Capítulos

A fênix renascendo das próprias cinzas

1 Clemente

Carta da igreja de Roma aos coríntios, c. 96 d.C., atribuída a Clemente de Roma

Autoria e Datação

A obra é uma carta enviada pela igreja de Roma à igreja de Corinto, escrita por volta de 96 d.C., no fim do reinado de Domiciano. A ocasião foi um cisma em Corinto: alguns presbíteros haviam sido depostos do cargo, e a igreja de Roma interveio para pedir a sua reintegração e o restabelecimento da ordem. O texto não traz o nome de nenhum autor individual, falando sempre em primeira pessoa do plural, em nome da comunidade romana. A tradição antiga, desde pelo menos o século II, atribuiu a redação a Clemente de Roma, figura associada à liderança da igreja na cidade. Essa atribuição é antiga e amplamente repetida, mas a carta em si permanece anônima.

A data de 96 d.C. é a mais aceita, apoiada na menção às calamidades recentes sofridas pela igreja de Roma, na referência a Pedro e Paulo como figuras da geração anterior e no testemunho patrístico. Há, porém, uma corrente minoritária que defende datação bem mais alta, nos anos 60 ou no início de 70. O argumento central é o capítulo 41, que descreve os sacrifícios do templo de Jerusalém no presente, como prática ainda em curso. Thomas J. Herron, em tese defendida na Pontifícia Universidade Gregoriana, e antes dele George Edmundson sustentaram essa leitura. A resposta usual é que o presente ali é literário, descrevendo a instituição prescrita na Lei e não a situação do momento, recurso que aparece também em Flávio Josefo e na Carta a Diogneto. O debate segue aberto, embora a datação tardia continue majoritária.

O estatuto de Clemente é debatido. A tradição católica o conta entre os primeiros bispos de Roma e lê a intervenção romana em assunto de outra igreja como sinal antigo de um primado. Historiadores de várias tradições respondem que a carta fala em nome da comunidade, não de um indivíduo, e descreve tanto Corinto quanto Roma sob um colégio de presbíteros, o que sugere que o bispo único ainda não existia ali no fim do século I. Não há consenso: o texto documenta a intervenção, mas não define o título nem a autoridade de quem a promoveu.

Como a Carta Está Organizada

A carta é longa para o padrão da literatura cristã da época, com sessenta e cinco capítulos curtos. O movimento é claro: primeiro o elogio do passado de Corinto e o diagnóstico do conflito, depois uma longa sequência de exemplos tirados das Escrituras e do mundo à volta, e só no fim o pedido concreto de reintegração dos presbíteros depostos. O autor argumenta por acúmulo: em vez de uma tese seguida de provas, ele empilha episódios bíblicos, imagens da natureza, analogias do exército e do corpo humano, e longos blocos de citação do Antigo Testamento grego. Quem lê de ponta a ponta percebe que o pedido prático ocupa uma fração pequena do texto.

Conteúdo da Carta

A Ocasião: Roma Escreve a Corinto

  • Saudação: a igreja de Deus que peregrina em Roma escreve à que peregrina em Corinto(1 Clemente 1:1)
  • Roma se desculpa pela demora, atribuída a calamidades e reveses recentes, e nomeia a sedição em Corinto(1 Clemente 1:2)
  • Retrato do que Corinto era antes: submissão aos dirigentes, honra aos mais velhos, ordem doméstica(1 Clemente 2:1)
  • A comunidade que chorava pelas faltas do próximo e detestava todo cisma(1 Clemente 2:7)
  • O diagnóstico: veio a prosperidade e cumpriu-se Deuteronômio, o amado que engordou e deu coices(1 Clemente 3:2)
  • A cadeia do mal: ciúme, inveja, contenda, sedição, perseguição, guerra e cativeiro(1 Clemente 3:3)

O Catálogo do Ciúme

  • Caim e Abel abrem a galeria: a inveja produziu o assassinato de um irmão(1 Clemente 4:7)
  • Jacó foge da face de Esaú, e a galeria segue por José, Moisés, Arão e Miriã(1 Clemente 4:9)
  • Datã e Abirão descem vivos ao Hades por terem feito sedição contra Moisés, o paralelo mais direto com Corinto(1 Clemente 4:13)
  • Davi perseguido por Saul fecha os exemplos antigos(1 Clemente 5:1)
  • A virada do argumento: dos exemplos antigos aos campeões da própria geração(1 Clemente 5:2)

Pedro, Paulo e os Mártires Recentes

  • Pedro suportou muitos trabalhos, deu o seu testemunho e partiu para o lugar de glória(1 Clemente 5:5)
  • Paulo, sete vezes preso, exilado, apedrejado, pregador no Oriente e no Ocidente(1 Clemente 5:6)
  • Paulo alcança os confins mais distantes do Ocidente e dá testemunho diante dos governantes(1 Clemente 6:1)
  • Mulheres perseguidas e torturadas como Danaides e Dirces chegaram à meta da corrida da fé(1 Clemente 6:3)
Por causa do ciúme e da contenda, Paulo, com o seu exemplo, mostrou o prêmio da perseverança paciente.

1 Clemente 5:6

Esta é uma das testemunhas externas mais antigas sobre a morte de Pedro e Paulo. O texto não diz onde nem como cada um morreu, não menciona Nero e não descreve crucificação nem decapitação. Diz que sofreram, deram testemunho e partiram. A tradição posterior preencheu os detalhes; a carta, não. A expressão "os confins mais distantes do Ocidente" foi lida por muitos como referência a uma viagem de Paulo à Espanha, mas o autor escreve de Roma, e Roma poderia ser o limite ocidental do ponto de vista do leitor grego. As duas leituras circulam.

O Arrependimento e os Justos Antigos

  • O sangue de Cristo, precioso ao Pai, conquistou para o mundo a graça do arrependimento(1 Clemente 7:5)
  • Noé pregou o arrependimento, e os que obedeceram foram salvos(1 Clemente 7:7)
  • Jonas e os ninivitas: até estrangeiros a Deus obtiveram perdão ao se arrepender(1 Clemente 8:1)
  • Enoque foi achado justo na obediência e trasladado, e a sua morte não foi encontrada(1 Clemente 9:3)
  • Abraão, chamado amigo, foi achado fiel por obedecer às palavras de Deus(1 Clemente 10:1)
  • Pela fé e pela hospitalidade Abraão recebeu um filho na velhice e o ofereceu no monte(1 Clemente 10:7)
  • A mulher de Ló, de outra mentalidade, virou coluna de sal, advertência aos de espírito duvidoso(1 Clemente 11:2)
  • Raabe, a prostituta, salva pela fé e pela hospitalidade(1 Clemente 12:1)
  • O fio escarlate pendurado na janela lido como sinal antecipado da redenção pelo sangue(1 Clemente 12:7)

Humildade: Palavras de Jesus e o Servo Sofredor

  • Bloco de ditos atribuídos a Jesus sobre misericórdia, perdão e medida, próximo dos evangelhos mas sem coincidir com nenhum deles(1 Clemente 13:2)
  • Obedecer a Deus em vez de seguir os que se estabeleceram como líderes em ciúme(1 Clemente 14:1)
  • Contra a paz fingida: este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe(1 Clemente 15:2)
  • Isaías 53 citado quase por inteiro como retrato do Senhor humilde, sem forma nem formosura(1 Clemente 16:3)
  • O Salmo 22 emendado à passagem do Servo: eu sou um verme, e não um homem(1 Clemente 16:15)
  • Elias, Eliseu e Ezequiel como imitadores vestidos de peles de cabra e de ovelha(1 Clemente 17:1)
  • Moisés, fiel em toda a casa, lembrado pela pergunta na sarça: quem sou eu, para que me envies?(1 Clemente 17:5)
  • Davi encontrado por Deus como homem segundo o seu coração(1 Clemente 18:1)
  • O Salmo 51 transcrito quase inteiro como modelo de coração contrito(1 Clemente 18:2)
  • Conclusão do bloco: voltar à meta da paz transmitida desde o princípio(1 Clemente 19:2)

A Concórdia do Cosmo

  • Os céus, movidos pela direção do Criador, lhe obedecem em paz(1 Clemente 20:1)
  • Sol, lua e os astros dançantes giram em harmonia dentro dos limites determinados(1 Clemente 20:3)
  • O oceano intransponível e os mundos que estão além dele seguem as mesmas ordenanças(1 Clemente 20:8)
  • Instrução doméstica: reverenciar os dirigentes, honrar os anciãos, instruir os jovens(1 Clemente 21:6)
  • O Salmo 34 citado como palavra do próprio Cristo por meio do Espírito Santo(1 Clemente 22:1)

O capítulo 20 é uma das páginas mais citadas da carta. O autor descreve a ordem do universo como argumento pela ordem na igreja: se os astros, as estações e o mar obedecem sem disputa, a comunidade também deveria. O vocabulário aqui tem sabor estoico, e várias das imagens circulavam na filosofia popular greco-romana. Isso não faz do autor um estoico: ele usa o repertório disponível para um fim próprio, a submissão à ordem do Criador. A referência aos "mundos que estão além" do oceano é uma das expressões mais discutidas do texto e não tem leitura consensual.

A Ressurreição, a Fênix e o Poder do Criador

  • Citação de uma escritura desconhecida contra os de espírito duvidoso, que dizem que nada se cumpriu(1 Clemente 23:3)
  • Cristo apresentado como as primícias da ressurreição futura(1 Clemente 24:1)
  • A semente que apodrece na terra e depois multiplica, tomada como sinal natural da ressurreição(1 Clemente 24:5)
  • A ave fênix da Arábia, que morre no seu caixão de especiarias e renasce do próprio apodrecimento(1 Clemente 25:2)
  • Os sacerdotes conferem os registros dos tempos e confirmam que a ave voltou no quingentésimo ano(1 Clemente 25:5)
  • A conclusão do argumento: se Deus mostra a promessa até por meio de uma ave, por que duvidar?(1 Clemente 26:1)
  • Nada é impossível para Deus, exceto mentir(1 Clemente 27:2)
  • O Salmo 139 recitado: não há para onde fugir daquele que abraça o universo(1 Clemente 28:3)
Há uma ave chamada fênix. Esta, sendo a única da sua espécie, vive quinhentos anos; e, quando chega o tempo da sua dissolução, em que deve morrer, faz para si um caixão de incenso, mirra e outras especiarias.

1 Clemente 25:2

A fênix é o trecho que mais desconforto causa a leitores modernos, porque o autor a trata como fato observável, apoiado em registros de sacerdotes egípcios. A lenda circulava na literatura greco-romana, aparecendo em Heródoto, Ovídio, Plínio, o Velho, e Tácito, e nem todos esses autores a endossavam. Duas leituras convivem: alguns entendem que o autor cria na existência do animal, seguindo a informação disponível na sua época; outros entendem que ele usa a história como ilustração retórica corrente, sem compromisso com a zoologia. O texto em si não resolve a questão. Vale registrar que ele não deduz a ressurreição da fênix, mas a usa como argumento a fortiori, do menor para o maior.

Fé, Obras e a Grandeza do Criador

  • Deuteronômio 32 citado na forma grega: os limites das nações fixados segundo o número dos anjos de Deus(1 Clemente 29:2)
  • Deus resiste aos soberbos e dá graça aos humildes, provérbio também citado em Tiago e em 1 Pedro(1 Clemente 30:2)
  • Abraão abençoado por praticar a justiça e a verdade por meio da fé(1 Clemente 31:2)
  • Ninguém é justificado por si mesmo, pela própria sabedoria ou pelas próprias obras, mas pela fé(1 Clemente 32:4)
  • Contrapeso imediato: não abandonar as boas obras, mas realizá-las com zelo(1 Clemente 33:1)
  • O homem formado à imagem de Deus como a mais excelente das obras da criação(1 Clemente 33:4)
  • A multidão dos anjos e o Santo, santo, santo de Isaías na liturgia mais antiga preservada(1 Clemente 34:6)
  • Nem olho viu nem ouvido ouviu: a mesma citação enigmática que Paulo faz aos coríntios(1 Clemente 34:8)
  • Catálogo de vícios a serem lançados fora, incluindo a falta de hospitalidade(1 Clemente 35:5)
  • Jesus Cristo chamado Sumo Sacerdote das nossas ofertas, Guardião e Auxiliador da fraqueza(1 Clemente 36:1)

A sequência dos capítulos 32 e 33 é uma das mais discutidas da carta. O autor afirma que ninguém é justificado por si mesmo, mas pela fé, e imediatamente pergunta se então se deve abandonar as boas obras, respondendo que não. Leitores protestantes veem ali uma continuidade com Paulo; leitores católicos e ortodoxos veem a fé e as obras mantidas juntas desde o início. O texto sustenta as duas leituras porque não está resolvendo uma polêmica doutrinária, e sim pedindo que os coríntios ajam. A pergunta que ele responde é prática, não sistemática.

O Exército, o Corpo e a Ordem

  • A analogia militar romana: cada soldado executa a ordem na sua própria posição(1 Clemente 37:3)
  • A cabeça sem os pés nada é, e os menores membros são necessários ao corpo inteiro(1 Clemente 37:5)
  • Aplicação: que o forte não despreze o fraco, e que o rico socorra o pobre(1 Clemente 38:2)
  • Longa citação do livro de Jó sobre a pequenez do mortal diante de Deus(1 Clemente 39:4)
A cabeça sem os pés nada é; assim também os pés sem a cabeça nada são; até os menores membros do nosso corpo são necessários e úteis para o corpo inteiro.

1 Clemente 37:5

A Ordem do Culto e a Sucessão dos Ministros

  • Tudo deve ser feito em ordem, nos tempos e nas épocas determinadas pelo Senhor(1 Clemente 40:1)
  • Sumo sacerdote, sacerdotes, levitas e leigo: cada ordem vinculada aos seus próprios preceitos(1 Clemente 40:5)
  • Os sacrifícios descritos como oferecidos somente em Jerusalém, passagem central no debate sobre a data da carta(1 Clemente 41:2)
  • A cadeia de envio: Deus enviou Cristo, Cristo enviou os apóstolos, na ordem estabelecida(1 Clemente 42:1)
  • Os apóstolos designaram os seus primeiros frutos como bispos e diáconos, provados pelo Espírito(1 Clemente 42:4)
  • Isaías 60:17 citado numa forma que traz bispos e diáconos, diferente do hebraico e da Septuaginta conhecida(1 Clemente 42:5)
  • A inveja pelo sacerdócio e as doze varas seladas no tabernáculo, precedente contra a disputa pelo ofício(1 Clemente 43:2)
  • Os apóstolos previram a contenda sobre o ofício e estabeleceram que homens aprovados sucedessem no ministério(1 Clemente 44:2)
  • Depor presbíteros que serviram de modo irrepreensível é declarado pecado não pequeno(1 Clemente 44:3)
  • A acusação direta: vós destituístes pessoas que viviam honradamente(1 Clemente 44:5)
Pois não será pequeno pecado para nós, se expulsarmos do ofício do bispo aqueles que ofereceram os dons de modo irrepreensível e santo.

1 Clemente 44:3

Nos capítulos 42 a 44 está o material mais debatido da carta. Note que os termos bispo e presbítero aparecem aplicados às mesmas pessoas, sem distinção de grau: os depostos são chamados presbíteros no capítulo 44 e o ofício em disputa é chamado episcopado. Esse uso intercambiável é um dos principais argumentos de quem sustenta que o bispo monárquico ainda não existia em Corinto nem em Roma no fim do século I. A passagem tem sido lida como fundamento antigo da sucessão apostólica e, por outros, como retrato de uma ordem comunitária em formação, ainda sem a teoria que viria depois. O texto descreve a prática e não define a teoria.

O Apelo: Paulo Já Havia Escrito Sobre Isso

  • Daniel foi lançado na cova dos leões por gente que temia a Deus? A pergunta é retórica(1 Clemente 45:6)
  • Um só Deus, um só Cristo, um só Espírito de graça, uma só vocação(1 Clemente 46:6)
  • Segundo bloco de palavras atribuídas a Jesus, sobre o escândalo aos eleitos e a pedra de moinho(1 Clemente 46:8)
  • Ordem direta: tomai a carta do bem-aventurado apóstolo Paulo(1 Clemente 47:1)
  • Lembrança dos partidos de Paulo, Cefas e Apolo, que a carta considera falta menor que a atual(1 Clemente 47:3)
  • A vergonha pública: uma igreja antiga em sedição por causa de uma ou duas pessoas(1 Clemente 47:6)
  • A porta da justiça aberta, por onde entram os que agem sem confusão(1 Clemente 48:4)

O capítulo 47 é um dado histórico de peso: por volta do fim do século I, a igreja de Roma supõe que os coríntios têm a carta de Paulo em mãos e podem consultá-la. É uma das evidências mais antigas de circulação e autoridade prática de um escrito paulino fora do círculo original.

(1Co 1:12)

O Elogio do Amor

  • Ninguém é capaz de declarar o vínculo do amor de Deus(1 Clemente 49:2)
  • O hino ao amor, que segue de perto o vocabulário de 1 Coríntios 13 sem copiá-lo(1 Clemente 49:5)
  • Foi pelo amor que Cristo deu o seu sangue, a sua carne e a sua vida por nós(1 Clemente 49:6)
  • Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, citação que fecha o elogio do amor(1 Clemente 50:5)
O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta, é paciente em todas as coisas. Não há nada de grosseiro, nada de arrogante no amor.

1 Clemente 49:5

(1Co 13:4)

Confissão, Retirada Voluntária e Exemplos de Coragem

  • Confessar a própria transgressão em vez de endurecer o coração, como fizeram os que se rebelaram contra Moisés(1 Clemente 51:3)
  • Faraó e o seu exército submersos no Mar Vermelho por endurecimento do coração(1 Clemente 51:5)
  • Deus não precisa de nada, a não ser que os homens lhe confessem(1 Clemente 52:1)
  • Moisés pede que Deus perdoe o povo ou apague também o seu próprio nome do livro dos vivos(1 Clemente 53:4)
  • O pedido mais concreto da carta: que o causador da facção se retire voluntariamente da cidade(1 Clemente 54:2)
  • Exemplos pagãos: reis e governantes que se entregaram à morte para resgatar os concidadãos(1 Clemente 55:1)
  • Judite pede aos anciãos para sair da cidade sitiada rumo ao acampamento inimigo(1 Clemente 55:4)
  • Ester, perfeita na fé, arrisca a vida pelo jejum e pela humilhação para livrar o povo(1 Clemente 55:6)
  • A correção do Senhor apresentada como sinal de amor: ele corrige a quem ama(1 Clemente 56:4)
  • A ordem final aos sediciosos: submeter-se aos presbíteros e dobrar os joelhos do coração(1 Clemente 57:1)
  • Provérbios 1 citado como ameaça da Sabedoria contra quem não ouve a repreensão(1 Clemente 57:4)
  • Fórmula de juramento com as três figuras: vive Deus, vive o Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo(1 Clemente 58:2)

O capítulo 55 mostra o método do autor com clareza. Ele empilha exemplos de fora da Bíblia, de reis e cidadãos gregos e romanos que morreram pela cidade, ao lado de Judite e Ester, tratando todos como argumentos do mesmo tipo. Judite e Ester pertencem aos livros que católicos e ortodoxos recebem como Escritura e que protestantes e judeus classificam de outro modo, e o autor os usa sem qualquer nota distintiva. O detalhe interessa ao estudo do cânon: nesse momento a fronteira ainda não estava fixada.

A Grande Oração Final

  • Súplica para que o Criador guarde intacto o número dos eleitos contado por todo o mundo(1 Clemente 59:2)
  • Louvor ao Nome que é fonte primeira de toda a criação, com longa série de atributos divinos(1 Clemente 59:3)
  • Litania de pedidos: salvar os aflitos, levantar os caídos, alimentar os famintos, libertar os prisioneiros(1 Clemente 59:4)
  • Pedido de perdão pelas iniquidades e de que os passos sejam dirigidos em santidade(1 Clemente 60:2)
  • Oração por concórdia e paz para nós e para todos os que habitam sobre a terra(1 Clemente 60:4)
  • Oração explícita pelos governantes: que Deus lhes dê saúde, paz e estabilidade no governo(1 Clemente 61:1)
  • Doxologia que fecha a oração, dirigida a Deus por meio de Jesus Cristo, Sumo Sacerdote(1 Clemente 61:3)
Concede-lhes, portanto, ó Senhor, saúde, paz, concórdia e estabilidade, para que administrem sem falha o governo que lhes deste.

1 Clemente 61:1

A oração dos capítulos 59 a 61 costuma ser apontada como o texto litúrgico cristão contínuo mais antigo preservado por escrito. O pedido pelas autoridades civis chama atenção pelo contexto: o mesmo escrito que lembra os mártires recentes pede a Deus estabilidade e bom governo para quem detém o poder em Roma. Cabe cautela, porém, porque estes capítulos são justamente os que faltam no manuscrito grego mais antigo e só chegaram até nós pela cópia de 1056 e pelas versões antigas.

Despedida e Mensageiros

  • Resumo dos temas tratados: fé, arrependimento, amor genuíno, temperança, sobriedade e paciência(1 Clemente 62:2)
  • Pedido final de obediência ao que foi escrito e de fim da dissensão(1 Clemente 63:2)
  • Roma envia homens fiéis e prudentes como testemunhas entre as duas igrejas(1 Clemente 63:3)
  • Bênção final pedindo fé, temor, paz, paciência e sobriedade a toda alma chamada(1 Clemente 64:1)
  • Os nomes dos mensageiros: Cláudio Éfebo, Valério Bito e Fortunato, a serem devolvidos depressa(1 Clemente 65:1)
  • Doxologia de encerramento sobre a graça de Jesus Cristo(1 Clemente 65:2)

A Bíblia do Autor

A carta cita o Antigo Testamento constantemente, e quase sempre na forma grega da Septuaginta, não no texto hebraico. Isso aparece com clareza no capítulo 29, onde os limites das nações são fixados segundo o número dos anjos, leitura da tradição grega e não do Texto Massorético, e no capítulo 42, onde Isaías 60:17 aparece com bispos e diáconos, forma que não corresponde nem ao texto hebraico nem à Septuaginta que chegou até nós. Há ainda citações que não correspondem a nenhum livro conhecido, como a passagem sobre os de espírito duvidoso no capítulo 23. Isso pode indicar uso de coleções de trechos, de um livro perdido ou de memória imprecisa. Não há como decidir a partir do texto.

(Is 60:17)

Quanto ao Novo Testamento, o quadro é diferente e importa para a história do cânon. O autor cita nominalmente a carta de Paulo aos coríntios e conhece bem o vocabulário paulino. Nos capítulos 13 e 46 ele introduz palavras de Jesus com a fórmula "lembrai-vos das palavras do Senhor", e o conteúdo é próximo de Mateus e de Lucas sem coincidir exatamente com nenhum dos dois. Duas explicações são propostas: dependência de tradição oral ainda viva, ou uso de uma coleção de ditos anterior aos evangelhos como os temos. O capítulo 36 apresenta um bloco de citações e vocabulário muito próximo da carta aos Hebreus, o que sugere que essa obra já circulava em Roma.

Quase um Livro Canônico

1 Clemente foi uma das primeiras obras cristãs compostas fora do Novo Testamento e circulou amplamente. Era lida no culto de várias igrejas, prática atestada por Dionísio de Corinto no século II e por Eusébio de Cesareia no século IV. Em alguns manuscritos e listas antigas ela aparece junto aos escritos que viriam a formar o Novo Testamento. O Codex Alexandrinus, do século V, inclui 1 e 2 Clemente logo após o Apocalipse. Apesar disso, a carta não foi incorporada ao cânon definitivo. As listas que se consolidaram a partir dos séculos IV e V, no Oriente e no Ocidente, a deixaram de fora, classificando-a entre os escritos úteis para edificação, mas não entre os livros recebidos como Escritura.

Manuscritos e Tradução

Por muito tempo o texto grego era conhecido apenas pelo Codex Alexandrinus, que perdeu uma folha perto do fim e deixava incompleta justamente a grande oração final. A carta completa só foi recuperada em 1873, quando Filóteos Bryennios identificou um manuscrito grego em Constantinopla, o chamado Codex Hierosolymitanus, datado de 1056, que preservava o trecho perdido. É o mesmo códice que devolveu ao mundo o texto integral da Didaqué.

Além dos dois manuscritos gregos, há três traduções antigas que ajudam a controlar o texto. A latina sobrevive num único códice do século XI, hoje no seminário de Namur, publicado por Germain Morin em 1894, e a tradução que ele transmite é bem mais antiga que a cópia. A siríaca aparece num manuscrito de 1170, em Cambridge, que traz também o Novo Testamento harcleano. A copta, em dialeto acmímico, sobreviveu em dois papiros fragmentários, um em Berlim e outro em Estrasburgo. A tradução que serve de base aqui segue a edição de J. B. Lightfoot, publicada em 1890 e hoje em domínio público.

Importância Histórica

Para além do valor devocional, 1 Clemente interessa por quatro frentes. É um dos primeiros testemunhos externos sobre os martírios de Pedro e Paulo, situados poucas décadas antes da carta. Preserva o que costuma ser identificado como a mais antiga oração litúrgica cristã contínua, incluindo um pedido pelos governantes. Documenta o uso da Septuaginta, a circulação de uma carta paulina fora do seu destino original e a existência de ditos de Jesus em forma ainda fluida. E é uma das fontes mais citadas na discussão histórica sobre a origem do ministério ordenado, por causa da passagem que descreve os apóstolos designando sucessores. O peso dessa última passagem é interpretado de modos distintos: algumas tradições a leem como base de uma sucessão apostólica formal, outras a veem como expressão de uma ordem comunitária ainda em formação. O texto descreve a prática, mas não fixa a teoria, e as duas leituras continuam em debate.