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A Origem das Espécies - Esboço Histórico
Esboço Histórico
O Esboço na Obra
O Esboço Histórico não fazia parte da primeira edição de A Origem das Espécies, de novembro de 1859. Darwin o acrescentou depois, em resposta à crítica de que havia ignorado quem tratou do tema antes dele. Uma versão curta saiu na edição americana de 1860. O texto foi ampliado nas edições seguintes e ganhou sua forma definitiva na terceira edição inglesa, de abril de 1861, com o título "Esboço Histórico do Progresso Recente da Opinião sobre a Origem das Espécies".
Darwin percorre cerca de trinta e quatro autores que, antes dele, já admitiam que as espécies mudam ou que ao menos descreem em atos separados de criação. A função do Esboço é dupla. De um lado, é um gesto de honestidade intelectual: Darwin reconhece que não inventou a ideia da transmutação. De outro, é uma defesa de prioridade, porque a questão não era a ideia em si, e sim o mecanismo. Ao distinguir os predecessores que apenas intuíram a seleção natural daqueles que a enunciaram, Darwin demarca o que ele e Wallace de fato propuseram.
Conteúdo
- Dos clássicos a Naudin: Aristóteles, Buffon, Lamarck, Erasmus Darwin, Geoffroy Saint-Hilaire, Wells, Herbert, Grant, Patrick Matthew, os Vestiges, Owen, Spencer e a controvérsia de prioridade — (A Origem das Espécies - Esboço Histórico 1)
- De Keyserling a 1860: Schaaffhausen, Baden Powell, o artigo conjunto com Wallace na Linnean Society, Von Baer, Huxley, Hooker e a primeira edição da obra — (A Origem das Espécies - Esboço Histórico 2)
Os Predecessores
A lista começa nos clássicos. Darwin abre com Buffon como o primeiro a tratar o assunto com espírito científico nos tempos modernos, e numa nota cita uma passagem de Aristóteles sobre os dentes que, segundo ele, esboça o princípio da seleção natural. Lamarck aparece como o primeiro cujas conclusões atraíram atenção ampla, com a doutrina de que todas as espécies descendem de outras e mudam por leis, não por milagre. Darwin também registra o próprio avô, Erasmus Darwin, que em 1794 antecipou parte das ideias de Lamarck, e nota que Goethe na Alemanha, Erasmus na Inglaterra e Geoffroy Saint-Hilaire na França chegaram a conclusões parecidas quase ao mesmo tempo.
O ponto mais delicado é a prioridade. Darwin admite que W.C. Wells, em 1813, e Patrick Matthew, em 1831, já haviam reconhecido o princípio da seleção natural antes dele. Matthew o expôs em passagens dispersas no apêndice de um livro sobre madeira naval, e só reivindicou a paternidade da ideia em 1860, depois que a obra de Darwin saiu. Darwin reconhece a anterioridade sem disputá-la, e observa que tanto ele quanto o Professor Owen, que também alegou precedência, foram precedidos por Wells e por Matthew. O Esboço termina situando o artigo conjunto com Wallace, lido na Linnean Society em 1858, e a publicação da própria obra em 1859.
"Em 1831, o Sr. Patrick Matthew publicou sua obra 'Naval Timber and Arboriculture', na qual apresenta exatamente a mesma ideia sobre a origem das espécies que aquela proposta pelo Sr. Wallace e por mim."Charles Darwin, A Origem das Espécies - Esboço Histórico 1:9
Ciência e Fé: o Debate
Em 1859, a ideia da mudança das espécies entrava num mundo dominado pela teologia natural. O modelo de referência era a Teologia Natural de William Paley, de 1802, que lia a adaptação dos seres vivos como prova de um Criador, do mesmo modo que um relógio encontrado no chão aponta para um relojoeiro. O argumento do design e a doutrina da criação especial, cada espécie criada à parte, eram o consenso. O Esboço mostra que a ideia da transmutação já circulava nesse mundo, em autores que eram, muitos deles, religiosos. O que Darwin acrescentou não foi a evolução, e sim a seleção natural como mecanismo que explica a adaptação sem recorrer a um ato de criação para cada forma.
Isso tensionou diretamente o argumento do design. Se a complexidade adaptada podia surgir por variação e seleção ao longo do tempo, o relógio de Paley deixava de ser prova necessária. As respostas cristãs cobriram um espectro amplo, e cobrem até hoje. Numa ponta, a rejeição: a evolução foi lida como incompatível com a criação narrada em Gênesis e com a posição do homem como criatura distinta. Numa posição intermediária, a evolução teísta, defendida já no século 19 pelo botânico Asa Gray, correspondente de Darwin e cristão de credo niceno. Gray sustentou que a seleção natural podia ser o método pelo qual Deus criou, e que a variação poderia proceder segundo leis projetadas, sem que isso esteja afirmado no texto de Darwin. No catolicismo, o magistério acabou nessa faixa: a encíclica Humani Generis, de Pio XII, em 1950, admitiu o debate sobre a evolução do corpo humano a partir de matéria viva preexistente, e João Paulo II, em 1996, chamou a evolução de mais que uma hipótese, ressalvando em ambos os casos que a alma é criada diretamente por Deus.
O quadro atual é misto, e convém apresentá-lo sem inclinar. A descendência comum e a antiguidade da vida têm amplo apoio empírico convergente, de fósseis a genética. A seleção natural se firmou como mecanismo central, ainda que a biologia tenha acrescentado fatores que Darwin não conhecia, como a genética mendeliana e a deriva gênica. O que segue em debate filosófico, e não científico, é o que a evolução implica sobre propósito, finalidade e criação, terreno em que coexistem o criacionismo, o design inteligente, a evolução teísta e a leitura materialista. Este índice não decide entre elas. O Esboço, por si, documenta um fato modesto e verificável: a ideia da mudança das espécies não nasceu com Darwin, mas o mecanismo que a tornou ciência, sim.