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A Origem das Espécies - Capítulo XIV: Afinidades Mútuas dos Seres Orgânicos

Afinidades, Morfologia, Embriologia

O Capítulo na Obra

Este capítulo reúne quatro classes de fatos que Darwin trata como o argumento mais forte de toda a obra: a classificação natural, a morfologia, a embriologia e os órgãos rudimentares. A pergunta é uma só. Por que os seres vivos se organizam em grupos dentro de grupos, por que partes com funções tão diferentes seguem o mesmo plano, e por que tantos animais carregam órgãos sem uso? Darwin responde com um único princípio: a descendência com modificação a partir de pais comuns. No fim do capítulo ele afirma que adotaria essa visão ainda que ela não fosse sustentada por nenhum outro fato ou argumento.

Na primeira edição, este material aparece como Capítulo XIII. Na sexta edição, que é a base desta tradução, ele passa a ser o Capítulo XIV, com pequenos acréscimos. O conteúdo é o mesmo: o caso que Darwin considera decisivo para a ancestralidade comum.

Conteúdo do Capítulo

Homologia: o Mesmo Plano em Funções Diferentes

A homologia é o centro da seção sobre morfologia. Darwin observa que a mão do homem, feita para agarrar, a pata da toupeira, feita para cavar, a perna do cavalo, a nadadeira da toninha e a asa do morcego são construídas segundo o mesmo padrão, com ossos semelhantes nas mesmas posições. As funções são diferentes; o plano é o mesmo. Para a teologia natural da época, isso era prova do plano de um Criador, que teria construído cada classe segundo um desenho uniforme. Darwin registra essa leitura sem caricaturá-la, mas a recusa como explicação científica, e a lê como marca de herança a partir de um ancestral comum.

Embriologia e Órgãos Rudimentares

A embriologia acrescenta um segundo conjunto de fatos. Embriões de animais muito diferentes dentro de uma mesma classe se assemelham nos estágios iniciais e só depois divergem. Darwin explica isso pela herança das variações numa idade correspondente à que surgiram. Os órgãos rudimentares, ou vestigiais, são o terceiro fato e talvez o mais retórico. São partes reduzidas e sem uso, registro de um estado anterior, retidas apenas pela força da hereditariedade. Darwin compara esses órgãos a letras que sobrevivem na grafia de uma palavra, mudas na pronúncia, mas que indicam de onde a palavra veio.

Os órgãos rudimentares podem ser comparados às letras de uma palavra, ainda conservadas na grafia, mas tornadas inúteis na pronúncia, e que servem de pista para a sua derivação.

Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo XIV: Afinidades Mútuas dos Seres Orgânicos 7:80

O Debate com a Fé

Aqui está a tensão real com a teologia. A homologia e os vestígios eram lidos pela teologia natural, na linha de William Paley e do anatomista Richard Owen, como evidência de um plano do Criador. Darwin pega exatamente os mesmos dados e os lê como marca de ancestralidade comum, e argumenta que o vestígio inútil é difícil para a velha doutrina da criação separada, mas previsível na descendência com modificação. As respostas cristãs se distribuem num espectro. Há a rejeição, que mantém a criação especial de cada espécie. Há a evolução teísta, cujo primeiro grande defensor foi o botânico cristão Asa Gray, de Harvard, que sustentava que a seleção natural podia operar segundo leis instituídas por Deus, sem que isso negasse a fé. A Igreja Católica formalizou uma posição própria: a Humani Generis (Pio XII, 1950) liberou o estudo da evolução do corpo humano a partir de matéria viva preexistente, reservando a criação direta da alma a Deus, e João Paulo II, em 1996, chamou a evolução de mais que uma hipótese. Há ainda o movimento do design inteligente, que aceita parte da descendência comum mas contesta que a seleção natural baste como mecanismo. E há posições intermediárias, que aceitam ancestralidade comum mas discutem o alcance do acaso.

O estado atual da questão mudou o terreno. A homologia anatômica, que Darwin só podia ler nos ossos, hoje é também molecular: genes e sequências de DNA partilhados sustentam as mesmas árvores genealógicas que ele inferiu da forma. A ancestralidade comum dos grandes grupos é consenso na biologia. O que segue em debate não é o fato da descendência, mas a leitura filosófica que cada lado faz dele, se ela exige um mundo sem propósito ou se é compatível com uma criação que age por leis. O capítulo não resolve essa questão. Ele apresenta os dados que forçaram os dois lados a discuti-la.