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A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto
Instinto
O Capítulo na Obra
O Capítulo VIII de A Origem das Espécies trata do instinto. Darwin sabia que esse era um dos pontos mais difíceis para a sua teoria. Se a seleção natural acumula apenas pequenas variações vantajosas, ela precisa dar conta também do comportamento herdado, não só da forma do corpo. O capítulo abre admitindo a dificuldade, compara o instinto ao hábito, e defende que os instintos variam ligeiramente, que essas variações são herdadas, e que a seleção natural pode somá-las ao longo de muitas gerações.
Para provar o argumento, Darwin escolhe três casos que ele mesmo chama de os mais admiráveis: o cuco, que põe seus ovos em ninhos de outras aves; as formigas que capturam pupas de outra espécie e as criam como escravas; e a abelha melífera, que constrói o favo hexagonal. Esses três instintos eram, na sua época, exibidos como provas do design. Darwin tenta mostrar, em cada um, uma escada de gradações que vai do simples ao complexo, e propõe que a seleção natural percorreu essa escada sem precisar de um plano.
Conteúdo do Capítulo
- O que é o instinto, sua comparação com o hábito, e a tese de que ele varia e pode ser acumulado pela seleção natural — (A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 1)
- Instintos sob domesticação, o cuco que põe ovos em ninhos alheios, e a graduação dos hábitos parasitas em aves e abelhas — (A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 2)
- As formigas escravagistas (Formica sanguinea, Formica rufescens) e o início do instinto de construir células na abelha — (A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 3)
- A célula hexagonal explicada por gradação a partir da Melipona, e a objeção das operárias estéreis das colônias de insetos — (A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 4)
- As castas estéreis, o resumo do capítulo, e a leitura final do cuco, das formigas e das vespas como consequência de uma lei geral — (A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 5)
Os Três Casos: Cuco, Formigas e Abelha
O cuco europeu não cria a própria cria. A fêmea põe um ovo no ninho de uma ave menor, e o filhote, logo após nascer, expulsa do ninho os irmãos adotivos, que morrem de frio e fome. Darwin propõe que o instinto começou com um hábito ocasional, semelhante ao do cuco americano, que constrói o próprio ninho mas às vezes põe ovos em ninhos alheios. Onde esse desvio dava vantagem, a seleção o fixava. Ele encadeia uma série real de espécies do gênero Molothrus, das que criam a própria prole até as plenamente parasitas, como evidência de que tais gradações existem na natureza.
As formigas escravagistas vêm em seguida. Darwin relata observações próprias em Surrey e Sussex: a Formica sanguinea sai em expedições, captura pupas de outra espécie e as cria como operárias; a Formica rufescens do continente é tão dependente que não consegue sequer se alimentar sem as escravas. Ele sugere que o instinto nasceu de pupas estocadas a princípio como alimento, que por acaso se desenvolveram e passaram a trabalhar, sendo depois esse hábito fortalecido pela seleção. O terceiro caso é o favo da abelha. Darwin defende, com experimentos de tiras de cera tingida de vermelhão, que a célula hexagonal perfeita resulta de poucos instintos simples, uma gradação que parte das células irregulares do mamangava, passa pela Melipona do México e chega à abelha de colmeia.
O Que o Capítulo Tensiona na Teologia da Época
Esses três instintos não foram escolhidos por acaso. A teologia natural do século XVIII e XIX, sobretudo a de William Paley na Natural Theology de 1802, usava exatamente esse tipo de exemplo como prova do Criador. O favo da abelha era o caso clássico: matemáticos haviam mostrado que o hexágono guarda o máximo de mel com o mínimo de cera, e isso era apresentado como sabedoria divina impressa no inseto. Darwin não nega a precisão do favo. Ele descreve a célula com cuidado e até a chama de estrutura primorosa. O que ele faz é oferecer outra causa para a mesma perfeição.
Onde a teologia natural via um relógio que exige um relojoeiro, Darwin propõe um processo cego que produz o mesmo resultado por acúmulo de pequenos passos. A própria existência da Melipona, intermediária entre o mamangava e a abelha de colmeia, é o argumento: se há uma escada de instintos parciais na natureza, então a perfeição final não precisa ter sido posta pronta. Esse é o cerne da tensão. O favo continua perfeito. A questão é se a perfeição prova um projetista ou se ela pode emergir de uma lei sem projetista.
Os Instintos Cruéis e a Teodiceia
O cuco que expulsa os irmãos adotivos e as formigas que escravizam outras reabrem um problema antigo, o da teodiceia, ou seja, como conciliar a dor e a crueldade na natureza com um Deus bom. Darwin percebe isso e usa uma ironia direta quando comenta o instinto do filhote de cuco.
o cuco jovem, logo após o nascimento, tem o instinto, a força e um dorso de formato adequado para expulsar seus irmãos adotivos, que então morrem de frio e fome. Isso foi corajosamente chamado de arranjo benéfico, para que o cuco jovem consiga alimento suficiente e seus irmãos adotivos pereçam antes de adquirir muita sensibilidade!Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 2:17
No fechamento do capítulo, Darwin diz preferir olhar para o cuco que expulsa os irmãos, para as formigas escravagistas e para as larvas de vespas que comem lagartas vivas por dentro, não como instintos especialmente concedidos ou criados, mas como pequenas consequências de uma lei geral. A mesma imagem aparece numa carta sua de 1860 a Asa Gray, botânico cristão de Harvard, onde escreve que não consegue se convencer de que um Deus bom e onipotente teria criado de propósito as vespas Ichneumonidae para se alimentarem dentro de lagartas vivas. Para Darwin, transferir esses instintos cruéis de um ato de criação para uma lei geral aliviava o problema. Esse movimento, porém, não fecha o debate. Ele apenas o desloca: a pergunta passa a ser por que uma lei dessas governa a criação.
O Espectro de Respostas Cristãs
A reação cristã a este capítulo nunca foi única. Houve a rejeição: leitores que viram na seleção natural a negação direta do design e do governo divino, e que defenderam a criação especial de cada espécie e de cada instinto. Houve também a via da evolução teísta, cujo principal interlocutor de Darwin foi o próprio Asa Gray, que aceitava a descendência com modificação mas sustentava que a variação podia ser conduzida por Deus, e não deixada inteiramente ao acaso. Darwin discordava de Gray nesse ponto, e a correspondência entre os dois é um dos registros mais honestos do debate, sem caricatura de nenhum lado.
Mais tarde firmaram-se outras posições. A Igreja Católica, na encíclica Humani Generis de 1950, autorizou o estudo da evolução do corpo humano e exigiu apenas que a alma seja tida como criada por Deus; em 1996 João Paulo II chamou a evolução de mais que uma hipótese, mantendo a ressalva de que a mente reduzida à matéria é incompatível com a fé, ressalva que toca de perto o tema deste capítulo, a origem do comportamento. Já o movimento do design inteligente, surgido no fim do século XX, retoma o argumento de Paley sob nova forma e sustenta que certas estruturas indicam projeto. Cada uma dessas respostas tem defensores e críticos atuais, e o índice não arbitra entre elas.
O estado atual é o seguinte. A descendência com modificação e a seleção natural como mecanismo se firmaram na biologia, e os instintos do capítulo são hoje estudados sob etologia e seleção de parentesco, que explicam bem o comportamento das operárias estéreis que tanto preocupou Darwin. O argumento do design no formato de Paley perdeu força como prova científica. O que segue em aberto não é a biologia, e sim a leitura filosófica e teológica: se a emergência de ordem e de perfeição funcional a partir de uma lei natural aponta para um Criador, é neutra quanto a ele, ou o exclui. Esse índice apenas mapeia o terreno. O exame mais a fundo do confronto entre fé e seleção natural fica para uma página de debate dedicada, e não para o índice de uma obra que não cita a Bíblia.