes, tendo sido originalmente insuflados pelo Criador em algumas poucas formas, ou numa só.Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 4:56
O Espectro das Leituras Cristãs
A obra desafiou a fé, e a resposta cristã nunca foi única. Vale conhecer o espectro, porque ele continua aberto hoje. Numa ponta está a rejeição: leituras que sustentam a criação especial e direta de cada espécie, posição que o próprio Darwin nomeia no capítulo como a de "autores da mais alta eminência", e que ele contesta. No meio está a evolução teísta. Asa Gray, botânico de Harvard e cristão, foi o defensor mais conhecido de Darwin nos Estados Unidos e argumentou que a seleção natural podia ser o método pelo qual Deus criou. Darwin correspondeu-se com Gray sobre isso por anos, sem nunca aceitar de todo a ideia de um propósito guiando a variação.
O estado atual é diverso. Igrejas católica e ortodoxa, e boa parte das protestantes, convivem com a evolução biológica e a leem como descrição do processo, não como negação do Criador. Outros grupos cristãos seguem rejeitando a descendência comum por compromisso com uma leitura literal de Gênesis. O ponto factual é que o capítulo não força nenhuma dessas saídas. A frase final é compatível com um Deus que cria por causas secundárias e também com a leitura de que a menção ao Criador é só uma concessão de linguagem. Darwin deixou a porta aberta, e a ambiguidade é dele, não da interpretação posterior.
O Que o Capítulo Afirma e o Que Não Afirma
Convém separar o que está no texto do que costuma ser projetado sobre ele. O capítulo afirma a descendência comum e a seleção natural como mecanismo principal, e diz que as espécies surgem e se extinguem por causas naturais de ação lenta, não por "atos milagrosos de criação". Sobre a origem do homem, Darwin se limita a uma frase: que muita luz se lançará sobre ela. Ele não trata aqui de alma, de moral ou da existência de Deus. A obra desafia uma leitura específica de Gênesis, a da criação fixa e separada de cada espécie. Ela não demonstra, e Darwin não pretende demonstrar, que não há Criador. O leitor cristão encontra neste capítulo a tensão real entre a ciência de Darwin e a fé, mas também os limites do que essa ciência diz, e é honesto reconhecer os dois.