Capítulos
1 Clemente
Autoria e Datação
A obra é uma carta enviada pela igreja de Roma à igreja de Corinto, escrita por volta de 96 d.C., no fim do reinado de Domiciano. A ocasião foi um cisma em Corinto: alguns presbíteros haviam sido depostos do cargo, e a igreja de Roma interveio para pedir a sua reintegração e o restabelecimento da ordem. O texto não traz o nome de nenhum autor individual, falando sempre em primeira pessoa do plural, em nome da comunidade romana. A tradição antiga, desde pelo menos o século II, atribuiu a redação a Clemente de Roma, figura associada à liderança da igreja na cidade. Essa atribuição é antiga e amplamente repetida, mas a carta em si permanece anônima.
É preciso cautela com a ideia de que Clemente seria já um "papa" ou bispo monárquico de Roma no sentido posterior do termo. A própria carta descreve o governo de Corinto e parece supor o de Roma como exercido por um colégio de presbíteros, e não por um único bispo. Muitos historiadores sustentam que Roma no final do século I ainda tinha liderança plural, e que a figura do bispo único surgiu ali mais tarde. A leitura de 1 Clemente como prova de um papado primitivo é, portanto, debatida, e depende de pressupostos confessionais que o texto não confirma por si mesmo.
Conteúdo da Carta
- Saudação: a igreja de Roma que peregrina escreve à igreja de Corinto, pedindo desculpas pela demora em responder ao conflito — (1 Clemente 1:1)
- O diagnóstico: o ciúme e a inveja geraram sedição e desordem na comunidade — (1 Clemente 3:2)
- Galeria de exemplos antigos arruinados pela rivalidade, de Caim a Davi — (1 Clemente 7:1)
- O autor passa dos exemplos antigos aos campeões mais próximos do seu tempo — (1 Clemente 5:1)
- Pedro e Paulo apresentados como mártires recentes, das mais antigas referências externas à morte de ambos — (1 Clemente 5:4)
- Raabe salva pela fé e pela hospitalidade, lida como tipo profético — (1 Clemente 12:1)
- O chamado à humildade, com citação de palavras atribuídas a Jesus que ecoam os evangelhos — (1 Clemente 13:1)
- Exortação à concórdia e ao respeito mútuo dentro da casa e da comunidade — (1 Clemente 21:1)
- A ressurreição futura prefigurada no ciclo do dia e da noite e na semeadura — (1 Clemente 24:1)
- A ave fênix do Oriente apresentada como sinal natural da ressurreição, uma das passagens mais conhecidas e curiosas da carta — (1 Clemente 25:2)
- O argumento da ordem: tudo deve ser feito em seus tempos e por quem é designado, com analogia ao culto do Antigo Testamento — (1 Clemente 40:1)
- A cadeia de envio: Deus enviou Cristo, Cristo enviou os apóstolos, os apóstolos designaram bispos e diáconos — (1 Clemente 42:1)
- Os apóstolos previram a contenda sobre o ofício e estabeleceram que sucessores aprovados continuassem o ministério, texto central nos debates sobre a origem do ministério cristão — (1 Clemente 44:1)
- Apelo à própria carta de Paulo aos coríntios, lembrando que já naquele tempo havia partidos na cidade — (1 Clemente 47:1)
- O hino ao amor, que ecoa de perto 1 Coríntios 13 — (1 Clemente 49:1)
- Continuação do louvor: só pelo amor se alcança a perfeição e o perdão — (1 Clemente 50:1)
- Transição para a oração de súplica pelo povo afligido, doente e necessitado — (1 Clemente 59:2)
- Louvor ao Criador e pedido de purificação e perdão, uma das mais antigas orações litúrgicas cristãs preservadas — (1 Clemente 60:1)
- Oração explícita pelos governantes e autoridades, pedindo que Deus lhes dirija o poder em concórdia e paz — (1 Clemente 61:1)
- Despedida com os nomes dos mensageiros enviados a Corinto, pedindo que voltem logo com notícias de paz — (1 Clemente 65:1)
O Cisma e o Apelo à Ordem
Pedro, Paulo e os Mártires Recentes
Humildade, Hospitalidade e Penitência
A Ressurreição e a Fênix
A Sucessão dos Ministros
O Elogio do Amor
A Grande Oração Final
Quase um Livro Canônico
1 Clemente foi uma das primeiras obras cristãs compostas fora do Novo Testamento e teve circulação e prestígio notáveis. Era lida publicamente no culto de várias igrejas, prática atestada por Dionísio de Corinto no século II e por Eusébio de Cesareia no século IV. Em alguns manuscritos e listas antigas ela aparece junto aos escritos que viriam a formar o Novo Testamento. O Codex Alexandrinus, do século V, inclui 1 e 2 Clemente logo após o Apocalipse. Apesar disso, a carta não foi incorporada ao cânon definitivo. As listas que se consolidaram a partir dos séculos IV e V, no Oriente e no Ocidente, a deixaram de fora, classificando-a entre os escritos úteis para edificação, mas não entre os livros recebidos como Escritura.
Manuscritos e Tradução
Por muito tempo o texto grego era conhecido apenas pelo Codex Alexandrinus, que tem uma lacuna perto do fim e deixava incompleta justamente a grande oração final. A carta completa só foi recuperada em 1873, quando Filóteos Bryennios identificou um manuscrito grego em Constantinopla, o chamado Codex Hierosolymitanus, datado de 1056, que preservava o trecho perdido. Existem ainda versões antigas em latim, siríaco e copta que ajudam a estabelecer o texto. A tradução que serve de base aqui segue a edição de J. B. Lightfoot, publicada em 1890 e hoje em domínio público.
Importância Histórica
Para além do valor devocional, 1 Clemente interessa por três frentes. É um dos primeiros testemunhos externos sobre os martírios de Pedro e Paulo, situados poucas décadas antes da carta. Contém uma das mais antigas orações litúrgicas cristãs preservadas por escrito, incluindo uma oração pelos governantes. E é uma das fontes mais citadas na discussão histórica sobre a origem do ministério ordenado, por causa da passagem que descreve os apóstolos designando sucessores. O peso dessa última passagem é interpretado de modos distintos: algumas tradições a leem como base de uma sucessão apostólica formal, outras a veem como expressão de uma ordem comunitária ainda em formação. O texto descreve a prática, mas não fixa a teoria, e as duas leituras continuam em debate.