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Contra Celso - Livro VI
O Livro VI na Obra
O Livro VI continua a resposta de Orígenes ao tratado anticristão de Celso, um filósofo pagão, provavelmente platônico médio, cuja obra O Discurso Verdadeiro é datada por volta de 170 a 180 d.C. Orígenes escreveu sua refutação por volta de 248 d.C., a pedido de seu patrono Ambrósio. Como o texto de Celso só sobreviveu nas citações que Orígenes faz dele, esta obra é a principal fonte para reconstruir o ataque pagão original. O fio condutor deste livro é a filosofia grega: Celso acusa os cristãos de terem plagiado Platão e de terem dito pior aquilo que os gregos já haviam dito melhor.
Orígenes não nega que a filosofia grega contenha verdade. Sua estratégia é outra: admite que certas frases de Platão são nobres, mas argumenta que a linguagem simples das Escrituras alcança e transforma mais gente, e que os profetas hebreus são anteriores a Platão, logo não puderam copiá-lo. Da metade do livro em diante, o foco muda. Orígenes passa a distinguir o cristianismo das seitas gnósticas, sobretudo dos ofitas, e descreve o diagrama ritual deles, com seus arcontes e nomes mágicos, para insistir que tais grupos não são cristãos. O livro fecha com a queda de Satanás e um esboço da profecia do Anticristo.
Conteúdo do Livro
- A acusação de que os cristãos copiaram Platão e a defesa da linguagem simples das Escrituras — (Contra Celso - Livro VI 1:1)
- A carta de Platão sobre o bem que irrompe na alma, lida pela lente de Romanos 1 — (Contra Celso - Livro VI 1:3)
- Os prodígios atribuídos a Platão e Pitágoras: paridade contra a zombaria dos milagres — (Contra Celso - Livro VI 1:8)
- Duas sabedorias: a humana, loucura diante de Deus, e a divina como dom — (Contra Celso - Livro VI 2:13)
- Os ofitas, seita gnóstica, distinguidos do cristianismo — (Contra Celso - Livro VI 3:23)
- Os nomes do diagrama ofita: arcontes com forma animal e nomes mágicos — (Contra Celso - Livro VI 4:30)
- Celso deriva Satanás de Ferécides e Homero; a queda do adversário — (Contra Celso - Livro VI 5:42)
- Isaías e Ezequiel lidos como a queda de Satanás, que perdeu as asas — (Contra Celso - Livro VI 5:44)
- A profecia do Anticristo, esboçada a partir de Daniel, Paulo e os Evangelhos — (Contra Celso - Livro VI 5:45)
- A objeção final: por que Deus enviou o Filho a homens que o matariam — (Contra Celso - Livro VI 9:81)
Platonismo Médio e a Acusação de Plágio
A primeira metade do livro é um confronto direto com o platonismo da época. Celso alinha passagens de Platão, principalmente das Cartas e do Fedro, ao lado de textos bíblicos para sugerir que os cristãos apenas repetiram, de modo grosseiro, o que os filósofos já haviam formulado. Orígenes responde com o argumento cronológico, comum na apologética cristã e judaica, e com uma reviravolta: enquanto Celso quer derivar do grego tudo o que há de valor no cristianismo, o filósofo pagão Numênio de Apameia, quase contemporâneo, dizia o inverso de forma célebre, que Platão seria "Moisés falando ático". O concordismo circulava nos dois sentidos. Convém notar que a autenticidade da Sétima Carta de Platão, que Orígenes cita, é debatida entre estudiosos até hoje.
O Diagrama dos Ofitas e a Distinção da Gnose
A parte mais singular do livro é a descrição do diagrama dos ofitas, uma seita gnóstica que tomava o partido da serpente do Gênesis e revertia a leitura tradicional da queda. Orígenes afirma ter visto o objeto pessoalmente, o que torna seu relato uma testemunha rara da arte ritual gnóstica. Ele registra os sete arcontes com forma animal, os nomes divinos hebraicos deformados em fórmulas mágicas, e as senhas que o iniciado recitava ao subir pelas esferas. Como o diagrama é conhecido quase só por esta obra, e Celso e Orígenes o descrevem de modos diferentes, sua reconstrução permanece incerta entre os estudiosos. O ponto de Orígenes é polêmico: ele insiste que os ofitas até amaldiçoam Jesus e nada têm a ver com a Igreja, acusando Celso de imputar ao cristianismo doutrinas de um grupo marginal que a própria Igreja rejeitava.
“A ‘seita insignificantíssima’ a que se atribui o diagrama nada tem a ver com os cristãos.”Orígenes, Contra Celso - Livro VI 3:23
Relevância para o Cristão de Hoje
O Livro VI mostra um cristianismo do século III negociando sua identidade em dois flancos ao mesmo tempo: para fora, contra a alta cultura filosófica pagã que o acusava de ser uma cópia tosca de Platão; para dentro, contra as correntes gnósticas que um observador externo como Celso confundia com a Igreja. Para o leitor de hoje, é um documento de como a distinção entre cristianismo e gnose foi traçada na prática. Convém manter a distância crítica: a leitura de Isaías e Ezequiel como descrições veladas da queda de Satanás, ou a identificação da "abominação" de Daniel com o Anticristo, tornou-se tradicional no cristianismo, mas a exegese histórico-crítica entende esses textos como dirigidos a reis humanos reais, sem referência a um anjo caído. Algumas formulações do próprio Orígenes sobre o Filho e sobre a purificação final das almas seriam mais tarde consideradas heterodoxas.