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A Origem das Espécies - Capítulo IV: A Seleção Natural, ou a Sobrevivência do Mais Apto

A Seleção Natural

O Capítulo na Obra

O Capítulo IV é o coração de A Origem das Espécies. Os capítulos anteriores prepararam o terreno: a variação existe (Capítulo I e II) e há uma luta severa pela vida em que nascem mais seres do que podem sobreviver (Capítulo III). Aqui Darwin junta as duas peças e propõe o mecanismo. Se há variação herdável e há luta pela existência, então as variações que ajudam um ser a sobreviver e a se reproduzir tendem a ser preservadas e passadas adiante. A esse processo Darwin deu o nome de seleção natural, que a partir da quinta edição (1869) ele também chama de sobrevivência do mais apto, expressão tomada de Herbert Spencer.

Darwin é cuidadoso ao definir o termo. A seleção natural não cria a variação nem age por um objetivo. Ela apenas preserva o que já surgiu e se mostrou útil, do mesmo modo que o criador de pombos preserva os indivíduos que lhe agradam, só que sem criador e sem propósito. O capítulo introduz ainda a seleção sexual, a divergência de caracteres, a extinção e a célebre imagem da Árvore da Vida, que fecha a argumentação. É neste capítulo, e não em outro, que está a tese central da obra.

Conteúdo do Capítulo

O Mecanismo Central

A seleção natural, para Darwin, age unicamente preservando e acumulando pequenas variações benéficas. Ela é lenta, gradual e sem direção pré-fixada. A divergência de caracteres explica por que a vida se ramifica: numa mesma área, os descendentes que mais diferem entre si competem menos e ocupam mais espaços, de modo que a seleção tende a empurrar as variedades para longe umas das outras até que virem espécies distintas. A extinção é o outro lado da moeda. As formas intermediárias e menos adaptadas são suplantadas e desaparecem. O resultado é uma árvore ramificada, com poucos galhos sobrevivendo e muitos caindo. Darwin resume tudo numa única imagem.

Assim também, pela geração, creio que se passou com a grande Árvore da Vida, que preenche com seus galhos mortos e quebrados a crosta da terra e cobre a superfície com suas belas ramificações sempre crescentes.

Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo IV: A Seleção Natural, ou a Sobrevivência do Mais Apto 8:87

O Desafio ao Argumento do Design

Aqui está o ponto de maior atrito com a fé, e convém nomeá-lo sem rodeios. Antes de Darwin, a adaptação dos seres vivos era a principal evidência empírica da existência de Deus. O argumento do relojoeiro, de William Paley, era direto: um olho ajustado para ver, uma asa ajustada para voar, mostram projeto, e projeto exige um projetista. O Capítulo IV oferece outra explicação para a mesma aparência de projeto. A complexidade ajustada pode surgir de um processo natural, cego, sem desenhista, pela preservação acumulada de pequenas vantagens ao longo de muito tempo. Darwin não nega que os seres pareçam projetados. Ele propõe que a aparência de projeto não prova um projetor. Esse é o desafio direto que a obra coloca, e ele foi sentido como desafio desde o primeiro momento.

O Espectro de Respostas Cristãs

As respostas cristãs ao Capítulo IV se distribuem num espectro, e o leitor merece vê-lo inteiro. Numa ponta está a rejeição: parte das tradições leem Gênesis 1 como criação direta de cada espécie e consideram a seleção natural incompatível com o relato bíblico, posição que persiste no criacionismo e no design inteligente. Na outra ponta está a evolução teísta. Asa Gray, botânico de Harvard e o principal divulgador de Darwin nos Estados Unidos, era cristão devoto e sustentava que a seleção natural descreve o meio pelo qual Deus age, e não a ausência dele. Para Gray, a variação poderia ser providencialmente orientada e as leis naturais seriam o instrumento ordenado do Criador. Darwin dedicou a Gray boa correspondência sobre o tema, mas nunca se convenceu de que a variação fosse dirigida, e ali está a tensão real.

A tensão é a do acaso contra a providência. Se as variações úteis surgem ao acaso, sem rumo, é difícil dizer que a história da vida foi planejada em seus detalhes. Se elas são orientadas, deixam de ser o acaso de que o mecanismo de Darwin precisa. Gray queria as duas coisas, leis naturais que fossem também desígnio divino, e Darwin respondia que não via como afirmar o desígnio sem evidência dele. Hoje boa parte das igrejas históricas aceita a evolução por seleção natural como descrição de processo, separando a pergunta científica de como a vida se diversificou da pergunta teológica de por que existe algo em vez de nada. A Igreja Católica é um caso explícito: a encíclica Humani Generis (1950) admitiu a evolução do corpo humano como hipótese aberta à investigação, reservando a criação direta da alma; em 1996, João Paulo II disse à Academia Pontifícia de Ciências que a teoria é hoje mais que uma hipótese. Outras tradições mantêm a rejeição. O Capítulo IV é o documento que abriu esse debate, e a leitura honesta apresenta os dois lados sem decidir pelo leitor.