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A Origem das Espécies - Capítulo XII: Distribuição Geográfica

Distribuição Geográfica

O Capítulo na Obra

Este é o Capítulo XII de A Origem das Espécies, que Charles Darwin publicou pela primeira vez em 1859. A base desta tradução é a sexta edição, de 1872; na primeira edição este material aparece como Capítulo XI, e a discussão dos períodos glaciais alternados de Croll, citada adiante, só entrou nas edições posteriores. Ele abre o primeiro de dois capítulos sobre distribuição geográfica, a parte do livro que pergunta por que cada planta e cada animal vive onde vive. O Capítulo XIII continua o argumento, tratando da vida de água doce e dos habitantes de ilhas. Aqui Darwin parte de três fatos que considera fundamentais. Primeiro, nem a semelhança nem a diferença entre os seres de regiões distintas se explicam só pelo clima. Segundo, barreiras como oceanos, desertos e cadeias de montanhas têm relação estreita com as diferenças entre as faunas. Terceiro, dentro de um mesmo continente as espécies guardam afinidade entre si, ainda que sejam distintas em cada ponto.

A partir desses fatos, Darwin defende uma tese econômica: cada espécie surgiu uma vez, numa única área, e depois migrou dali até onde seus meios de transporte e de sobrevivência permitiram. Para sustentar isso ele descreve os meios de dispersão, com experimentos próprios sobre sementes em água do mar, e depois usa a era Glacial para explicar o caso mais difícil, o de uma mesma espécie vivendo em cumes de montanhas separados por centenas de quilômetros.

Conteúdo do Capítulo

Os Meios de Dispersão

Boa parte do capítulo é experimental, não especulativa. Darwin testou quantos tipos de semente germinam depois de semanas imersos em água salgada, secou caules e galhos para ver quais flutuavam por mais tempo, e calculou que as sementes de cerca de uma em cada dez plantas de uma flora poderiam cruzar centenas de quilômetros de mar e ainda brotar. Ele extraiu sementes vivas do papo de aves, da terra grudada na perna de uma perdiz e até das pelotas secas de gafanhotos. Esse esforço tem um propósito argumentativo claro. Se a dispersão por meios ocasionais é possível e mensurável, então não é preciso supor que cada espécie foi colocada pronta em seu lugar atual. A migração a partir de um único berço basta.

A Era Glacial

O caso mais espinhoso para qualquer teoria era a mesma planta vivendo no alto dos Alpes, no extremo norte da Europa e nas montanhas da América do Norte, sem ponte aparente entre esses pontos. Em 1747 esse fato levou Gmelin a concluir que a mesma espécie tinha sido criada de modo independente em vários lugares. Darwin propõe outra explicação. Durante a era Glacial, o frio empurrou as formas árticas para o sul, cobrindo a Europa central e os Estados Unidos. Quando o calor voltou, essas formas recuaram para o norte e subiram pelas montanhas que iam descongelando, ficando presas nos cumes, isoladas umas das outras. Darwin apoia o argumento em observações de geleiras antigas, morenas e blocos erráticos relatados por Hooker, Lyell, Agassiz e outros, e na hipótese de Croll de que períodos glaciais se alternam entre os hemisférios por mudanças na órbita da Terra.

O Desafio à Criação no Lugar

O fio que costura o capítulo é uma objeção à ideia de que cada espécie foi criada separadamente, já adaptada, no lugar onde hoje vive. Darwin a chama de teoria dos centros únicos de criação e a confronta com fatos. Se as espécies fossem feitas sob medida para o clima, regiões de clima quase igual, como o sul da América do Sul, o sul da África e a Austrália, deveriam ter habitantes parecidos, e têm faunas radicalmente diferentes. E ilhas vulcânicas, soerguidas do nada a poucas centenas de quilômetros de um continente, deveriam receber criaturas próprias, mas recebem versões modificadas dos vizinhos do continente. Darwin lê esses padrões como assinatura de herança e migração, não de criação ponto a ponto. Vale registrar que ele discute a posição que combate em termos de causa natural contra milagre, o que mostra que a alternativa criacionista era a leitura corrente do seu tempo.

A grande e marcante influência das barreiras de todo tipo só faz sentido se admitirmos que a grande maioria das espécies foi produzida de um lado e não conseguiu migrar para o lado oposto.

Charles Darwin, A Origem das Espécies - Capítulo XII: Distribuição Geográfica 1:9

A Tensão com a Fé

Convém ser honesto sobre o impacto. A biogeografia de Darwin foi um dos argumentos que tensionaram a leitura literal de uma criação separada de cada espécie em seu lugar, e por isso este capítulo entra na história do debate entre ciência e fé, não na história de uma fé confirmada. As respostas cristãs ao longo do tempo formam um espectro, e nenhuma é a oficial. Numa ponta há a rejeição, que nega a descendência comum e mantém a criação especial fixa. No meio há a evolução teísta, defendida já no século XIX por Asa Gray, botânico cristão e o principal correspondente americano de Darwin, citado várias vezes neste mesmo capítulo; Gray sustentava que a seleção natural podia ser o método pelo qual Deus criou, sem exigir o abandono da fé. Há ainda a leitura que trata Gênesis como texto teológico sobre quem criou e por quê, não como relato técnico de como. Onde está o consenso hoje: a comunidade científica trata a descendência comum e a distribuição por migração como bem estabelecidas, enquanto a questão de Deus por trás do processo permanece fora do alcance do método e dentro do terreno da convicção pessoal. O capítulo não resolve essa questão, ele a coloca.

Relevância para o Leitor de Hoje

Para um leitor cristão, o Capítulo XII serve menos como ameaça e mais como exercício de honestidade. Ele mostra um cientista raciocinando a partir de fatos observáveis, sementes em água do mar, geleiras antigas, faunas de ilhas, e tirando deles uma conclusão que abalou uma certa imagem da criação. Encarar o argumento como ele é, sem caricatura, faz parte de uma fé madura. Muitos cristãos antes e depois de Darwin concluíram que aceitar a evidência da distribuição geográfica e da descendência comum não os obrigava a abandonar a crença num Criador, apenas a repensar como entendiam o ato de criar. Outros discordam, e a discussão segue aberta. Ler Darwin de primeira mão, em vez de pela boca de seus aliados ou de seus adversários, é o ponto de partida para participar dela com seriedade.