Contra Celso - Livro VI 5

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Em seguida, falando dos que empregam as artes da magia e da feitiçaria, e que invocam os nomes bárbaros dos demônios, ele observa que tais pessoas agem como aqueles que, em relação às mesmas coisas, realizam maravilhas diante dos que ignoram que os nomes dos demônios entre os gregos são diferentes do que são entre os citas. Ele então cita uma passagem de Heródoto, afirmando que Apolo é chamado Gongosiro pelos citas; Poseidon, Tagimasada; Afrodite, Argimpasa; Héstia, Tabiti. Ora, quem tem capacidade pode indagar se nessas matérias Celso e Heródoto não estão ambos errados; pois os citas não entendem a mesma coisa que os gregos, no que se refere àqueles seres que são tidos por deuses. Pois como é crível que Apolo seja chamado Gongosiro pelos citas? Não suponho que Gongosiro, transposto para a língua grega, a mesma etimologia que Apolo; ou que Apolo, no dialeto dos citas, tenha o significado de Gongosiro. Tampouco se fez até agora qualquer afirmação semelhante a respeito dos outros nomes, pois os gregos tomaram ocasião de diferentes circunstâncias e etimologias para dar àqueles que por eles são tidos por deuses os nomes que carregam; e os citas, de novo, de outro conjunto de circunstâncias; e o mesmo também se deu com os persas, ou índios, ou etíopes, ou líbios, ou com os que se comprazem em conferir nomes (por fantasia), e que não se atêm à ideia justa e pura do Criador de todas as coisas. dissemos o bastante, contudo, nas páginas precedentes, onde quisemos demonstrar que Sabaoth e Zeus não eram a mesma divindade, e onde também fizemos algumas observações, tiradas das sagradas Escrituras, sobre os diferentes dialetos. De bom grado, então, passamos por cima desses pontos, sobre os quais Celso nos faria repetir. Em seguida, de novo, misturando matérias que pertencem à magia e à feitiçaria, e referindo-as talvez a ninguém, por causa da inexistência de qualquer um que pratique magia sob o pretexto de um culto desse tipo, e ainda assim, talvez, tendo em vista alguns que de fato empregam tais práticas diante dos simples (para terem a aparência de agir por poder divino), ele acrescenta: Que necessidade de enumerar todos os que ensinaram métodos de purificação, ou hinos expiatórios, ou encantamentos para afastar o mal, ou (a feitura de) imagens, ou semelhanças de demônios, ou as várias espécies de antídotos contra veneno (que se acham) em roupas, ou em números, ou pedras, ou plantas, ou raízes, ou em geral em toda sorte de coisas? A respeito dessas matérias, a razão não nos exige oferecer defesa alguma, que não estamos sujeitos no mínimo grau a suspeitas dessa natureza.
Depois disto, Celso me parece agir como aqueles que, em seu intenso ódio aos cristãos, sustentam, na presença dos que são totalmente ignorantes da cristã, que verificaram de fato que os cristãos devoram a carne de crianças, e se entregam sem restrição às relações sexuais com suas mulheres. Ora, assim como essas afirmações foram condenadas como falsidades inventadas contra os cristãos, e essa admissão feita pela multidão e pelos que são totalmente alheios à nossa fé, assim também as seguintes afirmações de Celso seriam constatadas como calúnias inventadas contra os cristãos, quando ele diz ter visto nas mãos de certos presbíteros pertencentes à nossa livros bárbaros, contendo os nomes e os feitos prodigiosos dos demônios; afirmando ainda que esses presbíteros de nossa professavam não fazer bem algum, mas tudo o que pudesse prejudicar os seres humanos. Quem dera, de fato, que tudo o que Celso diz contra os cristãos fosse de tal natureza que pudesse ser refutado pela multidão, que verificou pela experiência que tais coisas são falsas, visto que a maioria deles viveu como vizinhos dos cristãos, e nem sequer ouviu falar da existência de quaisquer dessas alegadas práticas!
Em seguida, como se tivesse esquecido que seu objetivo era escrever contra os cristãos, ele conta que, tendo travado conhecimento com um certo Dionísio, um músico egípcio, este lhe disse, a respeito das artes mágicas, que elas tinham poder sobre os incultos e os homens de costumes corrompidos, mas que sobre os filósofos não conseguiam produzir efeito algum, porque estes tinham o cuidado de manter um modo de vida saudável. Se nosso propósito fosse tratar de magia, poderíamos acrescentar algumas observações ao que dissemos sobre o tema. Mas como nos cabe notar os assuntos mais importantes em resposta a Celso, diremos a respeito da magia que qualquer um que queira investigar se algum dia os filósofos foram cativados por ela ou não pode ler o que Moirágenes escreveu sobre as memórias do mágico e filósofo Apolônio de Tiana. Nesse texto, esse homem, que não é cristão, mas filósofo, afirma que alguns filósofos de não pouca renome foram conquistados pelo poder mágico que Apolônio possuía e o procuraram como feiticeiro. Entre eles, creio, ele mencionou especialmente Eufrates e um certo epicurista. Nós, por outro lado, afirmamos, e aprendemos pela experiência, que aqueles que adoram o Deus de todas as coisas em conformidade com o cristianismo que vem por Jesus, e que vivem segundo o seu Evangelho, usando dia e noite, de modo contínuo e digno, as orações prescritas, não são arrastados nem pela magia nem pelos demônios. Pois, na verdade, o anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem e os livra de todo mal. E os anjos dos pequeninos na Igreja, que são designados para velar por eles, dizem que contemplam sempre a face do seu Pai que está nos céus, qualquer que seja o sentido de face ou de contemplar.
Depois disso, Celso levanta contra nós, de outro ângulo, as seguintes acusações: certos erros profundamente ímpios, diz ele, são cometidos por eles, por causa de sua extrema ignorância, na qual se afastaram do sentido dos enigmas divinos, criando um adversário de Deus, o diabo, e dando-lhe na língua hebraica o nome de Satanás. Ora, na verdade, tais afirmações são totalmente de invenção mortal, e nem mesmo dignas de ser repetidas, a saber, que o Deus poderoso, em seu desejo de conferir o bem aos homens, tenha contudo alguém trabalhando contra ele, e esteja impotente. Segue-se, então, que o Filho de Deus é vencido pelo diabo. E, sendo punido por ele, ensina-nos também a desprezar os castigos que ele inflige, anunciando-nos de antemão que Satanás, depois de aparecer aos homens como ele mesmo havia feito, exibirá obras grandes e maravilhosas, reivindicando para si a glória de Deus, mas que os que desejam mantê-lo à distância não devem dar atenção a essas obras de Satanás, e sim depositar a somente nele. Tais afirmações são manifestamente as palavras de um enganador, que planeja e manobra contra os que se opõem às suas ideias e se colocam contra elas. Em seguida, querendo apontar os enigmas a respeito dos quais nossos equívocos levam à introdução de nossas ideias sobre Satanás, ele continua: os antigos aludem de modo obscuro a uma certa guerra entre os deuses, falando Heráclito dela assim: "Se é preciso dizer que uma guerra e discórdia gerais, e que todas as coisas se fazem e se administram em conflito." Ferécides, por sua vez, que é muito mais antigo do que Heráclito, narra um mito de um exército posto em ordem de batalha contra outro, e nomeia Crono como o líder de um e Ofioneu o do outro, e relata seus desafios e lutas, e menciona que se firmaram acordos entre eles, no sentido de que o lado que caísse no oceano seria tido como vencido, enquanto os que os tivessem expulsado e vencido teriam a posse do céu. Os mistérios relativos aos Titãs e aos Gigantes também tinham algum sentido (simbólico) semelhante, assim como os mistérios egípcios de Tífon, e de Hórus, e de Osíris. Depois de fazer tais afirmações, e sem ter superado a dificuldade quanto à maneira pela qual esses relatos contêm uma visão mais elevada das coisas, enquanto os nossos seriam cópias erradas deles, ele continua a nos insultar, observando que esses relatos não se parecem com as histórias que se contam de um diabo, ou demônio, ou, como ele observa com mais verdade, de um homem que é um impostor, que deseja estabelecer uma doutrina contrária. E do mesmo modo ele interpreta Homero, como se este se referisse de modo obscuro a coisas semelhantes às mencionadas por Heráclito, e Ferécides, e os criadores dos mistérios sobre os Titãs e Gigantes, naquelas palavras que Hefesto dirige a Hera assim: "Certa vez, por tua causa, senti sua força incomparável, lançado de cabeça para baixo da altura etérea." E naquelas de Zeus a Hera: "Esqueceste de quando, amarrada e presa no alto, do vasto côncavo do céu cravejado de estrelas, te suspendi tremendo numa corrente de ouro, e todos os deuses furiosos se opuseram em vão? De cabeça os lancei do salão olímpico, atordoados no turbilhão e sem fôlego na queda." Interpretando, além disso, as palavras de Homero, ele acrescenta: as palavras de Zeus dirigidas a Hera são as palavras de Deus dirigidas à matéria. E as palavras dirigidas à matéria significam de modo obscuro que a matéria, que no princípio estava em estado de discórdia (com Deus), foi por ele tomada, ligada e ordenada sob leis, que podem ser comparadas analogicamente a correntes. E que, para castigar os demônios que criam desordem nela, ele os lança de cabeça para este mundo inferior. Essas palavras de Homero, alega ele, foram assim entendidas por Ferécides, quando disse que abaixo dessa região está a região do Tártaro, que é guardada pelas Harpias e pela Tempestade, filhas de Bóreas, e para a qual Zeus bane qualquer um dos deuses que se torne desordeiro. Com as mesmas ideias também está estreitamente ligado o peplo de Atena, que é visto por todos na procissão das Panateneias. Pois fica manifesto a partir disso, continua ele, que um demônio sem mãe e imaculado tem o domínio sobre a ousadia dos Gigantes. Aceitando, além disso, as ficções dos gregos, ele continua a amontoar contra nós acusações como as seguintes, a saber, que o Filho de Deus é punido pelo diabo, e nos ensina que nós também, quando punidos por ele, devemos suportá-lo. Ora, essas afirmações são totalmente ridículas. Pois é o diabo, penso eu, quem deveria antes ser punido, e os seres humanos por ele caluniados não deveriam ser ameaçados de castigo.
Observe agora se aquele que nos acusa de ter cometido erros do tipo mais ímpio, e de termos nos afastado do (verdadeiro sentido) dos enigmas divinos, não está ele mesmo claramente em erro, por não notar que nos escritos de Moisés, que são muito mais antigos não do que Heráclito e Ferécides, mas até do que Homero, faz-se menção desse ser maligno e de sua queda do céu. Pois a serpente (de quem deriva o Ofioneu mencionado por Ferécides), tendo se tornado a causa da expulsão do homem do Paraíso divino, prefigura de modo obscuro algo semelhante, tendo enganado a mulher com a promessa de divindade e de bens maiores. E diz-se que o homem também seguiu o exemplo dela. E, além disso, quem mais poderia ser o anjo destruidor mencionado no Êxodo de Moisés senão aquele que foi o autor da destruição para os que lhe obedeceram e não resistiram às suas obras malignas, nem lutaram contra elas? Além disso, (o bode) que no livro de Levítico é enviado (para o deserto), e que na língua hebraica é chamado Azazel, não era outro senão este. E era preciso enviá-lo para o deserto e tratá-lo como sacrifício expiatório, porque sobre ele caiu a sorte. Pois todos os que pertencem à parte pior, por causa de sua maldade, estando opostos aos que são a herança de Deus, são abandonados por Deus. E mais, a respeito dos filhos de Belial no livro de Juízes, de quem se diz que são filhos, senão dele, por causa de sua maldade? E, além de todos esses casos, no livro de Jó, que é mais antigo até do que o próprio Moisés, o diabo é descrito de modo nítido apresentando-se diante de Deus e pedindo poder contra Jó, para envolvê-lo em provações do tipo mais doloroso. A primeira delas consistiu na perda de todos os seus bens e de seus filhos, e a segunda em afligir todo o corpo de com a chamada doença da elefantíase. Deixo de lado o que poderia ser citado dos Evangelhos a respeito do diabo que tentou o Salvador, para não parecer que respondo a Celso citando escritos mais recentes sobre essa questão. No último (capítulo) de também, no qual o Senhor declara a Jó, em meio à tempestade e às nuvens, o que está registrado no livro que leva o seu nome, não poucas coisas que se referem à serpente. Ainda não mencionei as passagens de Ezequiel, onde ele fala, por assim dizer, de Faraó, ou de Nabucodonosor, ou do príncipe de Tiro. Nem as de Isaías, onde se faz lamento pelo rei da Babilônia, das quais não pouco se poderia aprender a respeito do mal, quanto à natureza de sua origem e geração, e quanto a como ele veio a existir a partir de alguns que tinham perdido as asas e que tinham seguido aquele que foi o primeiro a perder as suas.
Pois é impossível que o bem resultante de acaso, ou de comunicação, seja como aquele bem que vem por natureza. E, no entanto, o primeiro nunca será perdido por aquele que, por assim dizer, partilha do pão vivo com vistas à sua própria preservação. Mas se ele faltar a alguém, será por culpa do próprio, por ser preguiçoso em partilhar desse pão vivo e dessa bebida genuína, por meio dos quais as asas, nutridas e regadas, ficam aptas ao seu propósito, segundo o dito de Salomão, o mais sábio dos homens, a respeito do homem verdadeiramente rico, que ele fez para si asas como de águia e volta para a casa do seu senhor. Pois convinha a Deus, que sabe aproveitar de modo adequado até aqueles que em sua maldade apostataram dele, colocar maldade desse tipo em alguma parte do universo, e designar uma escola de treinamento da virtude, na qual devem exercitar-se os que desejarem recuperar de modo lícito a posse (que haviam perdido). E isso para que, sendo provados, como o ouro no fogo, pela maldade desses, e tendo se esforçado ao máximo para impedir que algo vil prejudicasse sua natureza racional, apareçam dignos de uma ascensão às coisas divinas, e sejam elevados pelo Verbo à bem-aventurança que está acima de todas as coisas, e, por assim dizer, ao próprio cume da bondade. Ora, aquele que na língua hebraica é chamado Satanás, e por alguns Satanas (por estar mais em conformidade com o gênio da língua grega), significa, quando traduzido para o grego, adversário. Mas todo aquele que prefere o vício e a vida viciosa é (porque age de modo contrário à virtude) Satanas, isto é, um adversário do Filho de Deus, que é justiça, e verdade, e sabedoria. Com mais propriedade, no entanto, é chamado adversário aquele que foi o primeiro, entre os que viviam uma vida pacífica e feliz, a perder as asas e a cair da bem-aventurança. Aquele que, segundo Ezequiel, andou sem falha em todos os seus caminhos, até que a iniquidade foi encontrada nele, e que, sendo o selo da semelhança e a coroa da beleza no paraíso de Deus, estando como que repleto de bens, caiu na destruição, conforme a palavra que lhe foi dita em sentido místico: "Caíste na destruição e não permanecerás para sempre." Aventuramo-nos de modo algo precipitado a fazer estas poucas observações, embora ao fazê-lo nada de importante tenhamos acrescentado a este tratado. Se alguém, no entanto, que tenha tempo para o exame dos escritos sagrados, reunir de todas as fontes e formar num corpo de doutrina o que está registrado a respeito da origem do mal e do modo de sua dissolução, verá que as visões de Moisés e dos profetas a respeito de Satanás nem sequer haviam sido sonhadas por Celso ou por qualquer um daqueles cuja alma foi arrastada para baixo, e arrancada de Deus, e das retas visões a respeito dele, e da sua palavra, por esse demônio maligno.
Mas como Celso rejeita as afirmações a respeito do que se chama Anticristo, não tendo lido nem o que se diz dele no livro de Daniel, nem nos escritos de Paulo, nem o que o Salvador nos Evangelhos predisse sobre a vinda dele, devemos fazer também algumas observações sobre esse assunto. Pois, assim como rostos não se parecem com rostos, também os corações dos homens não se parecem uns com os outros. É certo, então, que haverá diversidades entre os corações dos homens. Os que são inclinados à virtude não são todos moldados e formados para ela na mesma medida ou em medida semelhante, enquanto outros, por negligência da virtude, lançam-se ao extremo oposto. E entre estes alguns nos quais o mal está profundamente arraigado, e outros nos quais está menos profundamente enraizado. Onde está, então, o absurdo em sustentar que existem entre os homens, por assim dizer, dois extremos: um da virtude, e o outro do seu oposto? De modo que a perfeição da virtude habita no homem que realiza o ideal dado em Jesus, do qual fluiu para a raça humana uma conversão, e cura, e melhora tão grandes, enquanto o extremo oposto está no homem que encarna a noção daquele que se chama Anticristo. Pois Deus, abrangendo todas as coisas por meio da sua presciência, e prevendo quais consequências resultariam de ambos esses extremos, quis torná-los conhecidos à humanidade por meio dos seus profetas, para que os que entendem suas palavras se familiarizassem com o bem e estivessem em guarda contra o seu oposto. Além disso, era apropriado que um desses extremos, o melhor dos dois, fosse chamado Filho de Deus, por causa de sua preeminência. E o outro, que é diametralmente oposto, fosse chamado filho do demônio maligno, e de Satanás, e do diabo. E, em seguida, como o mal se caracteriza especialmente por sua difusão, e atinge sua maior altura quando simula a aparência do bem, por essa razão sinais, e prodígios, e milagres mentirosos acompanham o mal, pela cooperação do seu pai, o diabo. Pois, superando em muito a ajuda que esses demônios dão aos charlatães (que enganam os homens para os mais vis propósitos), é o auxílio que o próprio diabo presta para enganar a raça humana. Paulo, de fato, fala daquele que se chama Anticristo, descrevendo, ainda que com certa reserva, tanto o modo, quanto o tempo, quanto a causa da vinda dele à raça humana. E veja se a linguagem dele sobre esse assunto não é de todo apropriada, e indigna de ser tratada com o menor grau de ridículo.