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A Origem das Espécies - Capítulo IX: Hibridismo

Hibridismo

O Capítulo na Obra

O Capítulo IX de A Origem das Espécies trata do hibridismo, isto é, do que acontece quando duas espécies se cruzam. Darwin precisava enfrentar uma objeção forte ao seu argumento. Os naturalistas da época observavam que espécies distintas em geral não geram descendência fértil entre si, e leram nisso uma barreira: cada espécie seria um tipo fixo, com uma esterilidade colocada de propósito para impedir que os tipos se misturassem. Se essa barreira fosse real e projetada, a ideia de que uma espécie se transforma noutra ficaria sem caminho.

A resposta de Darwin é metódica. Ele separa dois fatos que costumavam ser confundidos, a esterilidade do primeiro cruzamento e a esterilidade dos híbridos já nascidos, e mostra que ambos variam por graus. Reúne os experimentos de Kölreuter, Gärtner e do reverendo William Herbert para argumentar que não há uma linha nítida onde a fertilidade termina e a esterilidade começa. Em alguns cruzamentos a esterilidade é total, noutros é parcial, noutros a fertilidade é perfeita. A conclusão é que a esterilidade é um efeito colateral das diferenças acumuladas entre as formas, não uma trava instalada para mantê-las separadas.

Conteúdo do Capítulo

O Argumento Central

O ponto decisivo aparece logo na abertura. Darwin afirma que a esterilidade dos cruzamentos não pode ter sido construída pela seleção natural, porque a seleção só preserva o que dá vantagem ao próprio indivíduo, e ser estéril com outra espécie não traz vantagem alguma a quem é estéril. Logo, se a esterilidade não foi selecionada, ela tem de ser incidental, um subproduto de diferenças que se acumularam nos sistemas reprodutivos enquanto as formas se separavam. O capítulo também observa que a domesticação prolongada tende a remover a esterilidade, o que para Darwin reforça que ela não é uma marca fixa e indelével das espécies.

A esterilidade das espécies quando cruzadas pela primeira vez, e a de sua descendência híbrida, não pode ter sido adquirida pela preservação de graus sucessivos e vantajosos de esterilidade. Ela é um resultado incidental de diferenças nos sistemas reprodutivos das espécies parentais.

Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo IX: Hibridismo 1:1

O Debate com a Fé

Aqui está o atrito com a teologia da época. A teologia natural do século XIX, herdeira de William Paley, lia a natureza como prova de um Criador que projetou cada peça. A barreira entre as espécies era uma dessas peças: a esterilidade dos híbridos seria a assinatura de tipos criados distintos, fixos desde o início. Darwin desmonta essa leitura. Ele não nega que a barreira exista. Ele nega que ela seja nítida e projetada. Ao mostrar que a esterilidade é gradual, variável e incidental, ele retira dela o papel de evidência de criação especial. O que antes parecia o selo de um desígnio passa a ser, no argumento dele, o efeito natural do tempo e da separação.

As respostas cristãs a esse desafio nunca foram únicas, e convém apresentá-las como um espectro. Numa ponta, a rejeição: parte das igrejas tratou a descendência com modificação como incompatível com a criação narrada em Gênesis, e essa recusa persiste em correntes criacionistas. No meio, a evolução teísta. O botânico Asa Gray, de Harvard e cristão ortodoxo, defendeu já em 1860 que a seleção natural não era inconsistente com a teologia natural, e propôs que Deus tivesse agido por leis projetadas, e não apesar delas. Darwin discutiu desígnio com Gray por carta, sem aceitar essa conclusão para si. Hoje, várias tradições cristãs convivem com a evolução, enquanto outras a recusam. O índice apenas mapeia as posições, sem decidir entre elas.

O Estado Atual

A biologia posterior confirmou parte da intuição de Darwin e a precisou. A esterilidade dos híbridos é hoje tratada como isolamento reprodutivo, e o estudo dele atravessa toda a genética de populações. No século XX, Ernst Mayr formulou o conceito biológico de espécie, em que a espécie se define justamente pela capacidade de seus membros se cruzarem entre si e não com outras. Nessa visão, a barreira reprodutiva existe e tem peso, mas como produto da divergência acumulada, não como linha fixa traçada de antemão. As bases genéticas dessa incompatibilidade, hoje chamadas de incompatibilidades de Dobzhansky e Muller, dão a Darwin o mecanismo que ele não tinha. Permanece em aberto, e em debate científico legítimo, como definir espécie em organismos que se reproduzem sem cruzamento, e quão gradual ou abrupto o isolamento costuma ser. O que caiu foi a tese da barreira nítida e projetada como prova de tipos criados separados.