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1 Clemente
Carta da igreja de Roma aos coríntios, c. 96 d.C., atribuída a Clemente de Roma
Autoria e Datação
A obra é uma carta enviada pela igreja de Roma à igreja de Corinto, escrita por volta de 96 d.C., no fim do reinado de Domiciano. A ocasião foi um cisma em Corinto: alguns presbíteros haviam sido depostos do cargo, e a igreja de Roma interveio para pedir a sua reintegração e o restabelecimento da ordem. O texto não traz o nome de nenhum autor individual, falando sempre em primeira pessoa do plural, em nome da comunidade romana. A tradição antiga, desde pelo menos o século II, atribuiu a redação a Clemente de Roma, figura associada à liderança da igreja na cidade. Essa atribuição é antiga e amplamente repetida, mas a carta em si permanece anônima.
A data de 96 d.C. é a mais aceita, apoiada na menção às calamidades recentes sofridas pela igreja de Roma, na referência a Pedro e Paulo como figuras da geração anterior e no testemunho patrístico. Há, porém, uma corrente minoritária que defende datação bem mais alta, nos anos 60 ou no início de 70. O argumento central é o capítulo 41, que descreve os sacrifícios do templo de Jerusalém no presente, como prática ainda em curso. Thomas J. Herron, em tese defendida na Pontifícia Universidade Gregoriana, e antes dele George Edmundson sustentaram essa leitura. A resposta usual é que o presente ali é literário, descrevendo a instituição prescrita na Lei e não a situação do momento, recurso que aparece também em Flávio Josefo e na Carta a Diogneto. O debate segue aberto, embora a datação tardia continue majoritária.
O estatuto de Clemente é debatido. A tradição católica o conta entre os primeiros bispos de Roma e lê a intervenção romana em assunto de outra igreja como sinal antigo de um primado. Historiadores de várias tradições respondem que a carta fala em nome da comunidade, não de um indivíduo, e descreve tanto Corinto quanto Roma sob um colégio de presbíteros, o que sugere que o bispo único ainda não existia ali no fim do século I. Não há consenso: o texto documenta a intervenção, mas não define o título nem a autoridade de quem a promoveu.
Como a Carta Está Organizada
A carta é longa para o padrão da literatura cristã da época, com sessenta e cinco capítulos curtos. O movimento é claro: primeiro o elogio do passado de Corinto e o diagnóstico do conflito, depois uma longa sequência de exemplos tirados das Escrituras e do mundo à volta, e só no fim o pedido concreto de reintegração dos presbíteros depostos. O autor argumenta por acúmulo: em vez de uma tese seguida de provas, ele empilha episódios bíblicos, imagens da natureza, analogias do exército e do corpo humano, e longos blocos de citação do Antigo Testamento grego. Quem lê de ponta a ponta percebe que o pedido prático ocupa uma fração pequena do texto.
Conteúdo da Carta
A Ocasião: Roma Escreve a Corinto
- Saudação: a igreja de Deus que peregrina em Roma escreve à que peregrina em Corinto — (1 Clemente 1:1)
- Roma se desculpa pela demora, atribuída a calamidades e reveses recentes, e nomeia a sedição em Corinto — (1 Clemente 1:2)
- Retrato do que Corinto era antes: submissão aos dirigentes, honra aos mais velhos, ordem doméstica — (1 Clemente 2:1)
- A comunidade que chorava pelas faltas do próximo e detestava todo cisma — (1 Clemente 2:7)
- O diagnóstico: veio a prosperidade e cumpriu-se Deuteronômio, o amado que engordou e deu coices — (1 Clemente 3:2)
- A cadeia do mal: ciúme, inveja, contenda, sedição, perseguição, guerra e cativeiro — (1 Clemente 3:3)
O Catálogo do Ciúme
- Caim e Abel abrem a galeria: a inveja produziu o assassinato de um irmão — (1 Clemente 4:7)
- Jacó foge da face de Esaú, e a galeria segue por José, Moisés, Arão e Miriã — (1 Clemente 4:9)
- Datã e Abirão descem vivos ao Hades por terem feito sedição contra Moisés, o paralelo mais direto com Corinto — (1 Clemente 4:13)
- Davi perseguido por Saul fecha os exemplos antigos — (1 Clemente 5:1)
- A virada do argumento: dos exemplos antigos aos campeões da própria geração — (1 Clemente 5:2)
Pedro, Paulo e os Mártires Recentes
- Pedro suportou muitos trabalhos, deu o seu testemunho e partiu para o lugar de glória — (1 Clemente 5:5)
- Paulo, sete vezes preso, exilado, apedrejado, pregador no Oriente e no Ocidente — (1 Clemente 5:6)
- Paulo alcança os confins mais distantes do Ocidente e dá testemunho diante dos governantes — (1 Clemente 6:1)
- Mulheres perseguidas e torturadas como Danaides e Dirces chegaram à meta da corrida da fé — (1 Clemente 6:3)
Por causa do ciúme e da contenda, Paulo, com o seu exemplo, mostrou o prêmio da perseverança paciente.
Esta é uma das testemunhas externas mais antigas sobre a morte de Pedro e Paulo. O texto não diz onde nem como cada um morreu, não menciona Nero e não descreve crucificação nem decapitação. Diz que sofreram, deram testemunho e partiram. A tradição posterior preencheu os detalhes; a carta, não. A expressão "os confins mais distantes do Ocidente" foi lida por muitos como referência a uma viagem de Paulo à Espanha, mas o autor escreve de Roma, e Roma poderia ser o limite ocidental do ponto de vista do leitor grego. As duas leituras circulam.
O Arrependimento e os Justos Antigos
- O sangue de Cristo, precioso ao Pai, conquistou para o mundo a graça do arrependimento — (1 Clemente 7:5)
- Noé pregou o arrependimento, e os que obedeceram foram salvos — (1 Clemente 7:7)
- Jonas e os ninivitas: até estrangeiros a Deus obtiveram perdão ao se arrepender — (1 Clemente 8:1)
- Enoque foi achado justo na obediência e trasladado, e a sua morte não foi encontrada — (1 Clemente 9:3)
- Abraão, chamado amigo, foi achado fiel por obedecer às palavras de Deus — (1 Clemente 10:1)
- Pela fé e pela hospitalidade Abraão recebeu um filho na velhice e o ofereceu no monte — (1 Clemente 10:7)
- A mulher de Ló, de outra mentalidade, virou coluna de sal, advertência aos de espírito duvidoso — (1 Clemente 11:2)
- Raabe, a prostituta, salva pela fé e pela hospitalidade — (1 Clemente 12:1)
- O fio escarlate pendurado na janela lido como sinal antecipado da redenção pelo sangue — (1 Clemente 12:7)
Humildade: Palavras de Jesus e o Servo Sofredor
- Bloco de ditos atribuídos a Jesus sobre misericórdia, perdão e medida, próximo dos evangelhos mas sem coincidir com nenhum deles — (1 Clemente 13:2)
- Obedecer a Deus em vez de seguir os que se estabeleceram como líderes em ciúme — (1 Clemente 14:1)
- Contra a paz fingida: este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe — (1 Clemente 15:2)
- Isaías 53 citado quase por inteiro como retrato do Senhor humilde, sem forma nem formosura — (1 Clemente 16:3)
- O Salmo 22 emendado à passagem do Servo: eu sou um verme, e não um homem — (1 Clemente 16:15)
- Elias, Eliseu e Ezequiel como imitadores vestidos de peles de cabra e de ovelha — (1 Clemente 17:1)
- Moisés, fiel em toda a casa, lembrado pela pergunta na sarça: quem sou eu, para que me envies? — (1 Clemente 17:5)
- Davi encontrado por Deus como homem segundo o seu coração — (1 Clemente 18:1)
- O Salmo 51 transcrito quase inteiro como modelo de coração contrito — (1 Clemente 18:2)
- Conclusão do bloco: voltar à meta da paz transmitida desde o princípio — (1 Clemente 19:2)
A Concórdia do Cosmo
- Os céus, movidos pela direção do Criador, lhe obedecem em paz — (1 Clemente 20:1)
- Sol, lua e os astros dançantes giram em harmonia dentro dos limites determinados — (1 Clemente 20:3)
- O oceano intransponível e os mundos que estão além dele seguem as mesmas ordenanças — (1 Clemente 20:8)
- Instrução doméstica: reverenciar os dirigentes, honrar os anciãos, instruir os jovens — (1 Clemente 21:6)
- O Salmo 34 citado como palavra do próprio Cristo por meio do Espírito Santo — (1 Clemente 22:1)
O capítulo 20 é uma das páginas mais citadas da carta. O autor descreve a ordem do universo como argumento pela ordem na igreja: se os astros, as estações e o mar obedecem sem disputa, a comunidade também deveria. O vocabulário aqui tem sabor estoico, e várias das imagens circulavam na filosofia popular greco-romana. Isso não faz do autor um estoico: ele usa o repertório disponível para um fim próprio, a submissão à ordem do Criador. A referência aos "mundos que estão além" do oceano é uma das expressões mais discutidas do texto e não tem leitura consensual.
A Ressurreição, a Fênix e o Poder do Criador
- Citação de uma escritura desconhecida contra os de espírito duvidoso, que dizem que nada se cumpriu — (1 Clemente 23:3)
- Cristo apresentado como as primícias da ressurreição futura — (1 Clemente 24:1)
- A semente que apodrece na terra e depois multiplica, tomada como sinal natural da ressurreição — (1 Clemente 24:5)
- A ave fênix da Arábia, que morre no seu caixão de especiarias e renasce do próprio apodrecimento — (1 Clemente 25:2)
- Os sacerdotes conferem os registros dos tempos e confirmam que a ave voltou no quingentésimo ano — (1 Clemente 25:5)
- A conclusão do argumento: se Deus mostra a promessa até por meio de uma ave, por que duvidar? — (1 Clemente 26:1)
- Nada é impossível para Deus, exceto mentir — (1 Clemente 27:2)
- O Salmo 139 recitado: não há para onde fugir daquele que abraça o universo — (1 Clemente 28:3)
Há uma ave chamada fênix. Esta, sendo a única da sua espécie, vive quinhentos anos; e, quando chega o tempo da sua dissolução, em que deve morrer, faz para si um caixão de incenso, mirra e outras especiarias.
A fênix é o trecho que mais desconforto causa a leitores modernos, porque o autor a trata como fato observável, apoiado em registros de sacerdotes egípcios. A lenda circulava na literatura greco-romana, aparecendo em Heródoto, Ovídio, Plínio, o Velho, e Tácito, e nem todos esses autores a endossavam. Duas leituras convivem: alguns entendem que o autor cria na existência do animal, seguindo a informação disponível na sua época; outros entendem que ele usa a história como ilustração retórica corrente, sem compromisso com a zoologia. O texto em si não resolve a questão. Vale registrar que ele não deduz a ressurreição da fênix, mas a usa como argumento a fortiori, do menor para o maior.
Fé, Obras e a Grandeza do Criador
- Deuteronômio 32 citado na forma grega: os limites das nações fixados segundo o número dos anjos de Deus — (1 Clemente 29:2)
- Deus resiste aos soberbos e dá graça aos humildes, provérbio também citado em Tiago e em 1 Pedro — (1 Clemente 30:2)
- Abraão abençoado por praticar a justiça e a verdade por meio da fé — (1 Clemente 31:2)
- Ninguém é justificado por si mesmo, pela própria sabedoria ou pelas próprias obras, mas pela fé — (1 Clemente 32:4)
- Contrapeso imediato: não abandonar as boas obras, mas realizá-las com zelo — (1 Clemente 33:1)
- O homem formado à imagem de Deus como a mais excelente das obras da criação — (1 Clemente 33:4)
- A multidão dos anjos e o Santo, santo, santo de Isaías na liturgia mais antiga preservada — (1 Clemente 34:6)
- Nem olho viu nem ouvido ouviu: a mesma citação enigmática que Paulo faz aos coríntios — (1 Clemente 34:8)
- Catálogo de vícios a serem lançados fora, incluindo a falta de hospitalidade — (1 Clemente 35:5)
- Jesus Cristo chamado Sumo Sacerdote das nossas ofertas, Guardião e Auxiliador da fraqueza — (1 Clemente 36:1)
A sequência dos capítulos 32 e 33 é uma das mais discutidas da carta. O autor afirma que ninguém é justificado por si mesmo, mas pela fé, e imediatamente pergunta se então se deve abandonar as boas obras, respondendo que não. Leitores protestantes veem ali uma continuidade com Paulo; leitores católicos e ortodoxos veem a fé e as obras mantidas juntas desde o início. O texto sustenta as duas leituras porque não está resolvendo uma polêmica doutrinária, e sim pedindo que os coríntios ajam. A pergunta que ele responde é prática, não sistemática.
O Exército, o Corpo e a Ordem
- A analogia militar romana: cada soldado executa a ordem na sua própria posição — (1 Clemente 37:3)
- A cabeça sem os pés nada é, e os menores membros são necessários ao corpo inteiro — (1 Clemente 37:5)
- Aplicação: que o forte não despreze o fraco, e que o rico socorra o pobre — (1 Clemente 38:2)
- Longa citação do livro de Jó sobre a pequenez do mortal diante de Deus — (1 Clemente 39:4)
A cabeça sem os pés nada é; assim também os pés sem a cabeça nada são; até os menores membros do nosso corpo são necessários e úteis para o corpo inteiro.
A Ordem do Culto e a Sucessão dos Ministros
- Tudo deve ser feito em ordem, nos tempos e nas épocas determinadas pelo Senhor — (1 Clemente 40:1)
- Sumo sacerdote, sacerdotes, levitas e leigo: cada ordem vinculada aos seus próprios preceitos — (1 Clemente 40:5)
- Os sacrifícios descritos como oferecidos somente em Jerusalém, passagem central no debate sobre a data da carta — (1 Clemente 41:2)
- A cadeia de envio: Deus enviou Cristo, Cristo enviou os apóstolos, na ordem estabelecida — (1 Clemente 42:1)
- Os apóstolos designaram os seus primeiros frutos como bispos e diáconos, provados pelo Espírito — (1 Clemente 42:4)
- Isaías 60:17 citado numa forma que traz bispos e diáconos, diferente do hebraico e da Septuaginta conhecida — (1 Clemente 42:5)
- A inveja pelo sacerdócio e as doze varas seladas no tabernáculo, precedente contra a disputa pelo ofício — (1 Clemente 43:2)
- Os apóstolos previram a contenda sobre o ofício e estabeleceram que homens aprovados sucedessem no ministério — (1 Clemente 44:2)
- Depor presbíteros que serviram de modo irrepreensível é declarado pecado não pequeno — (1 Clemente 44:3)
- A acusação direta: vós destituístes pessoas que viviam honradamente — (1 Clemente 44:5)
Pois não será pequeno pecado para nós, se expulsarmos do ofício do bispo aqueles que ofereceram os dons de modo irrepreensível e santo.
Nos capítulos 42 a 44 está o material mais debatido da carta. Note que os termos bispo e presbítero aparecem aplicados às mesmas pessoas, sem distinção de grau: os depostos são chamados presbíteros no capítulo 44 e o ofício em disputa é chamado episcopado. Esse uso intercambiável é um dos principais argumentos de quem sustenta que o bispo monárquico ainda não existia em Corinto nem em Roma no fim do século I. A passagem tem sido lida como fundamento antigo da sucessão apostólica e, por outros, como retrato de uma ordem comunitária em formação, ainda sem a teoria que viria depois. O texto descreve a prática e não define a teoria.
O Apelo: Paulo Já Havia Escrito Sobre Isso
- Daniel foi lançado na cova dos leões por gente que temia a Deus? A pergunta é retórica — (1 Clemente 45:6)
- Um só Deus, um só Cristo, um só Espírito de graça, uma só vocação — (1 Clemente 46:6)
- Segundo bloco de palavras atribuídas a Jesus, sobre o escândalo aos eleitos e a pedra de moinho — (1 Clemente 46:8)
- Ordem direta: tomai a carta do bem-aventurado apóstolo Paulo — (1 Clemente 47:1)
- Lembrança dos partidos de Paulo, Cefas e Apolo, que a carta considera falta menor que a atual — (1 Clemente 47:3)
- A vergonha pública: uma igreja antiga em sedição por causa de uma ou duas pessoas — (1 Clemente 47:6)
- A porta da justiça aberta, por onde entram os que agem sem confusão — (1 Clemente 48:4)
O capítulo 47 é um dado histórico de peso: por volta do fim do século I, a igreja de Roma supõe que os coríntios têm a carta de Paulo em mãos e podem consultá-la. É uma das evidências mais antigas de circulação e autoridade prática de um escrito paulino fora do círculo original.
O Elogio do Amor
- Ninguém é capaz de declarar o vínculo do amor de Deus — (1 Clemente 49:2)
- O hino ao amor, que segue de perto o vocabulário de 1 Coríntios 13 sem copiá-lo — (1 Clemente 49:5)
- Foi pelo amor que Cristo deu o seu sangue, a sua carne e a sua vida por nós — (1 Clemente 49:6)
- Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, citação que fecha o elogio do amor — (1 Clemente 50:5)
O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta, é paciente em todas as coisas. Não há nada de grosseiro, nada de arrogante no amor.
Confissão, Retirada Voluntária e Exemplos de Coragem
- Confessar a própria transgressão em vez de endurecer o coração, como fizeram os que se rebelaram contra Moisés — (1 Clemente 51:3)
- Faraó e o seu exército submersos no Mar Vermelho por endurecimento do coração — (1 Clemente 51:5)
- Deus não precisa de nada, a não ser que os homens lhe confessem — (1 Clemente 52:1)
- Moisés pede que Deus perdoe o povo ou apague também o seu próprio nome do livro dos vivos — (1 Clemente 53:4)
- O pedido mais concreto da carta: que o causador da facção se retire voluntariamente da cidade — (1 Clemente 54:2)
- Exemplos pagãos: reis e governantes que se entregaram à morte para resgatar os concidadãos — (1 Clemente 55:1)
- Judite pede aos anciãos para sair da cidade sitiada rumo ao acampamento inimigo — (1 Clemente 55:4)
- Ester, perfeita na fé, arrisca a vida pelo jejum e pela humilhação para livrar o povo — (1 Clemente 55:6)
- A correção do Senhor apresentada como sinal de amor: ele corrige a quem ama — (1 Clemente 56:4)
- A ordem final aos sediciosos: submeter-se aos presbíteros e dobrar os joelhos do coração — (1 Clemente 57:1)
- Provérbios 1 citado como ameaça da Sabedoria contra quem não ouve a repreensão — (1 Clemente 57:4)
- Fórmula de juramento com as três figuras: vive Deus, vive o Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo — (1 Clemente 58:2)
O capítulo 55 mostra o método do autor com clareza. Ele empilha exemplos de fora da Bíblia, de reis e cidadãos gregos e romanos que morreram pela cidade, ao lado de Judite e Ester, tratando todos como argumentos do mesmo tipo. Judite e Ester pertencem aos livros que católicos e ortodoxos recebem como Escritura e que protestantes e judeus classificam de outro modo, e o autor os usa sem qualquer nota distintiva. O detalhe interessa ao estudo do cânon: nesse momento a fronteira ainda não estava fixada.
A Grande Oração Final
- Súplica para que o Criador guarde intacto o número dos eleitos contado por todo o mundo — (1 Clemente 59:2)
- Louvor ao Nome que é fonte primeira de toda a criação, com longa série de atributos divinos — (1 Clemente 59:3)
- Litania de pedidos: salvar os aflitos, levantar os caídos, alimentar os famintos, libertar os prisioneiros — (1 Clemente 59:4)
- Pedido de perdão pelas iniquidades e de que os passos sejam dirigidos em santidade — (1 Clemente 60:2)
- Oração por concórdia e paz para nós e para todos os que habitam sobre a terra — (1 Clemente 60:4)
- Oração explícita pelos governantes: que Deus lhes dê saúde, paz e estabilidade no governo — (1 Clemente 61:1)
- Doxologia que fecha a oração, dirigida a Deus por meio de Jesus Cristo, Sumo Sacerdote — (1 Clemente 61:3)
Concede-lhes, portanto, ó Senhor, saúde, paz, concórdia e estabilidade, para que administrem sem falha o governo que lhes deste.
A oração dos capítulos 59 a 61 costuma ser apontada como o texto litúrgico cristão contínuo mais antigo preservado por escrito. O pedido pelas autoridades civis chama atenção pelo contexto: o mesmo escrito que lembra os mártires recentes pede a Deus estabilidade e bom governo para quem detém o poder em Roma. Cabe cautela, porém, porque estes capítulos são justamente os que faltam no manuscrito grego mais antigo e só chegaram até nós pela cópia de 1056 e pelas versões antigas.
Despedida e Mensageiros
- Resumo dos temas tratados: fé, arrependimento, amor genuíno, temperança, sobriedade e paciência — (1 Clemente 62:2)
- Pedido final de obediência ao que foi escrito e de fim da dissensão — (1 Clemente 63:2)
- Roma envia homens fiéis e prudentes como testemunhas entre as duas igrejas — (1 Clemente 63:3)
- Bênção final pedindo fé, temor, paz, paciência e sobriedade a toda alma chamada — (1 Clemente 64:1)
- Os nomes dos mensageiros: Cláudio Éfebo, Valério Bito e Fortunato, a serem devolvidos depressa — (1 Clemente 65:1)
- Doxologia de encerramento sobre a graça de Jesus Cristo — (1 Clemente 65:2)
A Bíblia do Autor
A carta cita o Antigo Testamento constantemente, e quase sempre na forma grega da Septuaginta, não no texto hebraico. Isso aparece com clareza no capítulo 29, onde os limites das nações são fixados segundo o número dos anjos, leitura da tradição grega e não do Texto Massorético, e no capítulo 42, onde Isaías 60:17 aparece com bispos e diáconos, forma que não corresponde nem ao texto hebraico nem à Septuaginta que chegou até nós. Há ainda citações que não correspondem a nenhum livro conhecido, como a passagem sobre os de espírito duvidoso no capítulo 23. Isso pode indicar uso de coleções de trechos, de um livro perdido ou de memória imprecisa. Não há como decidir a partir do texto.
Quanto ao Novo Testamento, o quadro é diferente e importa para a história do cânon. O autor cita nominalmente a carta de Paulo aos coríntios e conhece bem o vocabulário paulino. Nos capítulos 13 e 46 ele introduz palavras de Jesus com a fórmula "lembrai-vos das palavras do Senhor", e o conteúdo é próximo de Mateus e de Lucas sem coincidir exatamente com nenhum dos dois. Duas explicações são propostas: dependência de tradição oral ainda viva, ou uso de uma coleção de ditos anterior aos evangelhos como os temos. O capítulo 36 apresenta um bloco de citações e vocabulário muito próximo da carta aos Hebreus, o que sugere que essa obra já circulava em Roma.
Quase um Livro Canônico
1 Clemente foi uma das primeiras obras cristãs compostas fora do Novo Testamento e circulou amplamente. Era lida no culto de várias igrejas, prática atestada por Dionísio de Corinto no século II e por Eusébio de Cesareia no século IV. Em alguns manuscritos e listas antigas ela aparece junto aos escritos que viriam a formar o Novo Testamento. O Codex Alexandrinus, do século V, inclui 1 e 2 Clemente logo após o Apocalipse. Apesar disso, a carta não foi incorporada ao cânon definitivo. As listas que se consolidaram a partir dos séculos IV e V, no Oriente e no Ocidente, a deixaram de fora, classificando-a entre os escritos úteis para edificação, mas não entre os livros recebidos como Escritura.
Manuscritos e Tradução
Por muito tempo o texto grego era conhecido apenas pelo Codex Alexandrinus, que perdeu uma folha perto do fim e deixava incompleta justamente a grande oração final. A carta completa só foi recuperada em 1873, quando Filóteos Bryennios identificou um manuscrito grego em Constantinopla, o chamado Codex Hierosolymitanus, datado de 1056, que preservava o trecho perdido. É o mesmo códice que devolveu ao mundo o texto integral da Didaqué.
Além dos dois manuscritos gregos, há três traduções antigas que ajudam a controlar o texto. A latina sobrevive num único códice do século XI, hoje no seminário de Namur, publicado por Germain Morin em 1894, e a tradução que ele transmite é bem mais antiga que a cópia. A siríaca aparece num manuscrito de 1170, em Cambridge, que traz também o Novo Testamento harcleano. A copta, em dialeto acmímico, sobreviveu em dois papiros fragmentários, um em Berlim e outro em Estrasburgo. A tradução que serve de base aqui segue a edição de J. B. Lightfoot, publicada em 1890 e hoje em domínio público.
Importância Histórica
Para além do valor devocional, 1 Clemente interessa por quatro frentes. É um dos primeiros testemunhos externos sobre os martírios de Pedro e Paulo, situados poucas décadas antes da carta. Preserva o que costuma ser identificado como a mais antiga oração litúrgica cristã contínua, incluindo um pedido pelos governantes. Documenta o uso da Septuaginta, a circulação de uma carta paulina fora do seu destino original e a existência de ditos de Jesus em forma ainda fluida. E é uma das fontes mais citadas na discussão histórica sobre a origem do ministério ordenado, por causa da passagem que descreve os apóstolos designando sucessores. O peso dessa última passagem é interpretado de modos distintos: algumas tradições a leem como base de uma sucessão apostólica formal, outras a veem como expressão de uma ordem comunitária ainda em formação. O texto descreve a prática, mas não fixa a teoria, e as duas leituras continuam em debate.